ENTREVISTA
com Yolanda Morín
"Consideramos que naqueles dias se consumou um golpe de Estado encoberto que alterou o governo de Espanha"
Yolanda Couceiro Morín é presidente do Club Minuto Digital e vive em Gecho, num País Basco onde a ETA e os grupos violentos que se movem em seu redor não mostram grande consideração pela sua coragem cívica. Perseguida pela terrorismo desde 2003, foi recentemente agredida em Bilbao mas a violência independentista não se mostra capaz de lhe demover as convicções. Fomos falar com ela.
Alameda Digital - Está ameaçada pela ETA desde 2003 e é público que recentemente foi descoberta e apreendida ao “Comando Vizcaya” documentação diversa sobre si. Como é que tudo isto começou?
Yolanda Morín - No que se refere ao terrorismo nunca sabemos muito bem como começaram as coisas, mas é seguro que informação sobre mim começou a ser reunida em virtude da minha participação em protestos contra a organização terrorista basca.
AD - E como é o dia a dia de alguém que a ETA tem sob vista?
YM -
Nós tentamos que seja igual ao que era antes, mas a verdade é que temos que nos mover continuamente com escolta, evitando percursos iguais…
AD - No meio de tudo isso já considerou a hipótese de abandonar o País Basco?
YM - Deixar o País Basco é praticamente impossível. Entre outras coisas porque é aquí que temos organizada a nossa vida, é aquí que temos os amigos e a família; e por outro lado porque nesta altura não irei ceder às pretensões do grupo armado e dos elementos violentos que estão ao seu redor.
AD - Creio que disse há pouco tempo numa outra entrevista que no País Basco há “um regime de ditadura sem liberdade”. Há real liberdade de expressão no País Basco ou domina um clime de medo?
YM - Não há liberdade, não se pode opinar livremente. As pessoas que exercem livremente o seu direito à liberdade de expressão, como é o nosso caso no Minuto Digital, acabam por encontrar o terrorismo e tudo o que o rodeia.
Existe uma auto-censura que, por medo, o cidadão permite que acabe por se impor, de modo que a realidade sobre tudo o que aquí sucede está deformada por ausência de porta-vozes que transmitam a situação real do País Basco.
AD - Os Repórteres sem Fronteiras já chamaram a atenção para problemas com a liberdade de informar tanto na Catalunha como no País Basco. Que consequências antevê para o futuro nessas regiões?
YM - Teremos que aguardar e ver o que vai suceder no processo de “rendição” do governo à ETA, mas temo seriamente que as nossas liberdades saiam prejudicadas. Se efectivamente o processo avançar, não tenho dúvidas de que em cima da mesa estará, entre outras coisas, a limitação da liberdade de determinados meios de comunicação.
Parece evidente que isto da liberdade de expressão não é do agrado do nacionalismo basco.
AD - Sente que hoje em dia, na imprensa europeia, há temas-tabú?
YM - Claro que existem temas-tabú. Há temas de que praticamente não se fala, que são os que podemos chamar de “politicamente incorrectos”, como são a imigração ou a expansão do Islão.
AD - Temos a indicação de que ultimamente tem desenvolvido acções em nome de muitas pessoas que querem saber o que realmente aconteceu no 11 de Março. A história oficial não está bem contada?
YM - Eu sou a coordenadora geral da Plataforma España y Libertad, uma organização cívica composta por 45 associações que tem vindo a tomar diversas iniciativas judiciais nos últimos meses. Entre elas, denunciámos vários assuntos ligados ao 11 de Março, como é o caso da falsificação de determinados documentos que têm relação com os atentados.
No que respeita ao 11 de Março consideramos que naqueles dias se consumou um golpe de Estado encoberto que alterou o governo de Espanha.
São muitos os que estão a investigar para que se possa saber a verdade e nós somos apenas mais um a tentar desmascarar os que estão por detrás do mais grave atentado que se produziu na Europa.
AD - Que lhe parecem as recentes polémicas em volta da “memória histórica” que ultimamente enchem a imprensa espanhola?
YM - Em Espanha, a memória histórica é utilizada pelo governo socialista como uma cortina de fumo. Não é normal que se subvencionem organizações de carácter marcadamente totalitário e marxista para desenterrar cadáveres por toda a Espanha. O que se está a desenvolver é uma memória histórica mediatizada e parcial, que esquece metade dos espanhóis que se viram metidos naquela guerra.
A reconciliação apenas pode conseguir-se pela igualdade, na hora de avaliar o que sucedeu. Não se consegue pela parcialidade que vende um dos lados como o bom e o outro como o mau.
AD - Uma última pergunta, de digital para digital: agora que o Minuto Digital está já entre os dez digitais mais lidos de Espanha, que balanço fazem e que objectivos e expectativas têm para o futuro, não só para o Minuto mas também para a imprensa de suporte digital?
YM - O Minuto Digital é um exercício cívico e jornalístico com antecedentes desconhecidos em Espanha. Dependemos apenas dos nossos sócios, o que nos dá uma capacidade de manobra que não é usual nos meios de comunicação tradicionais. Essa margem de manobra traduz-se em independência e essa independência traduz-se em liberdade.
A liberdade não é uma coisa que agrade a toda a gente e o resultado disto é que somos um meio criticado tanto à esquerda como à direita. Inclusivamente, as manobras mais importantes para cercear a nossa liberdade ou a da Plataforma España y Libertad – da qual somos apenas mais um membro -, vêm de posições direitistas, confrontando-nos com uma forte corrente de opinião em determinados sectores que vivem de subvenções e que são propensos a boicotar o nosso periódico.
Tudo isto dá-nos mais leitores, vamos crescendo e o nosso objectivo é consolidar definitivamente o projecto jornalístico.
Creio que em Espanha já não há muito mais espaço para a imprensa digital e os novos projectos terão problemas para crescer.
Por último, gostaria de enviar um forte abraço aos nossos irmãos portugueses, de vos felicitar e dar ânimo para o projecto da Alameda Digital, próximo do nosso e para o qual desejo um crescimento rápido e firme.
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