O Mal Maior
por João de Castro de Mendia
Chegamos, efectivamente, a um ponto de grande perigo nacional. E isto, porque são cada vez maiores os sintomas de não haver no executivo quem resolva coisa alguma e de isso acontecer porque, mesmo se o quisessem, não saberiam. Mas mais grave ainda é não haver neste governo quem se aperceba do que está realmente em causa; correspondendo isso a dizer que as hipóteses de se inverter a actual situação são cada vez menos. Afigura-se ainda com gravíssimas consequências tudo isso acontecer, ou não acontecer, e nada nem ninguém ser imputável. Sacode-se o capote, parte-se da tragédia de que isso é suficiente para que nos convençamos que os problemas deixaram de existir e nada muda nem se altera. Todos se continuam a dedicar em fazer coisas inúteis, tendo mesmo deixado de haver a noção de que o que dizem ser soluções, muitas vezes são medidas que deveriam ir no sentido oposto. As soluções que este governo não se cansa de alardear, nos mais variados sectores, estão longe de ser soluções. São antes meros “atamancansos” que muito nos irão prejudicar mais tarde quando pouco houver a fazer.
Quase nada em Portugal tem sido feito no último ano com o propósito de nos resolver o problema de fundo. O desenvolvimento e a nossa aproximação aos níveis dos outros países europeus não se fazem encerrando maternidades e escolas, por exemplo. O que ajudaria, isso sim, seria deixar de legislar de forma a tornar insuportável a vida das famílias tornando a natural procriação num exercício caríssimo e insustentável. Começa logo a premissa do executivo por estar errada, ou seja, não deveria ser ele o primeiro a queixar-se do lamentável estado em que quase tudo está, tentando, estupidamente, dar-nos a ideia de que será ele o último responsável. Porque é o primeiro. E muitas vezes o único.
Claro que a iniciativa de criar tem que partir dos empreendedores, devendo apenas o Estado remeter-se às coisas para que está vocacionado. Que é, entre outras, a de se meter o menos possível na vida das pessoas, e das empresas. Mas, o menos possível não é nada. E esse quase nada deveria ir no sentido de ajudar a iniciativa privada a ganhar dinheiro ao invés de lhe soltar os costumados tiques de raiva invejosa e carrega-la com regras e fiscalidade inaguentáveis.
Estou genuinamente convencido que Portugal é dos Países mais fáceis de governar. Tanto pela dimensão pequena que tem, sendo isso uma vantagem e não o defeito que o poder diz estar na base de tudo o que não sabe fazer, como por nada haver nesta nossa Terra que esteja bem, e a funcionar. Tudo está mal. E muitas coisas mal demais. E a culpa não é dos portugueses, como Jack Welch rapidamente concluiu; é do poder. Dos governos. Pelo que, fazer melhor é facílimo.
Bastaria, assim, melhorar fosse o que fosse para que os níveis começassem a subir e as pessoas a sentirem-se melhor. E uma das provas de que isto é assim, é Portugal ter uma dimensão maior do que a Áustria, Bélgica, Suiça, Dinamarca, Holanda, Irlanda, Luxemburgo, e outros, nenhum destes países ter riquezas naturais e estarem todos eles, como se sabe, bem melhor do que nós. Não é, por isso, com humilhantes idas à Finlândia que Sócrates aprende a governar. Mas, como parece que é logo com a dignidade aquilo com que Sócrates não se sentirá muito a vontade, então tanto fará onde vá.
Será que o que está mal estará mal de propósito? É que é tão estranho que a vida se passe como se passa, sendo a solução tão óbvia e barata, que só de propósito se entenderá que muitas situações aconteçam como acontecem. E se mantenham.
Comecemos por partir da circunstância de, pela primeira vez, ter havido, em macro política, alguma surpresa, que foi, o chumbo do que queriam que viesse a ser uma constituição europeia. Ao chumbo deste perverso projecto de experiência federalista, que estava, aliás, exarado no seu conteudo mas que os povos recusaram, ter-se-ão seguido compromissos que precipitaram que se encetasse, na Península Ibérica, o modelo recusado para a Europa; “fait-accompli” típico do socialismo. Sobretudo do democrático.
O que José Sócrates diz, o mal que faz, o que ele não faz, os problemas que Zapatero não resolve, os enormes e gravíssimos que cria onde os não há e o que estúpida e criminosamente anda a dizer o ex director do Avante e nosso Ministro Lino assumindo-se iberista e insultando-nos a História e a inteligência, não só são realidades que estão muito longe de acontecer por acaso, como o à vontade com que acontecem sugere que nada disto sejam inocentes distracções. Não se diz a piramidal enormidade de Portugal ter uma história e uma língua comuns com a Espanha, sem querer com isso dizer muito mais do que uma altamente criminosa mentira.
O que está a passar-se nos bastidores do poder será assim exactamente o contrário do que parece a tal propaganda que Sócrates usa e abusa. A condução da vida em Portugal, definitivamente, tem que passar a parecer o que é. Porque, ganhar eleições, mesmo com maiorias absolutas, não dá direito a ninguém de achar que pode dispor do que não é de ninguém, porque é de todos. E é Português. O direito de mandar, sobretudo em democracia, acaba na hora em que o mandante deixar de perceber ao serviço de quem está, perdendo assim a legitimidade de o fazer. Haia fez-se para isso. |