Ano I - Nº 3, Novembro de 2006
Alameda Digital
Do PREC ao 25 de Novembro
O golpe militar sindical do 25A e o logro do 25N
— Uma visão muito pessoal

por Heduíno Gomes Vilar

No ano da desgraça de 1974, traindo o juramento que haviam feito, uns tantos militares, na sua maioria movidos por interesses corporativos — portanto pessoais, mesquinhos e reles como todos os corporativos — e cansados da sua profissão — que é fazer guerra quando os mandam, pelo que são pagos, profissão que tinham escolhido não por vocação mas por oportunismo de obterem estudos gratuitos —, promoveu o golpe militar do 25A. Os rolhas não reagiram e aderiram aos vitoriosos. À traição foi chamada «coragem», à escamoteada e verdadeira motivação destes militares foi colado o rótulo de «sede de liberdade», à sua ignorância e irresponsabilidade políticas foi chamada «pureza» e ao seu apego ao poder foi chamado «fidelidade a Abril». Abriram a porta do poder a quem não deviam e eles próprios ganharam-lhe o gosto.

Nesse ano, era eu um jovem e inteiramente dedicado comunista que — graças a Deus! —, dez anos antes, já tinha percebido que o comunismo soviético era coisa infecta. Por isso mesmo, ainda com poucos anos de PCP, havia optado por outro comunismo, este supostamente bacteriologicamente puro. Faltava-me ainda perceber que não se tratava simplesmente de uma epidemia nas estepes mas sim de uma pandemia.

Na manhã de 25 de Abril de 1974, oficialmente exilado na Bélgica mas permanentemente de serviço em Paris, desloquei-me a um local onde iria tratar de questões técnicas relacionadas com a edição de um novo número do jornal clandestino do PCP(m-l), o Unidade Popular. Em Paris seria feita uma edição para a emigração e em Portugal seria feita outra fac simile. Quando lá cheguei, dizem-me logo os camaradas Luís Vasconcelos e sua mulher, a Teresa, que estava repetidamente a dar na rádio a notícia de um golpe de Estado em Portugal. Este Avril au Portugal cheirou-me logo mal e digo cá para comigo: — Mau, Maria!

É claro que esse número do jornal já não saiu.

Então porque é que um comunista no exílio, com sete anos e tal dele às costas, desejoso de poder falar e fazer a sua propaganda livremente, cheio de saudades da família, dos cantos da sua casa, do cheiro da leira de coentros da horta do seu avô, do sol e das coisas boas que só há em Portugal, pensava que um golpe de Estado a derrubar o regime e a permitir o seu regresso não era uma boa coisa?

A resposta é muito simples. Eu sabia que a queda do regime iria abrir um vazio político enorme. Sabia que o PCP era a força com mais quadros e capacidade de organização então existente. Sabia que, por detrás do PCP, estava a União Soviética, com o seu plano de domínio do mundo, a disponibilizar todos os meios necessários ao seu agente em Portugal. Sabia que o duo Brejnev-Cunhal constituía o inimigo principal de Portugal. Sabia que o PCP(m-l) não tinha ainda dimensão para se lhe opor eficazmente no terreno português, tanto mais que se encontrava só, fora da onda eufórica da liberdade e a lutar exclusivamente com os seus próprios e escassos meios. Sabia que toda a desvairada radicalada da extrema-esquerda iria desempenhar o papel de satélite do PCP e reforçá-lo. Sabia que os desorganizados democratas não tinham a menor ideia do que os esperava com Cunhal — agente de Moscovo — à solta. Sabia que o vazio político provocado pela queda do regime poderia ser preenchido por Moscovo. Sabia, portanto, que, de uma dita mole, poderíamos passar a uma verdadeira ditadura.

Logo no 1.º de Maio se viu que a minha apreensão tinha todo o fundamento. Efectivamente, Cunhal não perdeu a primeira ocasião para dizer ao que vinha. Soares percebeu e tremeu, como está filmado pela televisão e vemos de vez em quando.

Cunhal chegara de taleigo aviado pelo camarada Brejnev e imediatamente recompõe, desenvolve e profissionaliza o aparelho do PCP em grande escala, nomeadamente no seio das Forças Armadas. As escaramuças e o terrorismo do PCP contra os seus adversários, principalmente em zonas de sua maior implantação, começam logo em Maio e revelam claramente as suas pretensões, isto é, impedir o nascimento das forças políticas que se lhe opunham e manter a hegemonia. O futuro imediato era óbvio.

