Democracia Electrónica e Instantânea: O Sonho de Hobbes
por Jorge Azevedo Correia
Há três ou quatro anos andava o país muito excitado em relação à Internet e às suas potencialidades. A conversa transbordou rapidamente para o plano político, onde surgiu um novo paradigma progressista, a Democracia Electrónica, que rapidamente se tornou anseio e modelo para uma discussão grandíloca sobre as potencialidades das novas tecnologias. Numa Democracia instantânea, diziam-nos os arautos da nova revolução, o cidadão faria ouvir a sua voz directamente, sem necessidade de intermediários. As maiorias formar-se-iam espontaneamente e suceder-se-iam ao nível da vontade dos eleitores.
Este paraíso democrático, o império das vontades individuais, constitui o sonho de todos quantos atribuem à Democracia o positivo valor de reinvenção constante da sociedade. Essa defesa da sociedade que se pode reinventar a todo momento, claramente tributária do plebiscitarismo e da democracia directa, esconde, contudo, um lado bem sombrio. É que uma sociedade onde tudo pode ser negociado e reinventado na ponta de um “clique” é uma sociedade de medo, onde a vida de cada um não se encontra estabilizada num conjunto de princípios permanentes, mas num dogma da revolução permanente. A propriedade, o direitos individuais, encontram-se, a todo o momento, a um consenso de distância da sua abolição.
Ao contrário do que na nossa sociedade é acriticamente aceite, uma democracia pode ser um regime tão fundado no terror como uma autocracia. O critério não é o número ou a inclusiveness da decisão política, mas a estabilidade e justiça das leis. Uma sociedade em que os habitantes não sabem se terão direito à sua propriedade quando voltam do trabalho, não sabem se à hora do jantar ainda terão direito ao poder paternal e onde não sabem quando lhes poderá entrar o Estado em casa, sempre sancionado pela sacramental maioria. Uma sociedade em que as únicas expectativas são obedecer aos anseios da maioria e passar despercebido na multidão.
A sociedade disposta a reinventar-se constantemente tem origem na crença metafísica que nada existe de permanente ou durável no Mundo e no Homem, no que se poderia traduzir no campo das ideias por Pós-Modernidade. Esta pretendia libertar o Homem das superstições da existência, mas conduzi-lo-ia, pelo caminho desta epifania do ego, à mais abjecta das uniformidades e dos terrores.
O sonho desta Humanidade vazia, esforçando-se por sobreviver numa submissão à mediania e numa obediência cega ao Poder, sem lugar para questionar ou desobedecer em conformidade como um elemento mais elevado, é a utopia de um mundo hobbesiano. O mundo onde o Medo é a única lei e tudo subordina. |