VISTO DE MADRID
Atribulações dos fumadores no Reino de Espanha
por JLLencastre
Convém começar por dizer que respeito todos aqueles que não fumam e concordo que em determinados locais, como por exemplo nos transportes públicos e no cinema, seja proibido fazê-lo o que, de resto, já é um hábito de há muitos anos.
Acrescento, à laia de introdução, que quer os meus pais quer os meus filhos nunca fumaram pelo que, nesta matéria, nem fui influenciado nem influenciei.
Também conheço os malefícios do tabaco e das vítimas dele decorrentes, inclusive com casos muito próximos. Considero-me, contudo, uma pessoa normal, sem tendências psicopatas nem suicidas.
Dito isto, abordemos a actual legislação que vigora em Espanha, referente a este tema, a qual, contemplando uma ou outra situação razoável, peca na generalidade por excessos ridículos. Como, por exemplo, impedir um menor acompanhado do seu progenitor deslocar-se a um bar ou restaurante onde seja permitido fumar. Aliás, é neste capítulo de restaurantes e bares que a situação gera mais incompreensões, quer por parte dos frequentadores quer por parte dos proprietários. A legislação diz que os proprietários de espaços inferiores a 100 m2 são livres de decidir o regime que pretendem adoptar (a maioria decidiu ser de fumadores); quando esta área for superior podem destinar 30% do espaço para fumadores, sendo que têm que estar separados entre si por uma parede ou algo análogo. Foram dados 6 meses – que terminaram em Setembro – para proceder às respectivas obras e, no final, foram poucos os que fizeram as necessárias modificações. Uns, como a cadeia VIPS, pura e simplesmente proibiram fumar em todos os seus estabelecimentos; os outros ficaram a aguardar a interpretação que a Comunidade de Madrid fez sobre a lei e que já foi publicada. É mais flexível: a separação entre os espaços pode ser feita por cortinas de vento ou por extractores próprios para o efeito; nos casamentos e outras festas, celebrados em espaço público, são os noivos ou quem a promova que decide sobre a possibilidade ou não de fumar; as grandes empresas que tenham cafetaria poderão reservar uma área para fumadores.
Outro aspecto desta legislação que gerou grande polémica foi a proibição total de fumar nos locais de trabalho (não foi permitido criar ou manter um espaço dentro da empresa, por incómodo e pequeno que seja, à semelhança do que se passa nos aeroportos) o que obriga os trabalhadores das grandes empresas a deslocarem-se até à rua para satisfazer o seu “vício”, com todas as maçadas, contrariedades e, até, humilhação que isso representa. Parece que houve, no entanto, quem conseguiu contornar esta situação de forma brilhante. Segundo relatava a imprensa, alguns administradores da Telefónica, fumadores empedernidos, alugaram o seu gabinete à empresa o qual, a partir desse momento, passou a ser particular pelo que eram livres de aí fumarem a seu belo prazer. Outros, optaram por se instalar de telemóvel e portátil, no café em frente ao edifício da Telefónica na Gran Via, e despacharem a partir daí. Mais uma vez, perdoam-me a expressão, “quem se lixa é o mexilhão”.
Ainda segundo a imprensa, nas pequenas e médias empresas que são a maioria, parece que a leitura da lei é mais maleável, ou seja, faz-se mais ou menos vista grossa a quem fume discretamente o seu cigarrinho sem incomodar os demais.
Embora este tema tenha apoiantes e detractores em todos os níveis sociais, uma coisa me parece certa: há um excesso de regulamentação da nossa vida privada, tipicamente socialista, que não augura nada de bom para o futuro.
As próximas vítimas – de uma “guerra” que já começou – desta fúria regulamentadora do actual Governo são as cadeias de “fast food”, que anunciam hambúrgueres e similares tamanho XXL, o que contraria os desígnios deste Governo no sentido de reduzir a percentagem de obesos em Espanha, cifrada actualmente em 30 %. |