Aborto de A a Z
por Pedro Guedes da Silva
A, Agosto de 2010 – Data do próximo referendo
nacional à “interrupção voluntária da
gravidez”. No caso de vitória do ‘sim’ no próximo
dia 11 de Fevereiro, será necessário realizar nova
consulta tendo em vista a liberalização total do aborto
a pedido até às 30 semanas, dando resposta aos anseios
da esmagadora maioria dos portugueses; em caso contrário –
vitória do ‘não’ daqui por mês e pouco –
PS, PCP e BE entenderão que o aborto se mantém como
prioridade máxima aos olhos dos portugueses e convocarão
nova consulta para a próxima legislatura. O facto do país
estar a banhos não constituirá problema, na medida em
que militantes com elevado sentido cívico daquelas três
agremiações se disponibilizarão para carregar em
ombros, de areal em areal, as urnas de voto; em algumas praias do
litoral alentejano será admissível o voto de braço
no ar e os resultados serão anunciados pelo dr. Louçã
e pelo Engº Sócrates. Zezé Camarinha aplaudirá,
eufórico, a vitoriosa proclamação.
B, Berço – Ajuda de. É apenas um exemplo, de
muitos que podiam ser dados, de organizações que estão
no terreno ajudando mães em dificuldade a seguir em frente com
a respectiva gravidez, mesmo quando todo o mundo (e as suas
circunstâncias) parece estar contra elas. Não sei se do
lado do ‘sim’ se podem enumerar estruturas similares. Na melhor
das hipóteses, imagino carreiras de autocarros, uns a seguir
aos outros, em sucessivos percursos Campo das Cebolas-Badajoz-Campo
das Cebolas ou Campanhã-Vigo-Campanhã…
C, Correia de Campos – Também podia ser C de comédia,
que de igual modo se representaria com brilhantismo a notável
política do Ministro da Saúde: encerrar maternidades e
abrir clínicas para realizar abortos. O ministro que vier a
seguir que apague a luz do ministério.
D, Dona da barriga - É ela, como bem se grita à
porta do tribunal de Aveiro! E se dúvidas existissem a
pergunta não deixa ninguém mentir: aborte-se “por
opção da mulher”, que está bom de ver que a
criança só tem um progenitor. O pai queria ser chamado
a ter voto na decisão? Azar.
E, Eufemismo – É a “IVG – interrupção
voluntária da gravidez”, denominação mentirosa
mas sempre pronunciada pela dra. Edite Estrela com voz mui carinhosa
e compreensiva. Devia chamar-se aborto – tout court - posto
que é disso que se trata, além de que se mata, ao invés
de se interromper o que quer que seja. O que se interrompe é
suposto poder vir a ser retomado no futuro, o que não é
manifestamente o caso.
F, Fina d’Armada – A
historiadora Fina d’Armada é injustamente desconhecida da
esmagadora maioria dos portugueses apesar dos inúmeros prémios
que lhe recompensam o mérito. Desta vez, numa acção
de campanha do ‘Sim’ do qual é mandatária, afirmou
ter verificado após a leitura da Bíblia que "Deus
atribui um mero valor pecuniário ao feto". Aí
está um bom e inesperado reforço para o ‘não’
neste mercado de Inverno. Poderá a rapaziada do ‘sim’
elevar a senhora à condição de única
porta-voz da causa?
G, Gelatina – Pudim de. Exemplificando a matança numa
reportagem da dra. Fernanda Câncio (ver J) publicada em
1998, uma “parteira” (dessas que não faz partos) diz que "aquilo
sai tudo fragmentado, é como se fosse gelatina. Faz de conta
que é um pudim de gelatina, que a gente aspira e pronto..." E pronto, assim ficámos todos a saber que até às
oito semanas – mais uma e a senhora diz que já mete “impressão”… - não passamos de um pudim de
gelatina. Abençoadas militantes da liberalização
total que com elas tanto aprendemos…!
