DO OUTRO LADO
A Ditadura da Ignorância
por João Ribeiro Lima
No início do mês de Novembro realizaram-se eleições nos USA, contudo não me irei debruçar sobre a viragem do País no sentido do partido democrata nem tão pouco sobre a segunda vitória do “Exterminador” na Califórnia. No mesmo dia em que os eleitores aqui na Califórnia eram chamados a eleger os seus representantes no Senado e o seu Governador, eram também convidados a pronunciarem-se sobre varias propostas de lei.
A proposta 85 – “Proposition 85” – foi aquela que me chamou a atenção dado que tinha por objectivo legislar no sentido de obrigar os médicos a informarem os pais no mínimo 48 horas antes da sua filha menor (menos de 18 anos) realizar um aborto. Esta proposta foi derrotada nas urnas “democraticamente, se assim se pode dizer. Devo dizer que não esperava, num País onde um filho menor não pode levar uma injecção contra a gripe nem tirar um dente sem os pais saberem e não pode fazer uma viagem com a escola sem autorização dos pais, pode contudo submeter-se a uma intervenção (aborto) que na maioria dos casos deixa sequelas físicas e psicológicas para toda a vida.
De facto dá que pensar o estado a que chegaram as democracias ocidentais, em que tudo é referendável e questionável, tudo não é verdade, mas talvez apenas os valores e direitos fundamentais do ser humano. A incoerência das prioridades do poder político nos países desenvolvidos e que vivem em democracia é angustiante, refiro-me essencialmente à Europa e à América do Norte, defende-se o ambiente e os animais de forma fundamentalista, mas não se olha para a queda da taxa de natalidade, criam-se novos direitos e regalias para todas as minorias que apresentam comportamentos sexuais ou sociais fora do que é normal mas não se analisa a clara associação entre a terrível crise social e cultural que se vive e a crise da família, a célula da sociedade. Critica-se a Igreja Católica responsabilizando-a por um pseudo atraso cultural da Europa, apesar de todo o trabalho de carácter social que realiza (na maioria das vezes aquele que outros se negam a fazer), em vez de reconhecer o papel fundamental que terá que ter na gestão e integração do brutal fluxo imigratório que chega tanto à Europa como aos EUA. Poderia continuar a dar exemplos sem conta, da manifesta incoerência das decisões políticas das democracias ocidentais, que olham o acessório e não o essencial, manifestando uma incapacidade atroz para entender a realidade dos factos e os seus problemas.
A visão sobre o futuro é extremamente preocupante visto que não se vislumbra uma inversão no caminho que se está a seguir o que nos levará impreterivelmente a rupturas sociais mais profundas e eventualmente, no caso da Europa, a uma perda da identidade característica dos povos Europeus.
Esta sociedade que questiona tudo aquilo que são direitos e valores fundamentais do ser humano, não de qualquer religião, padece do maior mal para o sistema democrático, a ignorância. Uma ignorância de valores e de moral, uma ignorância tíbia que considera liberdade e libertinagem igual, em que não há mal nem bem, em que tudo é relativo, em que tudo fica ao critério da consciência individual de cada um, ainda que deformada.
Olhando para Portugal e para estes trinta e dois anos da segunda República, há que estar grato por os nossos políticos terem sido apenas políticos mornos e não perigosamente fanáticos do vazio cultural e moral, um mal menor, como talvez agora acontece em Espanha e há alguns anos em outros Países Europeus. De qualquer modo, os adeptos do relativismo estão presentes em Portugal e têm ao longo destes anos de democracia conseguido a pouco e pouco delapidar muitos dos valores que fundaram o nosso País e que o regeram durante a maior parte da sua história.
È justo reconhecer, e sendo o tema deste número da Alameda Digital, que o 25 de Novembro nos libertou de uma perigosa e não desejável ditadura comunista, mas o que dai veio foi uma democracia medíocre que nega todo o passado cultural, social e moral português.
Debruçamo-nos sobre as crises mas não sobre os seus responsáveis, é a falta de credibilidade dos políticos, são os escândalos da justiça, é a falta de qualidade do ensino, é a crise económica e o desemprego, é o aumento da criminalidade, é o envelhecimento da população e a falência do Estado social. Na história da curta e jovem democracia portuguesa, tudo tem lentamente piorado, inclusive a tão desejada liberdade.
De quem será a responsabilidade? Olhando para a primeira República, creio que encontramos os principais responsáveis, não os únicos, mas os principais, ou melhor dito, a principal responsável, simplesmente porque domina o poder politico pela segunda vez e pela segunda volta a falhar.
“Impartiality is a pompous name for indifference, which is an elegant name for ignorance.” (G. K. Chesterton).
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