As minhas perspectivas não poderiam ser sorridentes. Regressei a Portugal em 7 de Maio. Mas, ainda em Paris, tratei de pôr no papel estas ideias e previsões politicamente incorrectas. Ainda por cima logo em Maio de 1974! Sem dar o benefício da dúvida ao homem! Esse texto, que veio na minha bagagem, viu a luz do dia umas semanas depois, já com matéria de facto para ser bem percebido mas, mesmo assim, foi alvo das maiores reprovações por parte de alguns democratas devido aos meus supostos exageros. Diziam os inocentes democratas: — Então homens que sofreram tanto com o regime de Salazar podem lá agora fazer-nos o mesmo?

«O mesmo»?! Era óbvio que os inocentes democratas não sabiam bem dos romanceados sofrimentos no regime de Salazar, da sua repressão selectiva e muito menos dos sofrimentos no regime soviético. Não estavam em condições de estabelecer uma comparação entre um regime de forte autoridade como o de Salazar, a que, por deformação calculada por Cunhal, se chamava fascista, e o gulag soviético, este bem mais perto do nazismo do que do fascismo. Mas pouco demorou para que aprendessem parte — apenas parte — da lição. Tarde. Demasiado tarde, quando grandes áreas do poder já haviam sido ocupadas pelo PCP.

De inventona em inventona, de traição em traição, de cobardia em cobardia, de corrupção em corrupção, de duplicidade em duplicidade, de chantagem em chantagem, de ingenuidade em ingenuidade, lá fomos parar ao prec e ao verão quente. O País foi vandalizado, foi devastado, foi consumido, tornou-se um caos e correu sérios riscos. Mas, nessa etapa da expansão soviética, Brejnev não pretendia muito mais. A gula soviética estava já essencialmente saciada com o império colonial português. Rosa Coutinho e quejandos tinham assegurado a transferência do essencial na estratégia soviética. O resto, em 1974-1975, o Portugal da NATO, demasiado melindroso na geopolítica ocidental, só por acréscimo poderia estar nos planos soviéticos. No entanto, os seus servidores de cá tinham uma visão diferente: também queriam, para eles próprios, agarrar esse acréscimo, fazer dele a sua quinta, ou, melhor, o seu campo de concentração.

Os Portugueses precisavam de recuperar aquele mínimo que ainda não estava destruído e restaurar a liberdade.

A compreensão da situação atinge, finalmente, os jovens partidos políticos democráticos. Começa a desenhar-se neles e no meio militar a organização da contra-ofensiva. Partidos democráticos (mesmo o PS, que, inicialmente, tinha contribuído para atear o incêndio ao exigir a Spínola a presença de Cunhal no I Governo Provisório e ao alinhar nas inventonas que conduziram ao prec), grupos civis e grupos militares começam a encontrar-se, a juntar-se, a conspirar e a preparar essa recuperação. Nessas lides, um dos meus interlocutores era precisamente o major Melo Antunes. Em casa dele, durante o verão quente, conheci alguns dos militares do «grupo dos nove» assim como alguns civis igualmente conspiradores. Outras duas pessoas, importantes na resistência, com quem tinha contactos frequentes era o então tenente-coronel Ferreira da Cunha, Chefe de Gabinete do Presidente da República, Costa Gomes (mas que era dos nossos), e o então brigadeiro Pires Veloso, com quem me encontrei precisamente nas vésperas da sua partida para o Porto, onde foi comandar a Região Militar do Norte.

O PCP e os seus satélites da extrema-esquerda sofrem uma grande derrota com a formação do VI Governo Provisório mas não desarmam. Continuavam com muito peso nas Forças Armadas e a perturbar a vida política, militar e económica. O País exigia uma clarificação.

De episódio em episódio, chega-se ao 25 de Novembro, que, na esperança de muitos, deveria trazer essa clarificação.

Mas não trouxe. Na própria noite do fim dos confrontos, os Portugueses, pela boca de Melo Antunes, assistiram na televisão à traição do grupo politico-militar de Melo Antunes e Eanes. Efectivamente, o porta-voz Melo Antunes anunciava aos Portugueses que o partido primeiro responsável pelo caos e pela prepotência fazia falta à democracia...

