DE BUENOS AIRES
A
relativização da vida humana
por Marcos Pinho de Escobar
O início deste ano na Argentina foi marcado pela celeuma que
envolveu o Bispo Castrense, Monsenhor António Baseotto, e o
ministro da Saúde do soixantehuitard Kirchner, Ginés
González. Apologista do aborto, o responsável pela
saúde dos argentinos considerou-se gravemente ofendido pelo
prelado quando este, ao criticar os promotores da cultura da morte,
fez referência a uma passagem do Evangelho de São
Mateus, na qual Jesus afirmava que aqueles que escandalizassem os
pequeninos deveriam ter uma mó atada ao pescoço e
atirados ao mar. O presidente e o governo, activistas dos “direitos
humanos”, “madres” e “abuelas” da “Plaza
de Mayo”, militantes abortistas e defensores da laicidade,
etc., todos saíram à estacada e aos impropérios
a exigir a cabeça de Monsenhor Baseotto. Simplesmente
condenado como apologista do “delito”, do “genocídio”
e da “ditadura militar”, o Bispo Castrense viu-se alvo de maciça
campanha de ódio espumante. Em declarações
oficiais e manifestações de rua chegou-se ao ponto de
acusar o prelado de justificar os chamados “voos da morte”, nos
quais terroristas e guerrilheiros capturados pelos militares teriam
sido atirados ao mar. Com grande alarde mediático um Kirchner
histriónico anunciou a exoneração imediata do
Bispo Castrense – esquecendo-se de um pormenor: a nomeação
ou substituição do prelado é competência
exclusiva da Santa Sé... Agrupações de famílias
militares e organizações católicas várias
colocaram-se ao lado de Monsenhor Baseotto e Sua Santidade Bento XVI
– com a dignidade incompreensível aos pigmeus –
reconfirmou o Bispo nas suas funções. A situação
vivida desde então é no mínimo bizarra.
Proibido de exercer o seu húmus nos quartéis e em
cerimônias oficiais, Monsenhor Baseotto prossegue
tranqüilamente no atendimento aos militares e às suas
família, desta vez em carácter “privado”. Para
Kirchner o prelado é um alvo a abater. Para o Bento XVI
Baseotto está em funções e recomenda-se. Até
aqui chegou o braço-de-ferro entre o Vaticano e Buenos Aires.
Diante da firmeza do Papa e do apoio da massa dos católicos
que ainda resistem na nação platense, o
presidente, como lhe é peculiar, meteu a lide incómoda
na gaveta, preferindo apontar a sua bateria de canhões de
ódio, ressentimento e demagogia para cima de alvos mais
rendosos.
É realmente impressionante como a defesa dos nascituros pode
suscitar manifestações de ódio tão
intenso. E mais impressionante ainda é a politização
do tema. A vida humana – um autêntico valor absoluto –
acaba por ser objecto de uma vil relativização. Na
Argentina kirchnerista as vidas de terroristas e guerrilheiros
têm carácter sacrossanto e dão direito a
homenagens, museus, feriados. Já as vidas daqueles abatidos
pela subversão não têm nenhum valor –
simplesmente são ignoradas. E a sua simples menção
trará sérios dissabores a incauto que a fizer. Os cem
milhões de vidas ceifadas pelo socialismo real não
valem absolutamente nada quando comparadas com os dois ou três
mil subversivos abatidos no Chile de Pinochet. E mesmo os “nossos”
milhões de mortos da infame “descolonização”
exemplarmente criminosa – dois milhões?, três?,
quatro? – são olimpicamente ignorados, enquanto os safanões
a umas dezenas de delinqüentes na António Maria Cardoso
constituem crime de lesa-humanidade. A vida humana, milagre e suprema
realização Divina, para alguns, significa uma simples
combinação de reacções físico-químicas,
para outros. Para aqueles um valor infinito; para estes não
mais do que algo prático. A comodidade da mulher moderna, as
preocupações hedonistas e materiais, o exercício
da liberdade individual absoluta num mundo completamente
antropocêntrico, servem de justificação para a
execução do nascituro inocente. Curiosamente aqueles
que defendem a prática do aborto e decidem frustrar a
possibilidade de uma pequenina vida humana que apenas se inicia,
inocentemente, opõem-se, com virulência, à pena
de morte para assassinos hediondos, à caça à
raposa e à baleia, ao derrube das árvores – e muitas
vezes são vegetarianos, por respeito aos animais. Para estes
indivíduos as sevícias e a brutal execução
de um nascituro é exercício de um indiscutível
direito à liberdade. Lógica macabra e perversa...
Num mundo ideal – ordenado e povoado por homens bons – certas
coisas não poderiam jamais ser objecto de referendos, nem
mesmo de discussão. Uma delas seria certamente a vida humana,
sobretudo a do nascituro inocente, este pequeno ser indefeso,
inocente, único e irrepetível. Em várias partes
do mundo os promotores da cultura da morte mourejam para instituir a
prática da tortura e a pena capital que constituem a
barbaridade do aborto. No momento em que os abortistas voltam à
carga em Portugal, roguemos à Providência Divina para
que na terra visitada por Nossa Senhora a vida humana continue
sagrada. E com a ajuda de Deus travemos o bom combate. Pela vida. |