O MITO E OS FACTOS
A
chacina de Badajoz
por J. Luís Andrade
Um violento episódio da épica caminhada
das tropas revoltadas que, de Sevilha, convergiam para a Capital, foi
transformado habilmente pela Frente Popular num mito de horror
que ainda hoje persiste pegajosamente. Jay Allen, jornalista
americano do Chicago Tribune, provavelmente inebriado pelos
vapores do tinto português de que tanto gostava, pintou a ocupação de Badajoz pelas tropas do insurgente Yagüe
com tais pormenores e colorido que até parecia que havia
assistido a tudo o que se passara quinze dias antes. Com efeito,
chegado à capital extremeña a 23 de Agosto, nove
dias depois da ocupação e no dia seguinte ao massacre
verificado na prisão Modelo, em Madrid, Allen traçou
um cenário dantesco composto por uma sanguinolenta orgia de
vingança. Segundo ele, teriam sido mortas mais de quatro
mil pessoas, das quais, 1.800 teriam sido executadas nas primeiras
doze horas. Os carrascos tinham tido tempo para montar um espectáculo
na Praça de Touros, a que tinham assistido mais de 3.000
pessoas que batiam palmas à medida que os prisioneiros eram
abatidos. Rapidamente difundido pelos propagandistas ao serviço
da Frente Popular, quiçá como contraponto ao
choque e indignação provocados pela divulgação
internacional da matança da Modelo, a crónica do
americano constituiu a base do Mito da Chacina de Badajoz.
Nove semanas depois, a 27 de Outubro, o assunto seria retomado pelo
jornal madrileno La Voz, com o Exército de África
às portas de Madrid. A descrição e os detalhes
são de tal forma exagerados que a notícia acaba por se
tornar inverosímil. Poucos dias depois dão-se os
massacres, esses sim bem reais de Paracuellos del Jarama. Um
espectáculo semelhante, mas no lado contrário, foi
descrito pelo insuspeito Hemingway na sua novela Por quem os sinos
dobram. Pelos vistos, o infra-humano tratamento taurino aos
detidos fazia parte do imaginário frentepopulista que
não só o pôs em prática como tentou
imputar a sua representação aos sublevados, em Badajoz.
Bem documentado está o calvário de António Díaz
del Moral, residente em Ciempozuelos. Introduzido num touril da praça
de toiros, foi múltiplas vezes corneado por uma rês da
ganadaria López de Letona. Meio-morto, foram-lhe cortadas as
duas orelhas após o que foi arrastado pela povoação
a reboque de um carro para finalizar pendurado numa oliveira e servir
de alvo a um campeonato de tiro com que definitivamente o mataram. Na
realidade, os acontecimentos drásticos da repressão
pós-ocupação aparecem traduzidos nos registos de
óbito com 172 mortes; mesmo considerando os 493 fuzilamentos
efectuados depois, até Dezembro, a cifra, embora denuncie a
dureza da repressão, fica muito aquém dos milhares de
vítimas da tão apregoada chacina indiscriminada.
Mário
Neves, o nosso primeiro embaixador na União Soviética
no pós-25 de Abril, foi testemunha desses conturbados dias, na
qualidade de jornalista do Diário de Lisboa. Ao
contrário de outros colegas portugueses que cobriram o avanço
da coluna sul dos sublevados desde Sevilha, Mário Neves
concentrou-se apenas em Badajoz não tendo testemunhado, por
exemplo, as cinzas dos horrores de Almendralejo ou de Alares. Durante
muito tempo, as reportagens daquele jornalista português foram
usadas como prova de apoio e suporte às invenções
de Jay Allen, ou seja, daquilo que se convencionou chamar a Chacina
de Badajoz. Foi, aliás, este o título do opúsculo
que Mário Neves publicou em 1985, nos Cadernos de O Jornal,
estimulado certamente pela entrevista que havia concedido, pouco
tempo antes, aos produtores ingleses da série A Guerra
Civil Espanhola, distribuída pela Granada TV.
