O Referendo Visto por uma Mulher
por Thereza Ameal
Sou mulher e, segundo alguns, parece que devia estar contente porque
querem oferecer-me o aborto livre e gratuito; dizem que é para
me dar mais um direito. Mas eu estou triste. Eu não quero o
direito de poder matar um filho em momento algum da sua vida, e sei
que mesmo que a lei um dia o declare, preto no branco, esse direito
continuará sempre a ser uma mentira: ninguém tem o
direito de destruir uma vida.
Dizem que isto é para me proteger da prisão. Só
que há mais de 30 anos que não há nenhuma mulher
na cadeia por ter abortado. E nos últimos 8 anos só
vimos serem julgadas aquelas pobres 4 ou 5, que abortaram já
depois das 10 semanas, e que os que dizem defender as mulheres usaram
sem vergonha expondo-as na televisão.
Para evitar os julgamentos não é preciso referendos,
nem mudar a lei, basta mudar as regras processuais. Há muitas
propostas neste sentido mas são ignoradas, porque não
implicam oferecer a todas as mulheres, ricas ou pobres, com ou sem
problemas, abortos gratuitos nos hospitais, nem impedem o julgamento
dos médicos e parteiras que enriquecem à custa da vida
dos filhos e da destruição interior das mães,
nem protegem quem força a mulher a dar este passo, e muito
menos implicam a abertura de clínicas privadas. Será
que é mesmo a mulher que querem proteger?...
Dizem os estudos sérios, dos países onde o aborto já
é livre, que não são as mulheres pobres quem
mais aborta, parece que são as jovens com pouco mais de 20
anos, que investiram a vida inteira nos estudos e na carreira, e que
neste mundo de competição desenfreada, onde se tornou
tão difícil ser mãe, vêem os seus planos
desmoronar-se e pensam que por ter aquele filho vão
desperdiçar os seus esforços e estragar a vida. Sejam
quais forem as razões, são sempre mulheres que
enfrentam um drama de medo e solidão. Eu também não
as quero na cadeia, mas descobri que mais de metade das mulheres que
abortam nos países onde é legal, dizem que o fizeram
obrigadas. Se ao menos fosse proibido podiam ter dito que não
ao marido, ao namorado, ao pai, ao patrão, mas assim, sem a
lei a protegê-las, entraram no hospital e saíram de lá
diferentes. Para sempre.
Tenho uma grande amiga que abortou quando era nova, tinha 20 anos e
sentia-se incapaz de ser mãe. Pensou que assim ia esquecer
rapidamente aquela gravidez tão fora de horas. “Correu tudo
bem”, o bebé foi desfeito por mãos muito
profissionais, não teve problemas de saúde, mas as
feridas de que ninguém lhe falou nunca mais sararam. Aos 40
anos era alcoólica, estava sozinha, nunca mais teve outro
filho... Ela é que precisava de ter sido protegida. Fico feliz
por saber que agora já há muitas associações
que ajudam mulheres nestas circunstâncias. Que protegem
realmente, ajudando a enfrentar a realidade dum filho que já
existe e que mesmo não programado se pode aprender a amar.
Fico triste, terrivelmente triste, quando dizem que me querem dar o
direito ao aborto livre e gratuito, e mais ainda quando se atrevem a
dizer que é para me proteger. |