Dos mitos e lendas do surgimento do PREC
por Miguel Castelo Branco
Do autoritarismo ao abismo totalitário (Março de 1974-Novembro de 1975)
Quando eclodiu o golpe militar de Abril, Portugal era um país em
adiantada fase integração na comunidade dos países democráticos. Mau
grado a persistência de um regime não democrático, os sinais de
mudança estavam em todos os sectores da vida portuguesa, tão
expressivos e imparáveis que determinariam uma ruptura a breve trecho.
Importa lembrar que Portugal era membro de pleno direito da OTAN e da
EFTA e acabara de assinar a candidatura de adesão à CEE, requisitos
fundamentais para o reconhecimento como parceiro ocidental.
Com uma economia quase liberta da interferência estatal – há muito que
o condicionamento e o dirigismo se haviam diluído ante a pujante
iniciativa do investimento privado, nacional como internacional –
Portugal era uma país capitalista, na orla da Europa do Sul em rápido
desenvolvimento. Em 1973, a prestigiosa Time Magazine acenava com a
iminência de um "milagre económico português". Quais eram os
indicadores de tal milagre ? Taxas de crescimento anual nunca
inferiores a 7%, surgimento de indústrias metalomecânica e
petroquímica de relevo, sucesso da indústria pesada portuguesa -
sobretudo de construção naval - forte movimento accionista, grande
investimento estrangeiro, com fixação das principais multinacionais em
Portugal, consolidação de uma classe média empresarial não dependente
do Estado e mudança acelerada do perfil da população: escolarização,
diversificação das competências técnicas e científicas, proliferação
de universidades e institutos superiores.
Tudo isso se sentia na vida social, nos hábitos e modas, no gosto de
viajar, nas actividades lúdicas e na descompressão que se ia
instalando. Portugal era, em 1973, um país muito estimado pelos
turistas e pelos investidores, mas também pela elite europeia. Em
1973, acolheu o maior número de seminários e congressos profissionais
realizados em solo europeu, atestando o crescente interesse por este
país que, sendo uma ditadura branda, era encarado com quase benévola
transigência pelos seus parceiros europeus, ao contrário da Espanha
que continuava no limbo dos intocáveis. O movimento de integração dos
países mediterrânicos na família das democracias parlamentares
europeias era imparável e não pressupunha qualquer mudança violenta.
Portugal foi a excepção. Os casos grego e espanhol corroboram a tese.
As democracias nascem em sociedades ricas ou em enriquecimento. Sempre
que a classe média ascendente se sente capacitada para o exercício do
domínio do Estado, reclama a Liberdade. Tal aconteceu em Espanha e na
Grécia. A estrutura social portuguesa, não diferindo muito dos dois
casos apontados, não pedia uma solução distinta.
A lenda da guerra sem saída
Muito se tem escrito sobre a política africana portuguesa. Contudo,
não obstante a grande oposição que se fazia sentir nas Nações Unidas –
coro orquestrado pela URSS através de todos os exotismos
afro-socialistas e asiáticos – as relações com o Ocidente eram
excelentes: a atestá-lo, a cimeira das lajes Caetano-Nixon-Pompidou, o
fim da interdição da utilização de material NATO nas campanhas
ultramarinas, a abertura de Angola e Moçambique ao capital
internacional, a intermediação pedida a Portugal nas questões
relativas à Rodésia e as excelentes relações com Israel. O peso da
guerra de África é um mito. Em 1974, os 50% do orçamento aplicados na
guerra corresponderiam apenas a 20% da riqueza do país, sendo que
grande parte desse investimento era infraestrutural ou canalizado para
a promoção social das populações africanas. A prová-lo, o facto dos
indicadores de desenvolvimento social e económico da África Portuguesa
superarem os de toda a restante África independente, apenas
ultrapassados pela África do Sul do Apartheid. Outro mito vulgarizado
é o do peso desmesurado do sacrifício pedido à juventude portuguesa na
luta em África. Ora, em 1974, 60% dos efectivos militares portugueses
nos três teatros de operações eram de conscrição local. A guerra do
Ultramar estava em avançada fase de africanização. Neste quadro, e por
tudo o que tem vindo a ser revelado, o futuro das províncias
portuguesas aproximava-se de um momento decisivo em que as elites
locais reclamariam maior intervenção na escolha dos futuríveis que
então se ofereciam. A existência de mecanismos locais de representação
- Assembleia Legislativa de Angola - e o surgimento de grupos
políticos não armados dispostos a constituir-se em parceiros do
governo português parece indiciar uma lenta partilha de
responsabilidades entre populações que não se identificavam com a
natureza militar dos movimentos de guerrilha - demasiado dependentes
da URSS e da China para deles esperar outra coisa que o de futuras
tragédias - e a minoria branca.