H, Hospitais – É sabido que Portugal é o país
ideal para implementar a liberalização do aborto a
pedido. Desde a entrada para a União Europeia que os nossos
hospitais não apresentam listas de espera e que hérnias,
cataratas e até unhas encravadas são problemas que há
muito se tratam pouquíssimos minutos depois da chegada a um
“estabelecimento de saúde legalmente autorizado”.
Apresenta a vantagem acrescida de, encerradas as maternidades, ser
uma forma de evitar a colocação dos obstetras saneados no quadro de supra-numerários.
I, Impostos – Com a liberalização total do
aborto, abre-se uma nova janela de oportunidade nos IRS’s de cada
um de nós. Num espírito de fraternidade como já
não se via desde as gilhotinas da Revolução
Francesa, casais portugueses que lamentam não ter dinheiro
para ter filhos terão oportunidade de ajudar a liquidar os
pré-rebentos dos outros!
J, Jornalismo de Causas – Caracteriza o pequeno número
de jornalistas – sensivelmente 90% do total – que faz abertamente
campanha pelo ‘sim’, disfarçando a militância sob a
forma de notícias. Distinguem-se dos jornalistas que se
declaram Pró-Vida justamente pelo elemento da declaração:
enquanto estes últimos avisam os portugueses daquilo que deles
se pode esperar, esta categoria “de causas” nunca assume a
pró-matança. Oficialmente, são sempre
independentes.
L, Laicidade – Levada ao extremo é a tara que
identifica os bizarros cidadãos da Associação
República e Laicidade. No essencial são concidadãos
que terão ficado profundamente traumatizados com a sua
experiência escolar, onde foram incapazes de aprender História
de Portugal constrangidos pela existência de crucifixos nas
salas de aula, que desde então confundem com propaganda
política – presume-se que fascista. Não admitem que
alguém possa votar submetido a tamanha opressão e por
esse facto – acredite o leitor – prometem combater sem tréguas
até ao fim dos seus dias.
M, Mentira – Perdoem-me o termo, mas dizer-se que ninguém
é a favor do aborto – como juram grande parte dos defensores
do ‘sim’ – é uma treta esfarrapada. É óbvio
que a maior parte daqueles activistas é favorável ao
aborto, entendendo-o apenas como mais uma forma de planeamento
familiar ou de método de substituição da pílula,
quando esta se esgota na farmácia lá do bairro.
N, Natalidade – Os portugueses são cada vez mais
velhos e nascem cada vez em menor número, mas isso não
é nada que a recente Lei da Nacionalidade não possa
resolver. Parece que a Alemanha, debatendo-se com problema similar,
resolveu presentear os mais recentes nascimentos em numerário,
não lhes tendo aparentemente ocorrido que a solução
do problema estava na liberalização total do aborto.
São uns inbecis, aqueles alemães…
O, Outdoors do Bloco – O KGB anti-abortista andava por aí
a prender toda a gente e preparava-se para erguer um campo de
concentração e reeducação nos arredores
de Elvas, mas graças a Deus apareceram os cartazes do Bloco de
Esquerda para denunciar a malfeitoria. Agora, felizmente, todos os
portugueses sabem que polícias de costumes, aos bandos de
dois, prendem e arrastam por aí as mulheres que abortam. Tenho
esperança de que se trate daquelas campanhas usando técnicas
de “seguimento” e que no próximo fascículo se nos
diga que prisão alberga tanta delinquente. Já agora, e
visto que se é do Bloco não pode ser demagogia barata,
sempre gostava de saber.
P, Presidente da República – Cavaco Silva convocou o
referendo. Curiosamente, e apesar do entusiasmo com referendos, não
me constou que se tenha interessado por aí além com o
pedido de consulta popular versando a PMA – Procriação
Medicamente Assistida e subscrito por largos milhares de portugueses.
