Ano I - Nº 2, Outubro de 2006
Alameda Digital
Dossier Liberdade de Expressão
Obras Esquecidas de Autores Famosos

por Carlos Bobone

Obra violenta na expressão de sentimentos, impiedosa na apreciação dos homens, destemperada no uso das palavras, é o desabafo público de um homem que confessa ter péssima impressão da humanidade em geral, vivendo num estado de “irritabilidade pela mentalidade da maioria do meu semelhante, ao ver que a víscera comanditária de quasi todos eles, desde os da extrema direita aos da extrema esquerda, é o estomago, e ao convencer-me que o seu órgão de pensamento é a língua”.

O objectivo do livro é a descrição do que têm sido as últimas décadas da vida política portuguesa, expondo aos olhos do público uma parte da “canalha que aí anda culpada da miséria moral da minha Pátria”. A força que o leva a escrever é o patriotismo, ferido e raivoso por não poder liquidar “o pseudo-escol do meu país”.

 A narrativa divide-se em três partes. Na primeira debruça-se sobre os homens e a indisciplina da monarquia, “dessa vergonhosa monarquia que nos deshonrava já perante o mundo ao porem os seus homens o partido acima da nação”. As suas fontes principais, nesta parte, são uma carta de Mouzinho de Albuquerque a José Luciano de Castro e um livro de Homem Cristo. Daí extrai uma descrição do estado de miséria moral em que caíra a política monárquica, com os políticos destituídos de ideal e de devoção à coroa, os interesses a falarem mais alto que tudo o resto e a indisciplina no exército.

Na segunda parte descreve o período que vai da proclamação da república até à instauração da ditadura militar, em 1926. Estamos no “infame período da república com a vergonha de S. Bento aberta”. É aqui que o seu julgamento sobre a baixeza dos homens públicos atinge o maior grau de exaltação. Os termos que usa para classificar os políticos desta época denotam o violento desprezo que lhes vota. São todos “canalhas”, “chacais”, “malandros”, “tubarões”, “judas mentirosos”, “velhos idiotas”, “sabujos” ou “cobardes”. O parlamento é sempre referido em termos aviltantes: “A taberna de S. Bento”,  “a papagailândia”, “uma série de garotos dizendo piadas de sol uns aos outros”. O que sai da boca dos parlamentares é cuspo, vómito ou baba. A representatividade do parlamento é ridicularizada: “O povo soberano pela boca do seu soberaníssimo parlamento cuspia, falava, berrava na grande fábrica de destilação de saliva que era S. Bento”. De uma maneira geral mostra pouco apreço pelos palradores parlamentares e aproveita para explicar que tem muito pouca admiração pela figura de José Estevão, o campeão da oratória parlamentar no século XIX. O retrato da  primeira república é pintado com as cores mais negras: revoluções constantes, assassinatos, greves, escândalos económicos, apropriação dos empregos públicos, atentados à bomba, carestia de vida, indisciplina na tropa, um país sem estradas, sem telefones, permanentemente endividado, em suma “a tirania, a desmoralização, a infâmia dos governos que passam pelo poder”.  O país pedia uma ditadura que o regenerasse.

A terceira parte do livro faz a “apreciação da obra da Ditadura, obra que só quem não quer não vê”. A sua apreciação geral deste período é benévola, mas não se exime a exprimir duras críticas a certos aspectos da nova política, principalmente naquilo em que não fez um corte radical com a “malta” do regime anterior. Afirma nada dever à ditadura, mas manifesta-se pronto a combater os “chacais do reviralho”, porque “entre dois males escolho sempre o mais benigno”.

Os motivos do seu apoio à ditadura podem resumir-se a dois pontos: “primeiro porque a obra da ditadura é, comparada com a dos políticos, gigantesca; e segundo porque, não sendo a perfeição cá da terra, e apesar de haver muito pulha e imbecil ao lado da situação, eu toda a vida preferi o mau ao péssimo”. A demonstração da obra da ditadura leva-o a apresentar um grande número de dados estatísticos que provam o progresso do país em todos os domínios, desde 1926. A própria existência de estatísticas é um benefício que se pode atribuir ao novo regime. Humberto Delgado mostra especial apreço pela obra financeira de Salazar: “Basta a obra de Oliveira Salazar que se sente nas mais pequenas cousas, e que pena foi tivesse a crise mundial a contrariá-la, para que merecesse a pena ter-se implantado a Ditadura”.

O temperamento irritadiço do autor explode com particular violência quando fala dos homens do “reviralho”, quando os vê mancomunados para o assalto ao poder, depois de o terem desperdiçado, depois de se terem combatido violentamente quando dispunham dele a seu bel prazer. Definindo-se como “anti-reviralhista”, não acredita nas convicções democráticas da oposição à ditadura: “A gente do Reviralho não quer eleições. Se as quisesse não era em pleno recenseamento eleitoral que viria fazer bombardear, em 26 de agosto de 1931, a cidade por um sabujo”. Também não acredita no amor deles à liberdade, parecendo-lhe antes que se queixam porque “não há Libardade ... de matar, de insultar, de chicanar cada um, e a maioria dos republicanos reviralhistas não podem viver sem o insulto boçal, a revolução por trimestre, a chacina género dezenovoutubrista”. Aponta vários exemplos que mostram os baixos interesses escondidos sob as críticas à ditadura, ufanando-se de ter tapado a boca em duas penadas a um crítico de Oliveira Salazar, quando descobriu as razões particulares que o moviam.

Para calar os oposicionistas dá-se ao trabalho de contestar a maior parte das objecções que estes levantam à política de Salazar, mas antes de chegar ao fim mostra-se de novo impaciente com os críticos e manifesta a vontade de os agredir a tiro.

Não é fácil fazer um balanço final do texto e atribuir valor a uma obra onde se misturam observações bem fundadas com sentimentos exaltados, condenações sumárias e reacções impulsivas. Mas não há dúvida de que a leitura deste texto é um contributo insubstituível para a interpretação de alguns momentos da nossa história política.

 

Humberto Delgado
Ano de Edição: 1933


Da Pulhice do “Homo Sapiens”

Editora: Ed. Autor


 
 
   
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