A Nova Inquisição
por Pedro Guedes da Silva
Nas sociedades contemporâneas, adormecidas por natureza e onde pontifica a banalidade e o pensamento único, quem raciocina fora do quadro permitido arrisca-se a ter problemas. Se o cenário de liberdades sempre guardou alguns instrumentos para com os que lhe apontavam fraquezas, parece certo que depois da queda do bloco soviético, proclamado o fim da História, o quadro piorou: o muro caiu e os adversários de outras épocas, mais uma vez de braço dado, parecem não saber o que fazer com as pedras.
Com o descrédito do que é político em nome de um progresso discutível, com a esquerda convertida à social-democracia e a direita saltando para a carruagem do utilitarismo liberal, emerge uma espécie de tirania do pensamento único que, começando por afectar os suspeitos do costume – é tão vago e impreciso o saco-conceito de extrema-direita… -, atinge já hoje conservadores, católicos, defensores da Vida, um ou outro liberal menos conformista and still counting.
Ora, antevendo o fenómeno com notável antecipação ao mesmo tempo que reflectiam nos “primeiros” casos práticos, Charles Champetier, David Barney e C. Lavirose publicaram em 1993 “La Nouvelle Inquisition – Ses acteurs, ses méthodes, ses victimes - Essai sur le terrorisme intellectuel el la police de la pensée”, um pequeno livro que se já era importante, assume hoje as características de indispensável em qualquer biblioteca que se preze.
David Barney começa por tratar de desmontar com minúcia e notável clareza o “reductio ad hitlerum”, conceito usado por Leo Strauss para denunciar o procedimento consistente de colar alguém ao nazismo com o intuito de o desacreditar publicamente e com efeitos de longa duração. Em Portugal, talvez porque o "nazismo" tenha andado lá mais por longe, é mais corrente a utilização do vocábulo “fascismo”, visto que a memória colectiva menos estupidificada, ao invés do texto constitucional, dificilmente embarcaria em associar Salazar e o Estado Novo à experiência alemã. Voltando a Barney. É exactamente com base nesta “reductio ad hitlerum” que foi moldando os cérebros ao longo dos tempos que o comum dos mortais - que nunca leu cinco páginas que fossem de História das Ideias Políticas - acompanha, meio frenético, a diabolização do atingido.
O procedimento de que falava Strauss, beneficiando do avançar dos anos face aos conceitos iniciais (e aproveitando da progressiva deseducação das gentes), torna possível que sejam dadas às palavras uma elasticidade proporcional ao seu não-significado, permitindo que coisas completamente diferentes se tornem sinónimas aos olhos das massas, ao mesmo tempo que não designam em si mesmo nada de concreto. Servem apenas para denegrir o visado. A ausência de rigor dos media e a disposição dos consumidores do papel em tomar como verdade incontestada o que neles se escreve faz o resto – como se verifica actualmente na utilização de expressões como “fascismo higiénico” para catalogar proibições de fumar. Se o princípio é tão simples, o método não é mais complicado. Segundo Barney, aplica-se a técnica do “chef de gare”: une-se a locomotiva “direita” à carruagem “extrema-direita”; esta última à do “fascismo”; segue-se a do “nazismo” e está bom de ver que tudo termina na carruagem de “Auschwitz”. Isto feito, como bem observa Barney, basta meter o comboio a circular.
