O aborto e a raiz do problema
por Pedro Afonso
Qualquer texto ou artigo de opinião
sobre o aborto gera habitualmente no leitor, em função
da sua convicção sobre o assunto, uma identificação
ou uma rejeição da posição ideológica
de quem escreve. De resto, já há muito tempo que este
tema é debatido na sociedade portuguesa, por essa razão
os argumentos de ambos os lados são bem conhecidos.
Julgo ainda que, quer ganhe o "sim"
ou o "não" no novo referendo que se avizinha, pouca
coisa mudará. Ou seja, o debate ideológico, embora
importante, tem que ter uma repercussão prática,
criando verdadeiras soluções, caso contrário não
irá servir para realmente alterar as coisas. Por outras
palavras, a raiz do problema permanecerá!
É relativamente consensual entre
os que defendem a legalização do aborto e aqueles que
se opõem, de que o aborto – independentemente das
circunstâncias em que é realizado – é algo de
mau, repugnante e de que ninguém deverá orgulhar-se.
Mas o mais importante é que poderia ser evitado! Então,
se pode ser evitado, por que é que a maioria das pessoas se
fixa obsessivamente na luta ideológica e não procura
encontrar soluções concretas?
Sem pretender criar estereótipos,
sabemos que muitas das mulheres que abortam fazem-no por imaturidade,
maus-tratos, abusos sexuais, solidão, abandono, dificuldades
económicas, etc. Em suma, fazem-no por julgarem que não
têm outras opções. A verdade é que muitas
mulheres que abortam não têm muitas alternativas. Ficam
entregues a si próprias, uma vez que a sociedade – salvo
honrosas excepções de algumas instituições
de solidariedade social – não lhes deu grandes hipóteses
de escolha.
O Estado tem uma legislação
específica para este assunto (Centros de Apoio à Vida),
mas que hipocritamente os governos verdadeiramente nunca fizeram
aplicar. Por outro lado, aqueles que procuram lutar contra o aborto
"pela positiva", estão desapoiados e não
dispõe de estruturas suficientes para fazer face às
reais necessidades desta calamidade. Várias mulheres que
abortam ficam assim num beco sem saída, sem possibilidades de
opção, sem apoio e, ao contrário daquilo que é
dito, ficam privadas da sua liberdade. Ou seja, mesmo que queiram
levar por diante a gravidez não lhes é dada essa
oportunidade. E, caso estejam numa situação de "vida
miserável", ela certamente irá perdurar depois de
terem abortado.
Estamos assim diante um problema
complexo, necessitando por essa razão de respostas que
envolvam várias entidades e diferentes técnicos:
médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais,
etc. Mas por que não tentar fazer alguma coisa? Limitar o
aborto a uma questão de planeamento familiar é uma
visão demasiado redutora, atribuir-lhe apenas razões
sociais e económicas é por sua vez demasiado fatalista.
Ao mesmo tempo, aqueles que abordam com ligeireza a interrupção
voluntária da gravidez como se esta se resumisse a retirar um
piercing em função da vontade ou da circunstância
da mulher, acabam por ser, do meu ponto de vista, demasiado radicais,
menosprezando as vidas humanas inocentes que se perdem.
As razões sociais, psíquicas,
económicas…; enfim, de desgraça humana relacionadas
com o aborto não se resolvem simplesmente através do
código penal, nem com exercícios de retórica
política, ética, religiosa, etc. Torna-se por isso
necessário encontrar soluções. É urgente
combater este flagelo no terreno, até porque a resignação
é o pior dos males! |