Naquela noite, o grupo politico-militar de Melo Antunes e Eanes traiu os Portugueses e traiu os Comandos, que, chefiados por Jaime Neves (a quem Portugal muito deve e pouco reconhece), tiveram um papel determinante na vitória sobre a esquerda do prec.
Melo Antunes e Eanes tinham uma estratégia pessoal e não uma estratégia nacional. Por isso eles foram dois bombeiros-incendiários. Efectivamente, este grupo politico-militar tinha como objectivo principal perpetuar-se no poder através do Conselho da Revolução. Assim, não lhe convinha clarificação nenhuma, normalização nenhuma. Convinha-lhe manobrar nos limites, de maneira que tanto os democratas como os sovietistas precisassem dele. Interveio no 25N para retirar algum poder ao PCP mas quis conservá-lo suficientemente forte, como cão ameaçador, para que os democratas ainda precisassem do grupo politico-militar face ao PCP. Por outro lado, enfraquecendo o PCP e ao mesmo tempo permitindo-lhe sobreviver no 25N, tinha-o na mão como aliado contra os democratas, que pretendiam libertar-se da tutela politico-militar e das chamadas «conquistas de Abril» e democratizar o País. O grupo politico-militar de Melo Antunes e Eanes jogou com ambos os lados e contra ambos os lados para se perpetuar no poder.

Se dúvidas houver sobre os cálculos de projecto pessoal de Melo Antunes e Eanes, é só olhar o comportamento destas duas sinistras e matreiras personagens do pos-25A e pos-25N.

Melo Antunes, já desmascarado no referido episódio televisivo do 25 de Novembro de 1975, manobrou para colocar Eanes na Presidência. Depois foi só facturar a partir deste seu ponto de apoio.

Eanes, por outro lado, ainda enganou o pagode durante mais um ano e meio. Conseguiu, em 1976, ser eleito Presidente da República com o apoio de todos os partidos democráticos e contra o PCP, e depois, em 1981, já foi reeleito com o apoio do PCP. É que, entretanto, já estabelecera com o PCP o pacto para perpetuar o seu Conselho da Revolução e travar Soares e Sá Carneiro, que se opunham ao poder politico-militar. Já colocara no Governo vários elementos do PCP e seus próximos (encomendados a Nobre da Costa, em Agosto de 1978, e a Maria de Lurdes Pintassilgo, em Julho de 1979). E já tecera rasgados elogios ao PCP, o seu novo aliado, a quem passou a reconhecer grandes virtudes de disciplina, competência, democracia, pluralismo... (em declarações ao Washington Post, em Setembro de 1978).

Mais tarde, em 1985, no final do seu segundo mandato presidencial, como é bem conhecido, telecomandou a manobra do PRD, visando passar o poder civil para a sua tutela pessoal.

Estes dois políticos de projecto pessoal, enquanto puderam, antes, durante e depois do 25N, conseguiram ir fazendo figura de salvadores da Pátria. Enquanto os factos não lhes arrancaram as máscaras. A história há-de reservar-lhes, contudo, o lugar certo. Quanto ao gozo do poder, esqueceram-se de que ele é efémero e de que não o levam para o outro mundo.

Como curiosidade, no que pessoalmente me toca do 25 de Novembro, por, na sequência desse referido episódio televisivo, ter denunciado em entrevista «as duas caras de Melo Antunes», ainda fui julgado por «ofensas a um conselheiro da revolução», facto de que muito me orgulho. Fui absolvido sem retirar uma única das palavras que motivaram a acusação — o que, fazendo uso da jurisprudência assim produzida, me valeu poder escrever de seguida que, afinal, o figurão tinha ainda mais duas caras, quatro no total. E então o penteado capitão Sousa e Castro, o Vyshinsky de serviço do Conselho da Revolução, viu que não valia a pena pôr-me outro processo por ofensas ao senhor conselheiro seu colega.

Quanto a Eanes, numa de vingança pessoal contra o arqui-opositor Soares (encontrando-se o outro arqui-opositor, Sá Carneiro, já morto), anda por aí a apoiar o seu clone civil Cavaco, que, à sua imagem, já está a trabalhar para ser reeleito com os votos da esquerda.

Todos, quase todos, andam ao mesmo. Isto é o verdadeiro 25A e o verdadeiro 25N, donde resultou esta verdadeiramente triste III República.

 
   
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