Li com atenção o pequeno livro e, com excepção
de umas desajustadas e injustas acusações aos livros do
Major Geoffrey McNeill-Moss - The Epic of the Alcazar e do
historiador alemão Hellmuth Günther Dahms - Der
Spanische Bürgerkrieg, nada de especial destaque encontrei.
As reportagens, transcritas no texto haviam sido publicadas de 11 a
16 de Agosto de 1936. Segundo o autor, a 17 havia escrito uma crónica
que a Censura não deixara passar e que só apareceria
numa obra de Southworth, em 1965. Apesar de uma análise hermenêutica ao texto sugerir que essa última
reportagem apresenta um tom um pouco diferente, talvez mais radical
que as anteriores, temos obviamente que nos basear na palavra do
autor. Mas em última análise, a verdade é que
esse relato pouco ou nada acrescenta ao já expresso nos
anteriores. Que houve muitas mortes em Badajoz nenhuma das partes
envolvidas o contesta. O que importa saber friamente é se elas
resultaram de acções de guerra ou de repressão
do tipo Væ Victis! Se algo é confirmado pelas
ligeiras reportagens de Mário Neves é o facto de, por
um lado, os Carabineros (polícia fronteiriça) se
terem revoltado, logo que puderam, contra os seus oficiais e
superiores fiéis ao governo de Madrid e, por outro, a
tradicional hospitalidade das autoridades portuguesas, com o condoído
acolhimento prestado aos refugiados frentepopulistas. Das
descrições do jornalista se intui que, ao
contrário do que alguns autores precipitadamente afirmam (Iva
Delgado, por exemplo), não foram as autoridades portuguesas
que recusaram a entrada no País ao vereador de Mérida e
ao alcalde de Fuente del Maestre mas sim os carabineros do posto fronteiriço que, amotinados a favor dos sublevados,
os tinham detido. Aliás, não fazia nenhum sentido terem
as autoridades portuguesas deixado entrar no País
personalidades com muito mais responsabilidades políticas como
o eram o Governador Civil, Miguel Granados, ou o Comandante Militar
de Badajoz, Cor. Ildefonso Puigdendola Ponce de Léon, para
depois impedir a entrada a ilustres desconhecidos.
Parece-me
altamente reprovável deixar que uma legítima e louvável
repulsa pelo grau de violência registado em Badajoz seja
transformada num testemunho de evidência de uma repressão
que nem Mário Neves nem os jornalistas franceses que o
acompanhavam, Jacques Berthet do Temps e Marcel Dany da
agência Havas, estiveram em condições de
testemunhar. E, obviamente, muito menos Jay Allen ou Reynolds
Packard, outro jornalista americano que escreveu uma crónica
para o New York Herald Tribune como se tivesse
assistido a tudo; o desfasamento da realidade foi de tal forma que a
própria United Press teve de o desmentir. Quer na Praça
de Touros quer na pequena Calle S. Juan plantou a imagem de
milhares de mortos. Nem o tempo entretanto já decorrido, nem o
número de defensores da cidade nem a dimensão das
artérias descritas permitiam, de boa fé, construir tais
mitos. Aliás, o Prof. Ricardo de la Cierva indica no seu
magnífico trabalho Historia esencial de la Guerra Civil
Española testemunhos de militares governamentais que
contrariam aquelas notícias. Incontestável informação
sobre o que realmente se passou, são as declarações
do tenente Pedro Parra Báez ao Ministério da Defesa
espanhol em 19 de Novembro de 1984. O referido militar, afirma que
quando a coluna Madrid chegou a Badajoz ele, que na altura era cabo,
e mais 83 camaradas seus resolveram abandonar as posições
e retirar-se para casa. Depois das autoridades dos insurrectos terem
tomado a cidade ele e todos os seus companheiros apresentaram-se
fardados e foram detidos na Praça de Touros para averiguações.