Agrada-me verificar que vai já para uma data de anos que não
me engano numa eleição que seja…
Q, Quid Iuris? – Muito se debate a pergunta. Na verdade, sou
tentado a concordar que alguma coisa mais simples e objectiva, do
tipo “concorda com a liberalização do aborto a
pedido?”, seria mais perceptível e, sobretudo, mais séria
da parte de quem pergunta. Mas se deitarmos para trás das
costas as nossas convicções pró-Vida, também
devemos perceber que é justo que finalmente o país
tenha encontrado uma forma institucional de homenagear a escrita
corrida de Saramago.
R, Rato – Refiro-me à “criaturinha do tamanho de um
pequeno rato” que se tornou célebre nos últimos dias
do ano na blogosfera nacional. A imaginação e bom gosto
dos militantes do ‘sim’ parece não conhecer limites e
quando ainda nos habituávamos à ideia de que todos
fomos, um dia, pouco mais do que um pudim de gelatina, eis que somos
forçados a dar novo passo em frente: um dia, lá longe,
passámos todos pela fase de“criaturinhas do tamanho de um
pequeno rato”. Só passada essa etapa há uns que
se fazem à Vida e outros que parecem estagnar para todo o
sempre na fase da asneira.
S, Sindicato dos Jornalistas – A Rádio Renascença
anunciou aos seus ouvintes que tinha posição face à
consulta de 11 de Fevereiro, alinhando pelo campo que defende a Vida.
De imediato o Sindicato dos Jornalistas condenava a estação
e a ineceitável opressão que a tomada de partido
representava perante os trabalhadores. Felizmente que o
Sindicato dos Jornalistas – onde não pontifica qualquer
comunista para além dos que ocupam os lugares de destaque –
não sabe que o Diário de Notícias existe. Assim
sempre poupa no papel timbrado.
T, Tratado – "Vida e Direito - reflexões sobre um referendo", das Edições Principia, é uma colectânea de textos jurídicos e pró-Vida com organização de Jorge Bacelar Gouveia e Henrique Mota que vivamente se recomenda pela inteligência e pela oportunidade. Não há contraditório por parte do 'sim'; nem o João Ratão, que morreu no caldeirão.
U, Urnas – Não deixa de ser lamentável que
actualmente tudo seja referendável, o que neste caso equivale
por dizer que se possam decidir as urnas nas urnas. Mas se assim é,
vamos a votos e que se não poupem esforços. Já
em 98 eram favas contadas e depois…
V, Vida – Estamos cansados de ouvir da parte dos apoiantes
do aborto que não é possível definir o momento
exacto que marca o início da Vida. Vendem-nos as criaturas a
tese de que a concepção é uma miragem filosófica
e de que o facto de ouvirmos o coração do bebé a
bater a toda a velocidade numa qualquer ecografia realizada antes das
dez semanas será, eventualmente, resultado de uma alucinação.
Passamos então a admitir que o coração de tais
gentes pudesse de facto não dar sinais de Vida nas primeiras
semanas; se muitos anos volvidos continua a não se fazer
notar...
X, Xadrez – Político: inúmeros movimentos pelo
‘sim’ integram destacados membros do PSD, que por sua vez se não
dá à maçada de ter opinião. No CDS não
faltam vozes a dar uma no cravo e outra na ferradura, incluíndo
a do novíssimo D. Sebastião esperado no Caldas.
Assim se dividem os males pelas aldeias e se tenta ganhar sempre, o
que é uma forma de sobrevivência como outra qualquer.
Sobretudo para quem já quase não apresenta sinais
vitais.
Z, Zurbaran – Fica em Badajoz e é um hotel de
qualidade bastante razoável que sempre albergou portugueses.
Dantes por lá pernoitavam os que partiam em busca de caramelos
e de uns quantos sacos de recuerdos; agora continua a servir
tugas, mas desta feita que pretendem regressar com menos peso. O
Zurbaran, sem que disso tenha culpa, é também ele um
espelho das misérias do mundo.
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