Progresso Primitivo
por F. Santos
A Câmara Municipal de Lisboa prepara um plano de reconstrução dos Bairros da Boavista e Padre Cruz. O plano prevê a demolição completa de todas as edificações lá existentes e o nascimento, em seu lugar, de lotes de apartamentos que poderão chegar aos seis andares.
Estes bairros, considerados degradados, nasceram em consequência do desalojamento de pessoas de outras áreas da cidade, por estarem manifestamente degradadas ou para concretizar obras que exigiam esse desalojamento.
O “Diário de Notícias”, na sua edição de 25 de Outubro, traz-nos a notícia, complementada pelas opiniões de alguns dos moradores. A tónica geral era o receio de terem que se mudar para um edifício de apartamentos, sendo forçados a abdicar da sua vivenda que, modesta que seja, lhes garante uma certa individualidade, lhes possibilita ter uma horta, em suma: um espaço que seja verdadeiramente seu.
Vivemos numa era dita de progresso: o que está na ordem do dia é construir, crescer, desenvolver. O avanço da sociedade é medido por taxas de crescimento, por área edificada, pela construção desenfreada. O modelo é tão consensual que já quase ninguém o põe em causa. Uma vez por outra fala-se em “desenvolvimento sustentável”, em equilibrar o progresso com a natureza, mas a questão da individualidade é deixada de lado.
Os nossos ouvidos são martelados diariamente com a felicidade de vivermos numa sociedade em que se respeita o indivíduo e os seus direitos. Mas com a mesma desenvoltura se institui que um indivíduo que viva numa vivenda modesta só pode estar melhor num bloco de apartamentos. Daí ao desalojamento coercivo vai um passo. É uma política a que poderíamos chamar “colectivização forçada”.
Sendo a “qualidade de vida” medida por indicadores, a nenhuma das excelências que elaboram projectos ocorre que um “indivíduo” pode ter muito maior qualidade de vida numa vivenda modesta e até precária do que num prédio igual a dezenas de outros nas redondezas, em que se sente oprimido pela massificação e, em última análise, desumanização que decorre de viver numa “colmeia colectiva” a que se chamará Bairro do Progresso ou algo semelhante.
Alfred Fabre-Luce escrevia em 1958 o seguinte: «Uma certa febre da destruição é visível em todo o Novo Mundo [as Américas]. Em Nova Iorque, a partir do momento em que um edifício está condenado, grandes X em papel são apostos nas suas janelas e multiplicam-se à medida que os locatários se mudam. (...) Dissipar num só dia o esforço de um ano inteiro é, segundo os etnólogos, a essência de uma festa primitiva. (...) Ao ritmo actual de invenção tudo o que é edificado está já ultrapassado em esprito»
O modelo é hoje universal. Festejemos, pois, o nosso progresso primitivo. |