Conservar
por Jorge Azevedo Correia
Em Portugal, como na grande maioria dos países onde existe uma ditadura moral de esquerda, chamar a alguém conservador é uma ofensa grave. Uma grande vitória das forças ditas “progressistas” foi a capacidade de fazer crer que o Conservadorismo não se trataria de uma ideia política, mas de uma “disposição” absolutamente avessa à mudança. Para tal facto terão contribuído muito as abordagens do Conservadorismo britânico, repletas de prédicas do liberalismo e de crenças na impossibilidade de uma boa sociedade, de que Michael J. Oakeshott se tornou máximo expoente filosófico.
É hoje difícil abrir uma coluna de opinião do “centrão” sem encontrar uma máxima, um ataque ao racionalismo político, uma proclamação de cepticismo provindo da linhagem humeana, de que o britânico era acérrimo defensor.
Infelizmente para esses e para a esquerda, a quem convém ter um inimigo com tamanhos pés-de-barro, uma concepção Conservadora não se esgota na defesa do status quo. Este é o Conservadorismo que não se dá nas Universidades. Nas estatais qualquer pensamento conservador é tolerado enquanto não passa de uma minoria exótica, mas não é leccionado senão em aulas de diabolização e de exegese pós-moderna. Nas privadas temos a análise dos Conservadorismos da moda, das reflexões dos think-tanks dos actores globais, que não são mais que justificações para constelações de interesses frequentemente mal escondidos.
Num país destruído por Revoluções e Regenerações mal resolvidas há muito pouco para conservar. O Conservadorismo céptico, com a sua apologia de que a mudança gera apenas novos males (males desconhecidos, ainda por cima!) e com os seus tiques panglossianos de que “vivemos no melhor dos mundos possiveis”, é incapaz de estabelecer uma ideia de “boa sociedade”, impossibilitado de afirmar o que é certo e errado porque encerrado num presente estático e eterno, onde não há que esperar melhor ou pior, porque isso simplesmente não existe. Este Conservadorismo, antigo como o Homem, é uma constante defesa de situações injustificáveis, fundada no medo e na incerteza, sempre disposto a amaldiçoar o homem que dominou o fogo e que nos trouxe para este mundo novo.
É o que acontece quando se critica o racionalismo dogmático e cientificista para depois não se acreditar em nada.
A este Conservadorismo estático, que nada acrescenta, nada compreende, nada julga, opõe-se um Conservadorismo vivo, que apresenta uma concepção do Bom, porque olha para o passado como forma de se compreender o que é eterno no Homem, uma vez que será sempre esse elemento, a essência, o que deve ser conservado.
Edmund Burke é frequentemente aclamado como o “pai” do Conservadorismo político. Contudo, é claramente errado afirmar que tenha sido um defensor de qualquer situacionismo. A sua vida foi repleta de ataques a essa religião do status quo que os Conservadores cépticos tanto louvam. Foi esse o caso da sua posição ferozmente anti-esclavagista, que tantos dissabores causou no seio da política britânica. Foi também o caso da defesa das colónias americanas no que seria a Guerra da Independência, por considerar que a situação de sujeição dos colonos se devia a uma usurpação dos poderes régios que violavam a Constituição Britânica e os seus princípios não-escritos e eternos. Foi também o caso do seu ataque ao Governador-Geral Warren Hastings que utilizava a Companhia das Índias para proveito de Inglaterra e proveito próprio, com claro desrespeito pelo direito à Justiça das populações (recorrendo à guerra contra inocentes e príncipes indianos que nada haviam feito para violar a paz estabelecida pelo Império). Hastings não violara lei nenhuma, mas havia destruído todos os pressupostos sobre os quais assentava a justiça do Império Britânico das Índias Orientais. Mais uma vez príncipios não-escritos, consagrados na razão eterna das coisas, em particular de que uma comunidade política se situa sempre na vantagem de todas as partes, o seu “Bem Comum”. Onde a situação não se coaduna com estes princípios eternos a situação tem de mudar.
Ao olharmos a forma como Burke recebeu a Revolução Francesa veremos, mais uma vez, que esta nunca poderá ser a apologia do establishment, uma vez que toda a mensagem contida nas Reflexões reside no facto de que só uma sociedade (dir-se-ia uma comunidade) em que os princípios eternos não possam ser subvertidos pode viver uma relação verdadeiramente política (ter uma Constituição). O isolamento a que Burke foi votado no fim da vida, em consequência das Reflexões, é claro tributo a um espírito invicto às pressões das “direitas” e “esquerdas”, sempre prontos a fixar a completa adesão aos ídolos do seu tempo (o poder régio ou o poder popular).
Um Conservador que cai numa religião do Presente acaba na defesa de qualquer coisa. Só através da Tradição, de uma reconstrução da reflexão sobre o Bem, se poderá conservar o que interessa. O que interessa conservar é a essência do Homem. |