Ano I - Nº 4, Dezembro de 2006
Alameda Digital
Na Defesa da Vida

DE BUENOS AIRES
A relativização da vida humana

por Marcos Pinho de Escobar

O início deste ano na Argentina foi marcado pela celeuma que envolveu o Bispo Castrense, Monsenhor António Baseotto, e o ministro da Saúde do soixantehuitard Kirchner, Ginés González. Apologista do aborto, o responsável pela saúde dos argentinos considerou-se gravemente ofendido pelo prelado quando este, ao criticar os promotores da cultura da morte, fez referência a uma passagem do Evangelho de São Mateus, na qual Jesus afirmava que aqueles que escandalizassem os pequeninos deveriam ter uma mó atada ao pescoço e atirados ao mar. O presidente e o governo, activistas dos “direitos humanos”, “madres” e “abuelas” da “Plaza de Mayo”, militantes abortistas e defensores da laicidade, etc., todos saíram à estacada e aos impropérios a exigir a cabeça de Monsenhor Baseotto. Simplesmente condenado como apologista do “delito”, do “genocídio” e da “ditadura militar”, o Bispo Castrense viu-se alvo de maciça campanha de ódio espumante. Em declarações oficiais e manifestações de rua chegou-se ao ponto de acusar o prelado de justificar os chamados “voos da morte”, nos quais terroristas e guerrilheiros capturados pelos militares teriam sido atirados ao mar. Com grande alarde mediático um Kirchner histriónico anunciou a exoneração imediata do Bispo Castrense – esquecendo-se de um pormenor: a nomeação ou substituição do prelado é competência exclusiva da Santa Sé... Agrupações de famílias militares e organizações católicas várias colocaram-se ao lado de Monsenhor Baseotto e Sua Santidade Bento XVI – com a dignidade incompreensível aos pigmeus – reconfirmou o Bispo nas suas funções. A situação vivida desde então é no mínimo bizarra. Proibido de exercer o seu húmus nos quartéis e em cerimônias oficiais, Monsenhor Baseotto prossegue tranqüilamente no atendimento aos militares e às suas família, desta vez em carácter “privado”. Para Kirchner o prelado é um alvo a abater. Para o Bento XVI Baseotto está em funções e recomenda-se. Até aqui chegou o braço-de-ferro entre o Vaticano e Buenos Aires. Diante da firmeza do Papa e do apoio da massa dos católicos que ainda resistem na nação platense, o presidente, como lhe é peculiar, meteu a lide incómoda na gaveta, preferindo apontar a sua bateria de canhões de ódio, ressentimento e demagogia para cima de alvos mais rendosos.

É realmente impressionante como a defesa dos nascituros pode suscitar manifestações de ódio tão intenso. E mais impressionante ainda é a politização do tema. A vida humana – um autêntico valor absoluto – acaba por ser objecto de uma vil relativização. Na Argentina kirchnerista as vidas de terroristas e guerrilheiros têm carácter sacrossanto e dão direito a homenagens, museus, feriados. Já as vidas daqueles abatidos pela subversão não têm nenhum valor – simplesmente são ignoradas. E a sua simples menção trará sérios dissabores a incauto que a fizer. Os cem milhões de vidas ceifadas pelo socialismo real não valem absolutamente nada quando comparadas com os dois ou três mil subversivos abatidos no Chile de Pinochet. E mesmo os “nossos” milhões de mortos da infame “descolonização” exemplarmente criminosa – dois milhões?, três?, quatro? – são olimpicamente ignorados, enquanto os safanões a umas dezenas de delinqüentes na António Maria Cardoso constituem crime de lesa-humanidade. A vida humana, milagre e suprema realização Divina, para alguns, significa uma simples combinação de reacções físico-químicas, para outros. Para aqueles um valor infinito; para estes não mais do que algo prático. A comodidade da mulher moderna, as preocupações hedonistas e materiais, o exercício da liberdade individual absoluta num mundo completamente antropocêntrico, servem de justificação para a execução do nascituro inocente. Curiosamente aqueles que defendem a prática do aborto e decidem frustrar a possibilidade de uma pequenina vida humana que apenas se inicia, inocentemente, opõem-se, com virulência, à pena de morte para assassinos hediondos, à caça à raposa e à baleia, ao derrube das árvores – e muitas vezes são vegetarianos, por respeito aos animais. Para estes indivíduos as sevícias e a brutal execução de um nascituro é exercício de um indiscutível direito à liberdade. Lógica macabra e perversa...

Num mundo ideal – ordenado e povoado por homens bons – certas coisas não poderiam jamais ser objecto de referendos, nem mesmo de discussão. Uma delas seria certamente a vida humana, sobretudo a do nascituro inocente, este pequeno ser indefeso, inocente, único e irrepetível. Em várias partes do mundo os promotores da cultura da morte mourejam para instituir a prática da tortura e a pena capital que constituem a barbaridade do aborto. No momento em que os abortistas voltam à carga em Portugal, roguemos à Providência Divina para que na terra visitada por Nossa Senhora a vida humana continue sagrada. E com a ajuda de Deus travemos o bom combate. Pela vida.

   
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