Ano I - Nº 3, Novembro de 2006
Alameda Digital
Do PREC ao 25 de Novembro
Editorial

por Carlos Bobone

A história é obsessivamente cortejada por aqueles que fazem da exposição pública a sua carreira.. Os desportistas procuram alcançar resultados históricos, os empresários publicitam os seus novos produtos garantindo que hão de fazer história, e os jornalistas despertam o público sonolento afiançando que estão a transmitir imagens de momentos históricos. Os políticos dotados de vistas largas, com capacidade de visão que  ultrapasse o próximo ciclo eleitoral, não dirigem o seu discurso, a sua pose e a sua actividade para o povo ou para as elites, mas sim para a história. Afirmam com altivez que só o julgamento desta lhes interessa, atribuindo-lhe com alguma ingenuidade a pureza, a justiça, a imparcialidade e a clarividência que não encontram no momento que passa.

 Não são raros os que, em resposta aos ataques dos seus adversários, fazem apelo a este julgamento da posteridade, supondo-o definitivo e livre das paixões momentâneas. E apesar de confiantes, vão adiantando umas pinceladas no retrato com que pretendem comparecer perante a suprema justiceira. Há aqueles que interpelam directamente o tribunal da história, como o Xá da Pérsia, apresentando as suas memórias sob a forma de uma “Resposta à História”, e os que ousam antecipar o veredicto final, adiantando, como Fidel Castro no título de um livro seu, que “A História Me Absolverá”. Em qualquer dos casos, deixam claro que estão a justificar-se perante as gerações vindouras, e que o parecer destas é o que mais importa.

É duvidoso que a distância dos séculos aclare e salve de controvérsias os perfis dos nossos antepassados. Poucos estarão a salvo de ataques, distorções ou espoliações. A idade ideológica em que vivemos recrutou para os vários campos doutrinários as venerandas figuras que jaziam na paz das sepulturas. Cada grupo reclamou os seus predecessores, os seus inspiradores e os seus inimigos, identificando-os nas mais remotas paragens da história. No último século discutiu-se com aspereza a dimensão moral de figuras como D. Sebastião, o Infante D. Henrique ou Luís de Camões. Houve calor nas discussões, insultos e relações cortadas. Assistiu-se a campanhas contra figuras do nosso panteão, geridas até ao pormenor nos moldes dos combates eleitorais ou jornalísticos.

Não é por mera excentricidade que os historiadores se agridem quando pugnam pelo seu herói, nem é apenas a vaidade que alimenta a obsessão dos políticos com a imagem que deixarão para a história. A intuição de uns e outros diz-lhes que é na interpretação da história que se jogam as condições de sobrevivência dos valores defendidos por cada um. Quando os historiadores do grupo da Seara Nova gastaram rios de tinta em dissertações sobre a hipótese de o Infante D. Henrique ter tido uma filha ilegítima, não obstante a debilidade do único indício alegado, deixaram transparecer, em frases dispersas, o fim de todo aquele inglório esforço: Tratava-se de provar que as vidas glorificadas como modelos de castidade não foram mais do que longas sessões de hipocrisia. Desmascarando-se um, atingir-se-iam todos os que moldaram os seus comportamentos pelos mesmos valores.

As interpretações que prevalecem num país sobre o papel de cada classe, de cada instituição, de cada igreja, no desenvolvimento histórico da sociedade, condicionam de forma visível a organização do estado. Repare-se nos cambiantes que o conceito de “estado laico” toma por esse mundo fora. Em Israel o estado laico toma a peito a defesa e promoção da religião do seu povo, fazendo desta fé um elemento suficiente para se aceder à nacionalidade hebraica. Nos Estados Unidos, os eleitores esperam dos seus eleitos, no exercício das funções públicas, uma permanente manifestação da fé que professam. Nos países da Europa Meridional, pelo contrário, o conceito de estado laico parece obrigar as autoridades a defenderem ciosamente a vida pública de qualquer influência religiosa, e espera-se que os governantes conservem num plano estritamente privado, sem reflexos na vida pública, as convicções a que ainda estejam ligados. No primeiro caso, a religião do povo escolhido é encarada como a  guardiã da cultura judaica e primeira responsável pela sua sobrevivência. No segundo caso, a fé religiosa é vista como a grande força moral que guiou os construtores da sociedade democrática, inspirando-lhes o amor da liberdade e da justiça, enquanto no terceiro caso a religião é tida por inimiga tradicional da cultura, do progresso e do bem-estar dos povos.

Nenhum combate ideológico poderá dispensar uma vigilância crítica das versões da história que se encontram em circulação. Em todas as sociedades se confrontam grupos que lutam pela conquista da supremacia moral, de onde poderão retirar grande força de pressão sobre todos os aspectos da vida pública. Os que se apoderam da escrita da história conseguem manusear a maior parte dos conceitos e das classificações, ditando, por  conseguinte, as atitudes bem ou mal aceites. Definem  o que é progresso e o que é estagnação, o que é ousado e o que é conformista, o que é igualitário e o que é discriminatório, o que está aberto ou fechado aos valores da sociedade moderna. Conceitos ligados a vagas imagens históricas, mais do que a rigorosas definições sociais, transformam-se, quando manipulados por mãos hábeis, em potentes instrumentos de coacção dos comportamentos.

É vocação da Alameda Digital, desde os primórdios da sua existência, contada a partir do momento da concepção, denunciar as maquilhagens que a narrativa da história tem sofrido, no nosso país, às mãos daqueles que a exploram para benefício particular de um ou outro projecto ideológico. O tema central deste número transporta-nos aos momentos fundadores do regime político em que vivemos. Tempos que assistiram à  confrontação aberta, sem disfarces, de famílias ideológicas cuja descendência ainda hoje se combate, embora recorrendo a armas mais delicadas. Uma delas é a da leitura dos acontecimentos, para a qual esperamos contribuir apresentando informação capaz de abalar os que ocuparam o terreno enquanto esteve vago.

 
   
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