Ano I - Nº 2, Outubro de 2006
Alameda Digital
Dossier Liberdade de Expressão
Totalitarismo: o Antigo e o Novo

por Jorge Azevedo Correia

Vivemos num tempo de slogans e palavras de ordem, num tempo de emocionalismos exacerbados e sensações à solta. O nihilismo de mensagem forte, de pistola em punho e bomba escondida debaixo do colchão, é hoje uma longínqua memória do século XX, tendo sido substituído por uma pieguice emocional sem qualquer tipo de fundamentação ou razão última. O momento é “pós-moderno” e não existe uma justificação para nada. Observem-se os liberais de outrora, defensores de direitos naturais e de um “estado de natureza” pré-político que justificava as suas posições políticas. Olhe-se agora para os liberais dos nossos dias que se justificam nas convenções da nossa sociedade e no progressismo (autêntica exploração da avidez humana). Observem-se os conservadores de outros tempos, que justificavam a sua acção com a ordem natural das coisas e das sociedades. Atente-se nos conservadores dos nossos dias, sempre dispostos a sacrificar a qualquer tipo de noção de ordem às exigências da massa e aos ídolos do nosso tempo.

Olhemos os comunistas de outrora e veremos um desejo irreprimível de mudança da sociedade que só podia ser aplacado pela Revolução. Cuidemos os esquerdistas de agora e nada mais encontraremos senão um partido de distribuição da riqueza, pronto a criar milhares de burguesinhos, cheios de livres-escolhas que anteriormente lhes estavam vedadas pela mensagem poderosa da “ditadura do proletariado”.

Pena que tanta linha escrita em jornais falhe este diagnóstico simples. Na verdade não existe qualquer alternativa política ou ideia nova na sociedade portuguesa. Existem diferentes perspectivas sobre a sociedade, mas uma mesma concepção que abraça todos os partidos. Quem estranha a forma canina como os dirigentes “direita a que temos direito” se prostram perante a memória de Álvaro Cunhal e visitam as festas que celebram genocidas de esquerda, ainda não percebeu que essa é a sua fonte espiritual.
Há quanto tempo não temos a felicidade de ver um político defender que alguma coisa deve ser feita por ser boa? Há quanto tempo não existe um político que afirme que há coisas que não são negociáveis?

O CDS é contra o aborto, mas acha bem que o voto popular posse subverter o Direito à Vida. O PSD nem sequer tem uma posição sobre o assunto, colando-se à infeliz ideia de que a vida de outrém (e o seu início e fim) pode ser determinado por uma contagem de papéis.

Há qualquer coisa de profundamente estranho nestas posições políticas, dispostas a serem revogadas, não por um argumento mais claro ou uma asserção mais próxima da verdade, mas por mera opinião de outrém. Um mundo e um conjunto de crenças que se renovam e reinventam ao esvaziar de uma urna.

Ao contrário do que se quer fazer crer o Totalitarismo não se trata de uma longínqua memória do século XX composta de cidades superpoliciadas e campos de extermínio. O Totalitarismo reside sobretudo nos caminhos do pensar que propiciaram todas essas maravilhas da civilização que se estenderam entre Bergen Belsen e o gelo dos campos de reinserção da Sibéria.

A obra de Leo Strauss surge nesse ponto como um verdadeiro guia, traçando os elementos que nos colocaram na escravatura de uma moral política que nos é alheia, porque independente de uma racionalidade. Na obra de Rousseau, Hobbes e Nietzsche a obediência política é absolutamente independente de qualquer razão ou argumento político, o que remete invariavelmente para uma condição de absoluto que é elemento de uma relação escravo-senhor (onde a obediência é questão de propriedade e legalidade) e não de uma relação de mútua vantagem (bem-comum).

Esta abordagem não pode deixar de nos elucidar sobre a nossa sociedade. Vivemos num mundo em que não existe qualquer tipo de racionalidade, onde os homens escolhem os seus representantes pela mitificação do indizível a que Weber convencionou chamar carisma, onde a população encara o Estado como luz messiânica ao fundo do túnel, num momento ético onde os valores mais elevados e ordenadores do mundo são a materialidade e um bem-estar físico. Aras em que tudo se sacrifica.

Vivemos num país onde os assíduos das missas mais concorridas do país fazem parte de partidos que se propõem a destruír todo o resquício de vida cristã no país.

Como se pode aderir a um projecto político absolutamente oposto dos valores que se dizem defender?

Não me parece que exista melhor exemplo de arbitrariedade e irracionalidade interior...

 
   
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