O fim de Marcelo ou a transmissão de poderes ?
É claro que Marcelo Caetano havia perdido o passo, condicionado pela
fragilidade da sua base de apoio no seio do regime e pela incapacidade
de renovação ideológica dos sectores que se lhe opunham. A oposição ao
regime, monopolizada pelo PC, pela extrema esquerda e agora por um PS
profundamente marcado pela ainda forte impregnação marxista dos seus
intelectuais mais jovens - Mário Sottomayor Cardia, António Reis,
Álvaro Guerra, Arons de Carvalho - tão pouco poderia negociar com o
Presidente do Conselho. O Estado Social de Marcelo Caetano estava,
pois, ancorado na herança de Oliveira Salazar, cativo daqueles que não
tinham uma solução para a mudança do regime e incapacitado de dialogar
com uma oposição que assumia declaradamente a tese do derrube violento
da situação. Restava algo a Marcelo: o seu círculo de amigos e
admiradores, que em breve ascenderiam à ribalta nos partidos do
espectro democrático surgidos nos meses que se seguiram ao 25 de Abril
e o respeito que o líder do golpe - António de Spínola - por ele
demonstrava.
Ao contrário da historiografia
Muito se tem escrito sobre o período que medeia entre o 25 de abril de
1974 e o 25 de Novembro 1975, insistindo-se numa periodização que
estimamos manipuladora, porquanto estribada no argumento da
inevitabilidade da deriva extremista que lançaria o país no caos e
quase culminou numa guerra civil.
A revolução era evitável e o fim do Estado Novo não implicava uma
ruptura como aquela que se veio a produzir. A prová-lo, a saída
pacífica dos governantes rumo à Madeira e Brasil, a estranha
impassividade da DGS, o render da guarda quase cortês dos
governadores-gerais de Angola e Moçambique, a imediata entrada em cena
da ala liberal do regime caído na nova situação e a manutenção de
importantes figuras ligadas ao Estado Novo nas mais destacas
instituições públicas.
A revolução não se fez sentir ao longo das primeiras semanas. Os
primeiros indícios só se revelaram em finais de Maio, quando no jargão
político - até aí inócua caixa de ressonância do sebastianismo
português e da ingenuidade colectivas, produto da despolitização -
irromperam os estribilhos comunistas, as práticas leninistas de
intoxicação, coacção e ameaça. O governo de Adelino Palma Carlos era
moderado, liberal e aquietador, pelo que as movimentações sociais e
políticas permaneciam fora do Estado. A prová-lo, a repressão policial
e proibição das greves no sector do turismo e na TAP, severamente
criticadas pelos governantes.
O mito do PS anti-totalitário
É elemento de toda a evidência terem sido Mário Soares e o PS os
responsáveis pela derrapagem esquerdista do 25 de Abril. A exaltação
que Soares fez a Cunhal no 1º de Maio de 74, a assunção de um discurso
radical, pedindo saneamento e castigo exemplar dos antigos servidores
do Estado Novo, a exigência imediata do controlo operário, da reforma
agrária e das nacionalizações deram alento ao PCP, então em busca de
respeitabilidade face aos seus inimigos de extrema-esquerda.
É de Julho-Agosto de 1974 a célebre palavra de ordem "Partido
Socialista, Partido Marxista". De facto, nada disto era novo. Na sua
Declaração de Princípios e Programa do Partido Socialista, divulgados
em 1973, o PS declarava como objectivos a "edificação em Portugal de
uma sociedade sem classes", considerando-se herdeiro de toda uma
tradição de luta das classes trabalhadoras pelo socialismo", pedindo
uma democracia directa de co-gestão fundada em conselhos operários,
gabando a excelência "das revoluções chinesa, jugoslava, cubana e
vietnamita".
O PS colaborou com os comunistas e com extrema-esquerda até Março de
1975, procurando maximizar o seu papel na revolução até se aperceber,
em Abril de 1975, mês das eleições para a Constituinte, que seria a
próxima vítima de uma dinâmica que ajudara a engrossar.
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