Vigilância Ideológica
por Carlos Bobone
A vigilância ideológica do regime democrático é exercida por uma plêiade de generosos pensadores que voluntariamente assumem o papel de defensores do bem público, sem retribuição oficial de qualquer género.
A tarefa que executam é das mais ingratas que se podem conceber num regime de livre circulação de ideias, onde não existe padrão oficial e obrigatório de pensamento. Cada um pode deixar-se levar pelos mais tortuosos labirintos da sua imaginação ou do seu raciocínio, sem temer o sufocante braço da repressão. Mas como alguns não sabem conter-se dentro da justa medida, há caminhos que os mais prudentes aconselham vivamente a evitar. Severos e cautelosos, vivem preocupados com os deploráveis danos que o “populismo” e a “demagogia” podem trazer à civilização das amplas liberdades. Fazem-se sacerdotes do culto da memória e alertam incansavelmente para a necessidade de lembrar quão raros foram os momentos de liberdade ao longo da história e quão largos são os caminhos que podem trazer de volta as trevas da opressão. Assumem voluntariamente a responsabilidade pela vigilância ideológica da democracia, encarregando-se de apontar o que é saudável e o que é pernicioso pensar, tendo em vista o bom funcionamento do regime. Não lhes faltam as tribunas, pois entre a massa dos leitores da imprensa política abundam aqueles que sinceramente desejam aperfeiçoar a sua postura democrática.
Vejamos, pois, o que se deve evitar. Pegando na prosa de um condutor de opinião, dada à estampa num jornal de grande tiragem há poucos meses atrás, encontraremos os ensinamentos básicos.
A dissertação moral começa com uma observação de quem fez pesquisa de campo: qualquer pessoa que tenha acompanhado uma campanha eleitoral pelo interior do país, afirma o cronista, pôde observar como estão profundamente arreigados no espírito das populações alguns lugares comuns: “Os políticos são todos iguais”, “eles querem é encher-se”, “não vale a pena votar porque eles prometem uma coisa e fazem outra”. A irracionalidade destas convicções é tal, continua ele, que qualquer tentativa de refutá-las com argumentos bem fundamentados está condenada à partida, não tem a mínima hipótese de ser tomada em conta por aqueles que assentam as suas opiniões políticas no chavão e no preconceito. Passando, em seguida, a explicar a origem de tão antidemocráticas convicções, o perspicaz observador da nossa vida política consegue surpreender-nos. Até aqui tudo fez para insinuar a falsidade daquelas ideias: chamando-lhes lugares-comuns, atribuindo-as às camadas mais ignorantes da população, dizendo que são imunes a uma refutação racional. Mas quando trata de procurar os “culpados” da difusão de semelhantes ideias – e o terem culpados sugere mais uma vez que são mentiras -, encontra no comportamento dos partidos grande parte da responsabilidade. Pela corrupção que alimentam, pela incompetência e o clientelismo a que dão pasto, os partidos acham-se entre os maiores culpados pelo alastrar do preconceito popular contra os políticos.
Chegados a este ponto, já percebemos que para o nosso censor um preconceito não é uma ideia falsa, sem fundamento, mas sim uma ideia inconveniente ao bom funcionamento das instituições políticas. Aos partidos cabem culpas pela difusão dos preconceitos populares porque dão razão às vozes que murmuram contra a seriedade dos políticos. Por outras palavras, dão um carácter de verdade, e portanto alguma respeitabilidade, àquelas ideias que numa democracia estável não devem gozar de bom acolhimento nem de boa reputação. Para terminar o texto explica-se a razão de ser do repúdio que se deve reservar a este tipo de lugares-comuns: são eles que criam o “caldo de cultura” onde se alimentam todos os totalitarismos.
Temos aqui, resumidamente expostos, os princípios orientadores da vigilância ideológica do regime: as ideias que possam conduzir a maus resultados políticos devem ser evitadas, recebendo um tratamento semelhante ao da superstição ou do fanatismo. Mas além disso, os partidos devem colaborar um pouco na manutenção do espírito correcto, abstendo-se de mostrar o seu pouco valor perante o vulgo. Se assim o não fizerem, tornam-se parcialmente responsáveis pelo aparecimento do populismo, que vive, ao que parece, das fraquezas da classe política. |