Aí permaneceram detidos até ao dia 26 de Agosto, tendo
sido transferidos para a prisão provincial no dia seguinte,
após interrogatório. Algum tempo depois, a todos o
Tribunal de Guerra permanente da Praça de Badajoz, em Conselho
de Guerra sumaríssimo de urgência, declarou inocentes.
Um
facto ignorado ou conscientemente omitido pelos divulgadores do Mito,
foi a sublevação das Forças de Segurança
ao serviço de Madrid contra o poder, os desmandos e os
excessos repressivos das milícias frentepopulistas.
Quando 300 guardias civiles, integrados numa expedição
sob o comando do deputado Sevilla Cañete enviada para deter a
coluna Asensio, cerca de 100 conseguiram desertar para os sublevados.
Por precaução, os outros foram enviados para Badajoz
sob prisão. Depois de um curto combate em Los Santos de
Maimona, a 5 de Agosto, as tropas recuaram para o abrigo da Capital extremeña onde a tensão, entretanto, crescia no
seio das forças governamentais. No dia seguinte, os guardias
de Asalto, formação militar aprioristicamente
favorável ao Governo, pelo cuidado recrutamento político
que fora posto na sua constituição, revoltaram-se
depois de uma tentativa de assalto dos milicianos à prisão
com o intuito de fuzilar os detidos e incendiar as instalações.
A firme oposição das Forças de Segurança
(incluindo o pessoal dos serviços prisionais) evitou o
massacre e levou à mencionada sublevação dos
militares da Guardia de Asalto que detiveram o seu comandante,
Benitez de seu nome, bem como o Cor. Puigdendolas. Isolados,
solicitaram a solidariedade da Guardia Civil mas esta, muito
vigiada, recusou-se a sair em seu auxílio. A meio do dia
seguinte não tiveram outra solução senão
renderem-se, depois da intermediação dos deputados
socialistas Miguel e Nicolás de Pablo.
As
colunas de Yagüe estão então junto a Mérida
que, a 10, conquistam facilmente. Badajoz é agora uma bolsa
cercada, onde o único escape possível é a
fronteira portuguesa por onde fugiriam, ainda antes da queda da
cidade, o Coronel Puigdendolas e o Governador Civil, como já
se disse. A defesa, não obstante a confusão anterior,
foi tenaz e valorosa. Os sublevados sofreram muitas baixas e os
defensores só cederam quando o Capitão Pérez
Caballero, acompanhado pelos quatorze legionários que lhe
restavam, logrou penetrar na designada Brecha de la Muerte (com o sargento João Correia, português, à
frente), na fortificação da cidade. Largos sectores da
guarnição militar decidiram-se pela rendição
enquanto que a maioria das forças milicianas fugia em
debandada pelo emaranhado de ruas de Badajoz, procurando refúgio
em casas particulares. E, tal como já acontecera noutras
localidades, nomeadamente em La Línea, o método de
progressão dos legionários e dos Regulares ao
penetrarem no tecido urbano, levou a que inocentes, que por
curiosidade ou incúria não haviam procurado refúgio
adequado, fossem abatidos. O comandante do Regimento da Guarnição,
o Cor. Quadrado, e o comandante dos Carabineros, o T./cor.
Pastor, morreram na encarniçada defesa da cidade pacense.
Em
última análise, as mortes em Badajoz, por mais graves e
lamentáveis que possam ter sido, não constituíram
um valor significativo, nem no contexto da GCE nem, muito
menos, no panorama alargado dos conflitos e repressões
políticas do séc. XX. Colocando o facto nas suas
devidas proporções, de acordo com os relatórios
recentemente divulgados na Rússia, as execuções
na cidade pacense não foram sequer um valor concorrente
do número de russos que eram executados enquanto Estaline
tomava o pequeno-almoço, como afirma Soljenitsyn. |