Ano I - Nº 3, Novembro de 2006
Alameda Digital
Do PREC ao 25 de Novembro
Conservar

por Jorge Azevedo Correia

Em Portugal, como na grande maioria dos países onde existe uma ditadura moral de esquerda, chamar a alguém conservador é uma ofensa grave. Uma grande vitória das forças ditas “progressistas” foi a capacidade de fazer crer que o Conservadorismo não se trataria de uma ideia política, mas de uma “disposição” absolutamente avessa à mudança. Para tal facto terão contribuído muito as abordagens do Conservadorismo britânico, repletas de prédicas do liberalismo e de crenças na impossibilidade de uma boa sociedade, de que Michael J. Oakeshott se tornou máximo expoente filosófico.
É hoje difícil abrir uma coluna de opinião do “centrão” sem encontrar uma máxima, um ataque ao racionalismo político, uma proclamação de cepticismo provindo da linhagem humeana, de que o britânico era acérrimo defensor.

Infelizmente para esses e para a esquerda, a quem convém ter um inimigo com tamanhos pés-de-barro, uma concepção Conservadora não se esgota na defesa do status quo. Este é o Conservadorismo que não se dá nas Universidades. Nas estatais qualquer pensamento conservador é tolerado enquanto não passa de uma minoria exótica, mas não é leccionado senão em aulas de diabolização e de exegese pós-moderna. Nas privadas temos a análise dos Conservadorismos da moda, das reflexões dos think-tanks dos actores globais, que não são mais que justificações para constelações de interesses frequentemente mal escondidos.

Num país destruído por Revoluções e Regenerações mal resolvidas há muito pouco para conservar. O Conservadorismo céptico, com a sua apologia de que a mudança gera apenas novos males (males desconhecidos, ainda por cima!) e com os seus tiques panglossianos de que “vivemos no melhor dos mundos possiveis”, é incapaz de estabelecer uma ideia de “boa sociedade”, impossibilitado de afirmar o que é certo e errado porque encerrado num presente estático e eterno, onde não há que esperar melhor ou pior, porque isso simplesmente não existe. Este Conservadorismo, antigo como o Homem, é uma constante defesa de situações injustificáveis, fundada no medo e na incerteza, sempre disposto a amaldiçoar o homem que dominou o fogo e que nos trouxe para este mundo novo.
É o que acontece quando se critica o racionalismo dogmático e cientificista para depois não se acreditar em nada.

A este Conservadorismo estático, que nada acrescenta, nada compreende, nada julga, opõe-se um Conservadorismo vivo, que apresenta uma concepção do Bom, porque olha para o passado como forma de se compreender o que é eterno no Homem, uma vez que será sempre esse elemento, a essência, o que deve ser conservado.

Edmund Burke é frequentemente aclamado como o “pai” do Conservadorismo político. Contudo, é claramente errado afirmar que tenha sido um defensor de qualquer situacionismo. A sua vida foi repleta de ataques a essa religião do status quo que os Conservadores cépticos tanto louvam. Foi esse o caso da sua posição ferozmente anti-esclavagista, que tantos dissabores causou no seio da política britânica. Foi também o caso da defesa das colónias americanas no que seria a Guerra da Independência, por considerar que a situação de sujeição dos colonos se devia a uma usurpação dos poderes régios que violavam a Constituição Britânica e os seus princípios não-escritos e eternos. Foi também o caso do seu ataque ao Governador-Geral Warren Hastings que utilizava a Companhia das Índias para proveito de Inglaterra e proveito próprio, com claro desrespeito pelo direito à Justiça das populações (recorrendo à guerra contra inocentes e príncipes indianos que nada haviam feito para violar a paz estabelecida pelo Império). Hastings não violara lei nenhuma, mas havia destruído todos os pressupostos sobre os quais assentava a justiça do Império Britânico das Índias Orientais. Mais uma vez príncipios não-escritos, consagrados na razão eterna das coisas, em particular de que uma comunidade política se situa sempre na vantagem de todas as partes, o seu “Bem Comum”. Onde a situação não se coaduna com estes princípios eternos a situação tem de mudar.

Ao olharmos a forma como Burke recebeu a Revolução Francesa veremos, mais uma vez, que esta nunca poderá ser a apologia do establishment, uma vez que toda a mensagem contida nas Reflexões reside no facto de que só uma sociedade (dir-se-ia uma comunidade) em que os princípios eternos não possam ser subvertidos pode viver uma relação verdadeiramente política (ter uma Constituição). O isolamento a que Burke foi votado no fim da vida, em consequência das Reflexões, é claro tributo a um espírito invicto às pressões das “direitas” e “esquerdas”, sempre prontos a fixar a completa adesão aos ídolos do seu tempo (o poder régio ou o poder popular).

Um Conservador que cai numa religião do Presente acaba na defesa de qualquer coisa. Só através da Tradição, de uma reconstrução da reflexão sobre o Bem, se poderá conservar o que interessa. O que interessa conservar é a essência do Homem.

 
   
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