Entre o ridículo e a laicidade
por Pedro Guedes da Silva
Em meados de Novembro, um bizarro grupo de cidadãos constituídos em associação – República e Laicidade (R&L) de seu nome – entendeu remeter à Comissão Nacional de Eleições um pedido no sentido de serem prontamente retirados eventuais crucifixos que ainda perdurem, estoicamente, em salas que sirvam de assembleias de voto no referendo ao aborto agora agendado para 11 de Fevereiro.
À partida, como já nos fomos habituando a estas novas formas de fundamentalismo, a coisa até poderia parecer normal e passar sem grande alarido, depois de dar o desconto devido à raiva gratuita bem patente neste tipo de propostas. Com efeito, aquilo que me justifica estas linhas não é o pedido em si mesmo, que para ser franco me é indiferente e que até reputo como sendo claramente positivo para as associações ‘Pró-Vida’, mas sim a fundamentação que o sustenta – e que me parece, essa sim, inacreditável para não dizer ofensiva.
Vejamos: diz a R&L na nota por si divulgada que actuou:
i)
em consequência de posições tornadas públicas pela Conferência Episcopal Portuguesa, de que teve conhecimento pela comunicação social;
ii)
que num desses documentos é dito aos católicos deverem estes pronunciar-se no referendo em causa em favor do ‘não’;
iii)
estando então a Igreja a pedir que se vote de determinado modo;
iv)
pelo que a presença de crucifixos em salas de aula que sirvam de assembleias de voto viola legislação respeitante ao enquadramento da… propaganda eleitoral…!
Note o leitor a clareza e fluidez do raciocínio: apesar de ser certo e sabido, por manifestamente evidente, que o aborto não é uma questão religiosa (conforme pretende a todo o custo a R&L), para estes senhores um crucifixo na parede de uma escola mais não é do que ter lá no mesmo sítio um autocolante partidário. Tudo exactamente no mesmo plano, o que é espantoso! E ainda mais espantoso se torna quando a dita associação, querendo por certo tomar os portugueses por parvos, jura a pés juntos limitar-se a defender a laicidade do Estado sem qualquer pretensão ofensiva, sempre, presume-se, com o maior respeito pela Fé dos demais. Ora imaginem se assim não fosse...
O que já não se percebe, admitindo que a associação se leva a sério a si mesma, é porque razão fica por aqui, não levando até ao fim o que se infere das suas alegações. Como parece ser evidente, se o crucifixo é uma peça de propaganda eleitoral, de modo algum será admissível que, em plena jornada eleitoral, se celebrem Missas por esse país fora, posto que de simples comícios se tratarão. E embora eu arrisque, correndo o risco de ser injusto, que a R&L nada tem contra um eleitor que se apresenta ao dever cívico ostentando a figura de Che Guevara numa t-shirt, julgo que deveriam os fundamentalistas considerar a (i)legalidade de um padre se apresentar ao presidente da mesa de voto sem que o faça em traje civil. Pode, com efeito, ser profundamente constrangedor para um qualquer eleitor, enquanto na cívica fila, ser olhado pelo pároco estando aquele vestido a preceito...
Terminemos: não sendo eu sensível quer à bondade quer à tolerância destes novos fundamentalismos, concedo que o ridículo da coisa chega a divertir-me. Não sei se acontecerá a mesma coisa com os membros da Comissão Nacional de Eleições que se vejam forçados a analisar o pedido; pode dar-se o caso de serem pessoas para quem a questão da efectiva laicidade do Estado seja assunto sério e, nesse caso, talvez se sintam, mais do que ofendidos, envergonhados.
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