Ano I - Nº 3, Novembro de 2006
Alameda Digital
Do PREC ao 25 de Novembro

CRÓNICAS DE UM LUSITANO INTERIOR NA ÁLBION
O pesadelo da morte e o sonho da Ressurreição

por Rafael Castela Santos

Enquanto que nos países outrora católicos como Portugal e Espanha ecoa aquilo que foi o mês de Novembro - mês dedicado à oração por alma dos mortos, daqueles que se encontram no Purgatório - em terras britânicas recordam-se, usando uma papoila na lapela, os mortos das guerras mundiais. Tudo é repetido: os programas, as celebrações oficiais, o ritual dum povo... Mas é preciso pensar sobre tudo isto.

Nesses dias terríveis de há noventa anos a juventude europeia, a flor e a nata da juventude europeia, tombava ao ritmo da metralhadora, gaseada de forma infernal, desfeita e esventrada no desespero de uma trincheira. Noventa anos depois perguntamo-nos para que foi que isso serviu. Relendo ao mesmo tempo a Tempestade de Aço, de Ernst Jünger, e a correspondência dum Capelão católico dos Royal Fusileers de Dublin, uma das melhores unidades da Royal Army (que sempre achou por conveniente honrar tanto irlandeses como escoceses desde que servissem nas mais perigosas das frentes) somos levados a reflectir.

Em Sommme, em Ypres e nos outros campos de batalha foram colhidas as vidas em flor de muitos jovens. Ali morreu o futuro da Europa e desde então a Europa nunca mais voltou a ser uma potência hegemónica. Ali se esfrangalhou o Império Austro-Húngaro, a única opção ainda viável de uma ordem católica europeia. Ali se estabeleceram as bases de uma política internacional baseada na usura e na força selvagem. Ali se forjaram as bases da Segunda Guerra Mundial, mais mortífera ainda, e até duma Terceira, que ainda está para vir. Ali se desferiu uma estocada no Cristianismo.

Nas leituras que anteriormente citei, bem como nos variados programas que tenho ouvido ultimamente na BBC4, está patente o horror porque passaram aqueles jovens. Aquele Inverno de 1916, o mais duro que foi vivido naquelas regiões. Os corpos voavam pelos ares e aqueles jovens  caminhavam sobre os cadáveres dos seus próprios companheiros enterrados na lama daquelas trincheiras. Mortes horríveis, com agonias de horas e até mesmo dias, provocadas pelo gás mostarda. As pragas de ratazanas enormes. A incessante chuva gelada...

E perguntamo-nos a razão de tanto sofrimento. Entre essas mortes, e os desejos cerceados de noivas e mães sem hipótese de resgate, quantos daqueles jovens, católicos, protestantes e até ortodoxos, não morreram tendo nas mãos o Evangelho, os Salmos ou o Devocionário. Aquela era uma juventude virgem, muito diferente da actual, estragada pela sensualidade e o materialismo até ao tutano. Apesar dos erros gravíssimos dos seus reis e dos seus presidentes, dos Altos Comandos e dos seus oficiais, aqueles jovens sacrificaram-se pelas suas respectivas Pátrias. As razões mais que invocadas não importam. Importa o sacrifício muitas vezes aceite de coração, outras vezes com alguma resignação, porque era para o bem comum da Pátria. A grande maioria daqueles milhões de jovens não entendiam nem podiam entender o que se congeminava nas Chancelarias e nas Secretarias da Europa, o ódio que Bismark combinado com a Rainha Vitória sentiam em relação à Europa católica, a infecção prussiana do Kaiser, o sempre turvo afundamento da Lusitânia, a Alta Política da Rússia, o negócio da Inglaterra cobrando a Portugal a preço de ouro (ou de prata, como neste caso) a sua participação e ajuda na Grande Guerra, etc. Acreditavam que era necessário rezar, passar fome e trabalhos, sofrer, sacrificar-se… até à morte se necessário. Nos céus alguns pilotos jogavam a vida como autênticos cavaleiros medievais. A terra regava-se com o sangue dos inocentes. E ao mesmo tempo, há 90 anos, no sub-mundo mais negro e sinistro, assinou-se a sentença de morte da Europa.

Rezemos para que ressuscite. Já não em nosso nome, mas no daqueles jovens cheios de inocência e sacrifício. Eles acompanham-nos. Para que a Europa volte a ser a Merry England cantada por Chesterton. A França de donzelas e cavalheiros, de Cister e Cluny. O Sacro Império Romano-Germânico. A Santa Rússia mais santa do que nunca. A Espanha, Terra de Maria, "como uma ordem de batalha", por e para o seu Filho. O Portugal dos mares com a Cruz de Cristo nas velas. A Roma Eterna...

Para que aquele pesadelo de morte que teve lugar há 90 anos nos traga o sonho da verdadeira Ressurreição com a própria vida. Rezemos. Como sempre fazemos em Novembro. Por e com os nossos mortos.

 
   
O golpe militar sindical do 25A e o logro do 25N — Uma visão muito pessoal
Dos mitos e lendas do surgimento do PREC
Coisas do 25 de Novembro
Perplexidades em torno da “passividade” do PCP perante o golpe do 25 de Novembro de 1975
Da Comuna de Lisboa ao 25 de Novembro
A Mistificação do 25 de Novembro
Cartoons: O período revolucionário visto pela imprensa internacional
Infografia: A Geocronologia do 25 de Novembro de 1975
Documento: Conclusões dos Relatórios de Sevícias

A Assembleia da República - Que orçamento...
Entre o ridículo e a laicidade

Entrevista a Pío Moa
Vitória democrata em 2006 – mudança de paradigma político nos EUA?
Portuguesíades Chipre, mais um logro comunitário

Conservar
O pesadelo da morte e o sonho da Ressurreição
Democracia Electrónica e Instantânea: O Sonho de Hobbes

Saudades do Futuro
Obras Esquecidas de Autores Famosos

Maria da Fonte

Madrid
Grã-Bretanha
Buenos Aires
E.U.A.

Editorial
Ecos da blogosfera
Capa

 

Nacional Internacional Opinião Cultura História Do PREC ao 25 de Novembro Ficha Técnica Publicidade Contactos Apoie-nos