O grande inconveniente do esquema é que esta legitimição da desinformação só funciona por referência ao passado, o que obriga o sistema mediático a fazer crer que o tal “fascismo-papão” está sempre aí à porta, sob pena da gravidade da ameça parecer ridícula aos olhos do destinatário, pouco propenso que está, na tal sociedade das banalidades, a quase tudo que não tenha a ver com o IRS. Como é evidente, para que a denúncia do “fascismo” mantenha toda a sua força psicológica, é necessário representá-lo como um fenómeno único na história da humanidade – o mal absoluto, o que ajuda a explicar a indiferença com que se olha o socialismo real. Sucede que o mecanismo montado necessita deste pacto com o diabo, visto que de outra forma, em concebendo algo que lhe fosse comparável, relativizaria o tal mal absoluto, banalizando-o. É então impossível à construção mediática comparar Hitler e Estaline, ou imaginá-los sequer em plano idêntico. Logicamente – segundo Barney – a construção do sistema beneficia de um facto histórico determinante: a aliança das democracias liberais com o simpático Estaline por alturas da guerra, ou seja, a aliança das democracias com um totalitarismo, tendo em vista abater um outro. Isto resulta em que é forçoso não colocar os dois totalitarismos em pé de igualdade, sob pena de se afundar a credibilidade do argumentário. A este respeito, Jean Daniel lembra que se Hitler fosse apresentado em plano igual ao de Estaline - se o "monstro" não é único - ele surgiria aos olhos da opinião pública um nadinha menos monstruoso, podendo mesmo levar algumas mentes a pensar como segue: se estamos em presença de dois "monstros" idênticos, porque razão se escolheu para parceiro de jogo um e não outro? E assim se cria um impedimento no debate: “il ne faut pas céder un pouce sur ce terrain, sinon ce sont toutes nos valeurs, toutes nos fidelités, toute notre memóire qui s’écroulent”, lembrava muito a propósito Daniel em artigo publicado no Nouvel Observateur.
Descodificada a “reductio ad hitlerum”, Lavirose descreve, numa segunda parte da obra, a “nova inquisição”: quem são e de onde vieram estes que pretendem impôr a tirania do consenso. E não será difícil caracterizá-los; a nova inquisição é formada essencialmente por ex-adeptos marxistas e desiludidos da revolução cultural de Mao, que assim passaram da ideologia à polícia, onde parecem sentir-se como peixe na água. Como se tivessem aproveitado das velhas ideias o seu lado mais sombrio, enquanto mereciam bom acolhimento nas colunas dos jornais, no mundo da edição ou na carreira universitária. Constituídos em implacáveis comités de vigilância da liberdade autorizada, estabelecem a “agenda” social e política, determinam o que é lícito e quem é frequentável, recorrendo ao que melhor sempre souberam fazer: “instrução de processos políticos generalizados, julgamentos anacrónicos, acusações sem provas, genealogias e filiações intelectuais fabricadas”. Eis o primado do que Lavirose classifica como “concepção higiénica da vida social”.
As técnicas utilizadas também não parecem ser especialmente complexas e delas trata essencialmente Charles Champetier. Tudo consiste em descontextualizar textos, erguer processos de intenção que permitam lançar a dúvida, condenar na praça pública, sem direito a defesa, em função de presunções e, o mais irritante, em função do que não se disse. Assim se atinge o desejado efeito de contaminação. Champetier, director da revista Éléments, dá como exemplo a Nova Direita (ND) francesa, durante muito tempo cliente habitual desta metodologia. Poucos cuidavam de saber que a redacção da revista Éléments condenava o totalitarismo e não era adepta de uma leitura biológica da história; as sucessivas posições da ND em favor do terceiro mundo e contrárias ao extermínio e uniformização das identidades dos povos do hemisfério Sul também não mereceram bom acolhimento do complexo mediático-intelectual. A verdade é que a sentença estava dada ainda antes de Champetier e Benoist terem escrito o que quer que fosse. E quanto a isto lembre-se a cereja no topo do bolo: a Pierre-André Taguieff, um homem de esquerda que apreciava o debate de ideias e que era ao mesmo tempo um dos maiores críticos da ND, ocorreu certa vez escrever um livro – “Sur la Nouvelle Droite” – em que, ao invés de desclassificar ou insultar, estudava, analisava e respondia no plano das ideias. O resultado não deixará de surpreender uns quantos: Taguieff foi de imediato classificado como “fascista”… A coisa tem explicação fácil. A polícia do pensamento – defensora acérrima da moral da moda e das ideologias dominantes – preocupa-se pouco com a imparcialidade e muito com a eficácia.
E é dessa eficácia que tratam as últimas trinta páginas de “La Nouvelle Inquisition”: de caso em caso, relatam-se os “affaires”. Tomamos assim contacto com as perseguições movidas a Carrel, Gauchon, Dumézil e mais uns quantos.
Um livro essencial de que já se justificava nova edição, mas desta feita revista e aumentada. Suspeito que, só para a parte dos “affaires”, não fossem bastantes três tomos. |