Da Comuna de Lisboa ao 25 de Novembro
por Pedro Guedes da Silva
I. No verão quente, contava cinco anos de idade. Compreenderá então o leitor que me falte vivência para que, com rigor, possa evocar grandes lembranças desses tempos que não sejam passagens forçadas por Madrid e pelo Rio de Janeiro, essas algo mais nítidas visto que por momentos me vi privado dos amigos da pré-escola. Nessa época, em consequência, o que eu queria era brincadeira: legos, subbutteos e playmobils - chegando-me o que sei de relatos de familiares e amigos ou da extensa bibliografia que a época proporcionou. Em cada português existia então um analista e um editor em potência. Pois direi que é justamente de relatos e leituras que verifico, anos depois, que se o que eu verdadeiramente queria era brincar não estou convencido de que grande parte dos meus concidadãos não me acompanhassem no gosto; a diferença residia apenas no alcance da garotice: ao passo que os meus airfix eram inofensivos para qualquer dos mortais, a galhofa dos adultos que então brincavam nas ruas em carnaval revolucionário permanente, deitou o país de pantanas, custou-nos anos de atrasos e largos milhares de mortos.
Na expectativa de que me lerão os mais novos – aqueles que nasceram já depois dos episódios da Comuna de Lisboa – deixo aqui meia dúzia de exemplos da (tragi)comédia que eram aqueles dias na metrópole e que, tivesse eu comigo a imagem, deviam ser ilustrados com a célebre pintura junto ao Aeroporto de Lisboa advertindo: “O último a sair que apague a luz”. Ou com aquela outra cujo relato não se me olvida e que em 1975 fazia por merecer o lugar nas ruas de Paris: “Si tu veut être general, allez au Portugal”. Falam por si.
Na verdade houve de tudo: para além das mais conhecidas nacionalizações, ocupações e saneamentos, das comissões de moradores e de vigilância democrática, de prisões sem culpa formada em consequência de mandados de captura por assinar (e libertações igualmente sem motivo), da proibição de forças políticas e de imprensa livre quando alegadamente se “democratizava” (Partido do Progresso, Partido Liberal, Movimento de Acção Portuguesa, jornais Bandarra, Tempo Novo e Tribuna Popular), houve uns patuscos de seu nome SUV (Soldados Unidos Vencerão!) que ajudavam a aumentar o caos e a indisciplina nos meios militares e que faziam as delícias dos cartoonistas internacionais; houve lunáticos (alguns com perturbações visíveis e notórias) feitos governantes; deu-se um sequestro do primeiro-ministro e da Assembleia por um aglomerado de grevistas da construção civil... e houve até – pasme-se! – uma greve do VI Governo a que se seguiu não menos bizarro episódio: insatisfeito com o facto, um grupo de intelectuais de esquerda processou o executivo por abandono de funções, à luz de legislação do Estado Novo que entretanto havia sido revogada. Nas vésperas do 25 de Novembro, Alberto Miguez, correspondente em Lisboa do jornal espanhol Ya, despachava para Madrid como segue: “nesta complicada tragicomédia, os enredos são tão difíceis de entender e de explicar que até o Presidente da República, na televisão, reconheceu-se incapaz de fazer o ponto da situação”.
Com aquela gente, Rowan Atkinson teria poucas hipóteses de concorrer.
II. Um pouco como sendo o culminar lógico do carnaval já descrito, uma boa parte da doutrina hoje dada como válida entende que é o 25 de Novembro – e não o 25 de Abril – que marca a estabilização do sistema político vigente. Percebo a tese e sou até tentado a encontrar-lhe algum merecimento, mas não sem que manifeste reservas, algo influenciado pelos escritos de Manuel Maria Múrias – que é leitura essencial para compreender a época, seja pela qualidade da prosa, seja pela honradez de princípios, seja pelo humor sempre presente. E assim aponto reservas de facto e de Direito, diga-se. É que se na verdade o 25 de Novembro coloca de algum modo fim à hipótese de uma guerra civil, o que se lhe seguiu não deixa de legitimar todo o PREC e as suas figuras, incorporando-as. Desde logo o PCP, branqueando-lhe um pesado cadastro ao mesmo tempo que se lhe reconhece uma importância “incontornável” para a democracia. Ao mesmo tempo, e na tal lógica “inclusiva” (para alguns), dando margem de actuação a alguns dos focos de loucura dos meses anteriores, como sejam, a título de exemplo, o COPCON (integrando-o no EMGFA) ou Otelo Saraiva de Carvalho que, nas presidenciais seguintes e apesar de estar em liberdade condicional, acusado de crimes graves, não tem qualquer dificuldade em concorrer ao acto eleitoral, ao contrário do Engº Pompílio da Cruz, que se supunha ter o apoio dos “retornados”, e a quem foram levantados inúmeros problemas administrativos em vista de lhe impedir a candidatura, presume-se que por ser manifestamente reaccionária. Isto dito, é pacífico considerar que a 25 de Novembro se regista um avanço positivo no processo revolucionário. Mas daí a ser certo que com ele se comemora a liberdade...
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