Chipre, mais um logro comunitário
por João de Mendia
Como se sabe, apenas a parte ortodoxa grega da ilha de Chipre entrou, em Maio de 2004, para a União Europeia. A 25 de Abril de 2004, os 650.000 habitantes desta ilha organizaram um referendo para saber se os cipriotas gregos e turcos desejariam a sua reunificação. Ora, 65% dos cipriotas turcos votaram a favor, enquanto que 75% de cipriotas gregos votaram contra. Esta recusa dos cipriotas gregos tem a sua explicação tanto na história longínqua da ilha como em acontecimentos já bem mais recentes.
Esta ilha começou por ser dos primeiros territórios a ser cristianizado, tendo isso acontecido com a estadia aqui de S. Paulo e de um seu discípulo S. Barnabé, em 45. Em 649 acabou por ser invadida e arrasada pelos árabes depois de sangrenta refrega. Reconquistada em 1191 pelos cristãos do Ocidente, ela tem vindo sucessivamente a ser propriedade inglesa e sede do Reino de Jerusalém, após a perda desta cidade. Em 1571, Chipre é brutalmente conquistada pelos turcos otomanos, que se instalam e rechaçam grande parte dos seus habitantes cristãos. Em 1878, o império otomano, já em pleno declínio, cede Chipre a Inglaterra, que acabou por anexar a ilha em 1914. Disputados entre os britânicos, os gregos e os turcos, ela acaba finalmente por se tornar uma república independente em 1960 sob a presidência do arcebispo ortodoxo Makarios III, falecido em 1977.
Em Julho de 74, o regime dos coronéis depôs o arcebispo com a intenção de juntar Chipre à Grécia. A Turquia, aproveitando a situação, invade militarmente o norte da ilha com 40.000 soldados e 300 carros de combate. Esta invasão, ilegal e condenada pela ONU, provoca a expulsão de 200.000 cipriotas gregos e o massacre de 5.000 cristãos. As Igrejas são então transformadas em mesquitas e o governo turco instala uma população turca de colonos no norte da ilha, que acaba por vir a ser uma república turca, ocupando 38% do território, e unicamente reconhecida pela Turquia, que continua a manter um exército de 36.000 soldados. Com a intenção de evitar lutas entre gregos e turcos, as duas comunidades ficam separadas por uma fronteira sob um controlo internacional.
A oposição dos cipriotas gregos à unificação da ilha é igualmente motivada pelo facto do lado turco, bem minoritário, continuar a ser apoiado pela Turquia, pais de que sempre se habituaram a ver e a sofrer enorme e violenta agressividade.
Hoje em dia, oficialmente laicista, a Turquia conserva ainda, na sua legislação vincadas heranças islâmicas como a interdição de se construírem igrejas e sinagogas, entre outras. Por outro lado, Recep Tayyip Erdogan, eleito presidente em 2003, foi, em tempos bem recentes, um forte apoiante de extremismos fundamentalistas islâmicos, de que se diz, estrategicamente, afastado. Mas não está.
Mais recentemente, apesar do resultado de um referendo à população se ter pronunciado contra a Turquia, a União europeia, mais uma vez achando que a vontade das populações só são legítimas se forem de encontro às suas políticas e orientações, ignorou e deplorou vivamente aquele resultado. Conhecem-se as inúmeras, dispendiosas e ilegais pressões de toda a ordem que Bruxelas exerceu sobre a população grega da ilha com o intuito de obter o voto favorável à reunificação. Até o Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, chegou a sugerir um compromisso para a reunificação da ilha, convencido que está, de que a vocação da Europa passou a ser a de acolher os emigrantes do mundo inteiro. Esta sua convicção está bem expressa naquilo que faz connosco, e no que não faz com os países africanos. É como que um enormíssimo ajuste, não se sabe de que contas, que todos teremos que pagar em nome de um maquiavelismo global que passou a ser a tal ordem de que se falou e que se está a instalar, com custos brutais. Mas, e apesar de tudo isto, as recomendações da “comunidade internacional” foram largamente rejeitadas pelos cipriotas gregos.
Em contraponto, os cipriotas turcos lograram fazer valer a ideia segundo a qual não seria justo que o seu desejo de entrada na União Europeia (expressa por 65%), fosse posto em causa pelo voto grego, apesar de largamente maioritário nesta consulta. O ministro dos estrangeiros turco veio mesmo pedir que as sanções à população turca da ilha, desde a ocupação, fossem levantadas, dado esta ter votado no que é considerado o “bom sentido”. Sensíveis a este argumento, os ministros europeus dos Negócios Estrangeiros, numa reunião em Luxemburgo, acordaram numa ajuda de 250.000.000 euros à população “penalizada pelos cipriotas gregos”.
Esta é a triste realidade que se passa com o suicidário projecto europeu, que prefere ignorar a tomada militar há 30 anos do território cipriota grego, que faz parte já de EU, e a bárbara perseguição aos cristãos. E tudo isto em favor do politicamente correcto que é não hostilizar um regime islâmico em obediência a um projecto global cujas previsíveis consequências estão bem à vista.
Por todas estas, e por muitas outras razões, a viagem à Turquia de Sua Santidade o Papa Bento XVI não pode ter sido mais oportuna, e o que lá foi lá fazer e as consequências das suas posições em defesa da Cristandade saber-se-ão para o ano. Ou mais.
Este Papa, a quem agradeço mais este sacrifício e em quem me revejo na sua pastoral, irá ser uma das importantes referências futuras para a nossa Igreja. Já é. Bem-haja Sumo Pontífice. |