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Editorial
por Carlos Bobone
Num
país enfeitado para a campanha de compras de Natal, surgem os
primeiros cartazes de uma inovadora campanha “contra a humilhação”
das mulheres. A imagem escolhida tem poder de choque: uma mulher é
conduzida a julgamento sob escolta e esconde a cara com a camisola
para que não a reconheçam nas fotografias. A vergonha e
a humilhação encontram-se estampadas na atitude dela.
Poucos
dias depois da colagem dos primeiros cartazes, os jornais trazem a
público o caso do músico que matou a mulher. A
fotografia que acompanha as notícias mostra o presumível
criminoso a fazer o gesto que já conhecemos: esconde a cara
com o casaco. Não podemos saber se este uxoricida sofreu a
influência da campanha em curso. Provavelmente esteve demasiado
absorvido nos seus problemas para prestar atenção a
questões de interesse público. O que podemos verificar,
no entanto, é que na hora de ser conduzido perante a justiça
ele agiu como se estivesse a seguir à risca as directivas dos
conselheiros de imagem da campanha do aborto: centrar as atenções
sobre o acusado e o seu drama pessoal; deixar na penumbra o acto em
si, e na escuridão total a vítima do mesmo. Sobretudo,
evitar qualquer alusão a esta última.
Um
adepto do direito à vida, quando observa a vozearia feita à
volta dos julgamentos de mulheres que abortaram, sentirá a
mesma sensação de estranheza que experimenta um
historiador ao estudar casos de mulheres assassinadas pelos maridos
no século XIX. Havendo suspeitas de adultério, toda a
indulgência da opinião pública se encontrava do
lado do marido. Um homem célebre, como Vieira de Castro, era
lamentado e elogiado por toda a imprensa, que se apiedava do seu
drama, da sua infelicidade, da sua brilhante carreira interrompida. O
leitor assiste mudo a este coro de lamentações, com
vontade de o interromper para perguntar: Então e o que ele
fez? Aquele corpo sem vida não vos diz nada ao sentimento?
Embora
nos pareça claro que a defesa da vida acompanha os progressos
da civilização, a verdade é que em muitas épocas
o conceito de vida humana esteve subordinado aos preconceitos
dominantes. No século XIX o ultraje do marido enganado era
considerado suficientemente grave para pôr de parte as
considerações humanistas. No nosso tempo há quem
pense que a humanidade, privada durante séculos do gozo dos
prazeres sexuais, deve emancipar-se de todos os obstáculos que
a moral tradicional lhe apresenta, recuperando plenamente o direito a
usufruir o corpo. Esta é a moral que se pretende instaurar, e
é em nome de tais valores que se pretende apresentar a questão
do aborto como mais um episódio da secular batalha contra os
que pretendem reprimir a humanidade, privá-la do gozo dos
prazeres da vida.
Será
possível que o público se deixe comover com uma visão
tão parcial e incompleta do problema? Os profissionais da
comunicação de massas asseguram que sim, e com o seu
pragmatismo souberam calar aqueles que por um escrúpulo de
honestidade prefeririam chamar as coisas pelos nomes, não por
alcunhas pedantes. Quando se trata de cativar as atenções
públicas, cada um apresenta-se com o nome que escolhe e não
são raros os que renegam o seu nome de origem, enfeitando-se
com apelidos de fantasia que impressionam os mais ingénuos.
Evidentemente,
não basta tapar a cara com o casaco ou a camisola para se
receber a solidariedade dos nossos liberalizadores. A categoria de
“humilhada” só se concede a uma pessoa que seja chamada a
prestar contas em tribunal, desde que os actos pelos quais esta
responde não constituem crime. E para se acreditar que a
prática de aborto não é crime recomenda-se uma
condição prévia: negar a humanidade do feto. A
revolta contra o julgamento das mulheres anda estreitamente associada
com todos os argumentos que possam pôr em dúvida a
existência de um ser humano na vida anterior ao parto. Estas
são as clausulas ocultas do contrato que se pretende
apresentar ao eleitorado: votando ostensivamente contra a
“humilhação das mulheres”, o eleitor fica
comprometido com uma mensagem de negação da vida.
A
campanha “contra a humilhação” das mulheres
representa, pois, a submissão das ideologias às
técnicas de comunicação, das convicções
aos resultados práticos. Atitude prudente de quem já
percorreu estes caminhos referendários, torna-se compreensível
quando temos em conta que os veteranos da liberalização
do aborto experimentaram em tempos, sem grande sucesso, a via da
sinceridade. Centrando-se no essencial da questão, em
campanhas anteriores, disseram com franqueza que no seu entender um
feto não era um ser humano e por conseguinte não devia
estar protegido pelo aparelho jurídico que defende a nossa
espécie. Reflectindo, posteriormente, sobre a resistência
que a sua mensagem encontrou, perceberam que numa batalha pela imagem
não se ganham pontos negando a humanidade de pequenos seres
cujos movimentos podem ser observados por qualquer leigo na matéria.
Optaram, então, por esta campanha, tentando diabolizar os
defensores do “não” e vestir-lhes uma pele de carrascos,
antes que eles possam abrir a boca.
Assim
se vão perdendo, à medida que se aproxima a data do
referendo, as oportunidades para discutirmos o que verdadeiramente
divide os adeptos do “não” e os do “sim”. |