Avanti o popolo…Bandiera rossa trionferà
por J. Luís Andrade
Mesmo aqueles que costumam manter um certo alheamento em relação
às coisas da política, já notaram certamente o
esforço que o governo Sócrates tem feito em emular a
agenda do camarada Zapatero. O facto torna-se ainda mais notório
quando se sente a permanente tentativa de forçar clivagens e
atrições sociais, de uma forma aparentemente gratuita e
a despropósito. Lei da Memória Historica,
retirada de crucifixos de espaços públicos, predilecção
pela escabrosidade das relações homossexuais, etc.. Revanchismo político, intrínseco espírito
ditatorial do socialismo ? Talvez não só.
Creio que essas iniciativas, acessórias mesmo para os
estrategas que as concebem, se destinam mais a agitar as bandeiras
vermelhas do jacobinismo ideológico para que tapem e camuflem
as inevitáveis medidas ditas reformistas, anti-sindicais e
anti-populares, exigidas pelos verdadeiros donos do Poder, algures
por essa Europa e por esse Mundo; e, afinal, também pela dura
realidade dos factos a que anos de pusilanimidade laxista e
partidocracia demagógica nos conduziram. São cristãos
atirados às feras que lá vão entretendo a
maioria da populaça de esquerda para que ela não sinta
nas suas costas as fosquinhas autoritárias e abstrusas dos
governos socialistas.
Reféns da sua similar visão do Estado e, afinal, da
mesma referência ideológica, os partidos da oposição
permanecem manietados, impotentes e desorientados. No seu mal
digerido cripto-neo-liberalismo de subordinação ao deus
Mercado, até acham que Sócrates lhes faz o servicinho
bem feito e que basta esperar pelo inevitável desgaste para
regressarem em ombros à porta grande do Poder. De Valores
conhecem as acções e os mercados de futuros; que
engano… Fiados no pendular balancé do Poder não
compreendem que a agenda política socialista, através
de uma bem oleada rede de conivências mediáticas, contém
em si mesma um projecto monolítico (arriscaria a dizer
pessoal) de consolidação do Poder a longo prazo.
Conquistados os postos chaves e críticos do aparelho do Poder
(escalões dirigentes do Estado, das Empresas Públicas,
dos principais networks de tráfico de interesses,
incluindo a Comunicação Social), só a ruptura do
tecido social de base poderá levar ao arriar da bandeira rosa…
Ora, conhecendo nós o condicionamento político e
emocional a que a população portuguesa se deixou
sujeitar durante as últimas décadas, fácil se
torna perceber quão difícil é a emergência
de qualquer irrupção de indignação ou
oposição cívica. A estabilidade política
(mesmo que a caminho do abismo) foi elevada à condição
de Supremo Bem, tendo no actual Presidente da República o seu
maior paladino.
É nesse contexto que o referendo ao Aborto deve ser entendido.
Numa altura em que a sustentabilidade do futuro da Nação
só pode ser assegurada pelo aumento drástico da taxa de
natalidade (comprovadamente correlacionada com o apoio à
estabilidade das famílias) e pela salvaguarda dos recursos
naturais estratégicos, o que se assiste é à
protecção (quando não promoção)
dos casamentos homossexuais, das vantagens das uniões de facto
sobre o matrimónio, ao investimento público no aborto e
à alienação do património nacional legado
pelas gerações que nos antecederam.
Só a mais profunda hipocrisia pode levar os promotores do
Referendo a tentarem convencer-nos de que o que está em jogo é
a despenalização das mulheres que querem abortar até
às dez semanas. E as que o fizerem um dia depois? Em quase
todos os casos levados a tribunal, na Maia, em Aveiro ou em Setúbal,
a gravidez era bem mais avançada. O que irá acontecer
então? Se a Lei for para cumprir, mesmo que ganhe o Sim,
as mulheres voltariam a ter de ser levadas a tribunal. Para quê
então o charivari? É que a sanha bem regada lhes
permite alimentar o farisaísmo arrogante dos seus zelotas e
dos grupos em que se inserem ou revêem, considerando-se
superiores, mais cultos e avançados. Dominadas por uma
abstrusa convergência de esquerdismo sem fronteiras e liberalismo niilista, essas correntes de opinião
pretendem, no fundo, fazer aceitar o aborto como mais um método
anti-concepcional.
Não deixa de ser irónico que aqueles que sempre usaram,
para sua conveniência, o primado da Ciência e do
Positivismo venham agora negar a realidade para que a experimentação
médico-biológica aponta. E advogar a opção
do Direito do mais forte sobre o mais fraco e indefeso! Ah!, é
verdade, mas sem deixar de continuar a defender o direito e a
dignidade das libelinhas, das focas, das baleias, dos toiros, etc..
Mas na realidade, mais no fundo ou mais à superfície
(quem manda na minha barriga sou eu!), tudo se resume a O
aborto é fixe, o puto que se lixe !
Em abono da verdade, para além de pilar oportuno da cortina de
fumo que a agenda política de Sócrates pretende lançar,
o que efectivamente está por detrás da hipocrisia da
luta abortista é a hiperbolização da questão
da Igualdade, neste caso entre os sexos. Para os defensores do aborto
a pedido, a maternidade é um fardo que menoriza a mulher face
ao homem e que a impede de ter a mesma igualdade de oportunidades no
trabalho e no quotidiano. Daí a crescente tendência da
moda, do cinema e da Kultur, em geral, pelos seres de
sexualidade equívoca e andrógina. Pelos vistos, não
foram suficientes os rios de sangue que a utopia comunista, sucedânea
da falácia igualitária, fez (e ainda faz) correr.
Quanto ao Referendo, em última análise, como nas
encenações do La Feria, com as bandeiras desfraldadas e
bem hasteadas, relembrando combates de outrora, o pau bem pode vir
que a populaça lá vai, contente e entretida, gritando
palavras de ordem, cantando e rindo… |