Ano I - Nº 2, Outubro de 2006
Alameda Digital
Dossier Liberdade de Expressão
A Guerra contra os Estereótipos

por Carlos Bobone

Depois da extinção da censura, a democracia portuguesa identificou um outro inimigo do pensamento livre, alojado nas mentalidades conservadoras: as “distorções” do pensamento, nascidas de velhos estereótipos que tendem a perpetuar conceitos tradicionais, como o do papel do homem e da mulher na sociedade. Não sendo possível mudar de um momento para o outro a forma de pensar de um povo, tratou-se da acautelar a higiene mental das próximas gerações, afastando-as de imagens, textos e linguagem que sirvam de suporte a concepções sociais indesejáveis.

Nas últimas décadas do século XX o Estado Português declarou guerra aos jornais, discos, cartazes, filmes, cassetes vídeo, jogos didácticos e manuais escolares cujo conteúdo estivesse infectado de “distorções sexistas”. O objectivo da campanha, baptizada com o nome “Mudar as Atitudes”, era ambicioso: criar uma nova geração de portugueses livre dos tradicionais estereótipos sobre o papel de cada sexo na sociedade, e assim construir um novo modelo de relações humanas, assente na igualdade de oportunidades. Mas se as ambições eram grandes, o esforço desenvolvido não correspondeu de forma alguma aos resultados pretendidos. Foi uma guerra envergonhada, sem o recurso a grandes meios publicitários, e com resultados tão ténues que não conseguiram incomodar nenhum dos visados. Ainda assim, revestiu-se de um significado ideológico merecedor do nosso reparo, porque veio coberta com a chancela da Presidência do Conselho de Ministros / Comissão da Condição Feminina. As recomendações divulgadas sob tão altos auspícios mostram-nos aquilo a que estaríamos sujeitos se um dos nossos governos tivesse a força e a coragem para impor as suas convicções oficiais.

O grosso da campanha consistiu na edição de pequenos manuais que ensinam o educador a identificar e evitar as tais “distorções sexistas”. Ao longo das páginas destas pequenas mas instrutivas publicações, desenrola-se perante os nossos olhos todo o horror da situação que vivem as mulheres criadas em ambientes tradicionais. Desde as ilustrações dos livros infantis até aos exercícios de matemática, passando pelas expressões mais corriqueiras do dia-a-dia, tudo conspira contra elas, “transmitindo às raparigas a ideia de que as mulheres são menos importantes e têm menos peso na nossa sociedade do que os homens”.
As recomendações /sugestões apresentadas no final dirigem-se a docentes, pais, educadores e casas editoras, servindo também de ameaça a estas últimas, pois intimam severamente os primeiros ao boicote de todos os “materiais didáticos” que não cumpram os cânones, fazendo-lhes sentir as pesadas responsabilidades em que incorrem se forem descuidados neste aspecto, podendo prejudicar gravemente o desenvolvimento da personalidade das crianças sob a sua tutela.

O objectivo declarado é o combate a cada uma das formas insidiosas de atrofiar a personalidade feminina,  abrangendo várias categorias de distorções. Embora se trate aqui de problemas que têm existência real, as recomendações encontradas criariam aberrações ainda mais graves se fossem aplicadas, pois implicariam a subordinação de textos, imagens, conversas privadas, e até do sentido de humor de cada um de nós, a uma autoridade supervisora da correcção sexológica.

Segue-se uma pequena amostra da campanha “Mudar de Atitude”:

Invisibilidade: Sub-representação ou omissão das mulheres nos materiais pedagógicos - Como combatê-la:

  1. As mulheres e as raparigas deverão figurar como participantes na mesma proporção que os homens e os rapazes nas histórias, exemplos, exercícios de matemática, nos temas para debate e nas ilustrações, independentemente da disciplina.
  2. Nas ilustrações, a personagem maior, mais forte ou mais activa deverá ser com tanta frequência uma mulher como um homem. O mesmo se aplica a outras qualidades e características.

Estereótipos associados ao Feminino e ao Masculino:

- Dever-se-á tentar eliminar os estereótipos ligados às profissões, que fazem com que certas profissões sejam consideradas femininas e outras masculinas.

  1. É importante que os materiais pedagógicos apresentem modelos positivos de mulheres detendo postos de responsabilidade
  2. Deve evitar-se a apresentação de homens na dependência das mulheres para obter conselho sobre que vestir ou comer, incapazes de cuidarem de si próprios ou ainda homens sendo objecto de risota quando se ocupam de tarefas domésticas.

Como evitar uma linguagem sexista – Formas alternativas de expressão:

Não   Sim
O homem   A humanidade, as pessoas, a gente
Os direitos do homem   Os direitos humanos
Quando o homem inventou a roda   Quando a roda foi inventada
A mãe do Eduardo   A Paula
A irmã do Rui   A Filomena
Os meninos (para designar crianças de ambos os sexos)   As meninas e os meninos, as crianças
Os irmãos (para designar o Feminino e o masculino)   Os irmãos e as irmãs
O professor   O professorado
A reunião foi uma perda de tempo, foi só conversa de mulheres   A reunião foi uma perda de tempo, foi conversa fiada
a Teresa nunca pára quieta, gosta de subir às árvores, de saltar muros, de jogar à bola, é mesmo uma Maria Rapaz   a Teresa nunca pára quieta, gosta de subir às árvores, de saltar muros, de jogar à bola, é mesmo uma Maria Rapaz é uma criança muito viva
A Sara foi muito corajosa, portou-se como um homem!   A Sara foi muito corajosa
Para uma rapariga, a Fernanda
Até tem um bom ordenado!
  A Fernanda tem um bom ordenado

Fonte: Distorções Sexistas nos Materiais Pedagógicos. Como identificá-las e como evitá-las. Texto de Isabel Romão. Presidência do Conselho de Ministros / Comissão da Condição Feminina, 1989.

 
   
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