Da liberdade de pensamento à liberdade de expressão
por Miguel Castelo Branco
Tenho trabalhado ao longos dos últimos quinze anos na companhia dos
cimélios das principais bibliotecas patrimoniais portuguesas: Évora,
Biblioteca Nacional, Palácio da Ajuda, Academia das Ciências, Torre do
Tombo, Coimbra, Aveiro e Porto. Dos códices iluminados medievais e
renascentistas aos incunábulos do século XV, das tipografias dos
grandes impressores dos séculos XVI e XVII – Valentim Fernandes,
Germão Galharde, João de Barreira, António de Mariz, Paulo Craesbeck,
et. al – emana a persistente e jamais derrotada capacidade dos homens
de todos os tempos em derrubar pela palavra escrita ideias e verdades
impostas, autoridades tidas por indiscutíveis, linhas de pensamento
que se julgam insuperáveis. A história da liberdade é, por isso, a
história da faculdade de pensar, criticar e refazer o conhecimento.
Homo cogitans, o ser humano nasce assim como o único ser dotado para a
abstracção, a intelecção do universo físico e metafísico, o
estabelecimento de leis, a construção do método científico, o domínio
do passado e a prospecção e antecipação do futuro. Se alguma utilidade
podemos retirar da Filosofia e da história das ideias, essas serão, à
cabeça, o ininterrupto e determinado esforço cognoscitivo para
encontrar respostas, desfazer certezas e validar novas. A vida
intelectual é, assim, um campo de batalha silencioso, uma luta de
supressão entre ideias que morrem e ideias que triunfam antes que a
sua expressão social – política, económica, artística – se verifique.
Se ninguém pode colocar grilhetas no pensamento, é elemento de toda a
evidência que a repressão da expressão do pensamento faz parte de
todos os sistemas sociais. Não há comunidade histórica que não tenha
criado instituições repressivas visando policiar, reprimir, censurar
ou mesmo suprimir ideias tidas por contrárias a uma estimada verdade
oficial. Se o conhecimento é poder, ideias que coloquem em risco a
estabilidade do corpo social e submissão dos indivíduos são legalmente
puníveis.
A liberdade de expressão encontra, assim, limites positivos (a lei),
mas também outros a que orgulhosamente os detentores do poder chamam
de limites materiais, isto é, indiscutíveis. Qualquer sociedade
política interdita, in limite, o seu contrário. Esta tendência
totalitária é, numas, mais discreta, noutras mais intransigente e até
violenta. As democracias possuem, também, pulsões liberticidas, se bem
que as escondam sob aparente capa de tolerância. O elemento mais
perturbador desta repressão disfarçada é que em tais sociedades não
mais existem instituições repressivas mandatadas para a supressão do
"direito de expressão", mas uma translação do eixo para outras sedes
de poder condicionador, nomeadamente a comunicação social – não há
opinião pública, mas opinião que se publica – e as instituições
produtoras e reprodutoras da verdade oficial, nomeadamente a
universidade e as casa editoras. Outro elemento perturbador prende-se
com a crescente desautorização do "pensamento duro" – sempre relativo,
tomado como igual a outras formulações teoréticas - em benefício do
"pensamento mole", ou seja, da opinião. Se a todos é autorizada
opinião, a democracia transforma-se num método, numa atitude; logo,
conquanto não se firam os "limites materiais", as opiniões são todas
respeitadas. É esta a grande vulnerabilidade das sociedades abertas,
conservadoras no centro, intransigentes e repressivas na periferia.
Os bloqueios de que padece a sociedade portuguesa são herança secular
da vigilância, repressão e sufocação de ideias proibidas. Com uma
história longa repleta de Inquisições, listagens de obras proibidas,
censura, auto-censura e desprezo pelo que se desconhece, os
portugueses são, por natureza do meio, avessos à mudança das
mentalidades, hostis ao incómodo causado pela responsabilidade nascida
da auto-determinação, consensualistas e desconfiados, fugidios e
precários na arte de argumentar. Espero que um dia possamos, com
orgulho, assumir o risco da aventura do pensamento e da sua defesa
pública. |