Ano I - Nº 4, Dezembro de 2006
Alameda Digital
Na Defesa da Vida
A Fé no Aborto

por Jorge Azevedo Correia

Nos últimos tempos fez-se um consenso sobre o Aborto. “Ninguém é a favor do Aborto” dizem-nos, como se a sanção para fazer algo ao abrigo da lei não fosse um pacto real com a prática. Sacode-se a água do capote e nada mais se tem para discutir, fazendo-se passar o “slogan” por acto de humanitarismo.

O que ninguém explica, nem parece querer explicar, é o porquê de tantos pruridos. Se o Aborto é uma acção moral e boa, por que razão tanta gente fala dele como um mal necessário? Para quê esta tendência emocional para um acto que nada tem de mal?

Para compreendermos esta posição temos de analisar uma “falta de comparência” fundamental. A forma como todas as reflexões e pensamento sobre o que constitui uma Vida Humana estão ausentes é pouco surpreendente. Ao invés de encontrarmos duas propostas de sociedade, uma que defende a constituição de um Ser Humano após a concepção e outra que se demite de o fazer, deixando ao critério de cada um julgar quando começa a vida humana, ou mesmo agir (abortar) sem reflectir sobre qualquer um dos fundamentais problemas morais que a questão impõe.

Basta relembrar alguns episódios da História para ficarmos esclarecidos sobre o que pode acontecer a uma sociedade onde a concepção de Humanidade é deixada ao critério de cada um e independente de concepções imemoriais de Justiça. Seja na Vendeia, onde a os afogamentos colectivos eram considerados pelo revolucionário Marquês de Sade um acto de limpeza de uma parte de sociedade infra-humana (os católicos) que não se subordinava às leis do Progresso Humano, quer na União Soviética onde os “Inimigos do Povo” se opunham ao desenrolar do devir histórico, quer no totalitarismo do Reich, onde havia uma massa da população que, por mera pertença a uma etnia, não era susceptível de quaisquer direitos e que por isso era exterminada e cobaia de algumas das mais abjectas experiências médicas.

Imagine-se uma sociedade onde uma definição de Vida não se encontra, pelo menos, intuída na Lei, sendo deixada ao critério de cada um. Tal sociedade não terá forma de evitar que o indivíduo comece a desumanizar os outros no sentido de cumprir os seus desejos. A criança no ventre torna-se um empecilho (faz a mãe engordar, p.ex.) deixa de ser considerada um Ser Humano. O vizinho do lado, que tem um tio judeu, não vende as terras, passa a ser infra-humano... Em breve nos encontramos numa “guerra de todos contra todos” e a abandonar a essência do político, a vida segundo normatividade comunitária.

O argumento “pro choice”, que resulta no que expus anteriormente, é sem dúvida o argumento mais perigoso nesta problemática do Aborto, porque ao acenar com a beleza da Liberdade conduz invariavelmente ao maior despotismo de todos, a existência de áreas de arbitrariedade individual onde elas prejudicam terceiros.

Um Nazi não deixa de ser homicida por achar que um judeu não é humano! Considerar isso é dar vários passos no sentido do suicídio.

A abordagem cientificista da Vida é fácil de rebater (mas nem por isso menos abjecta), tanto pela sua incompletude como pela sua história. Sabemos pelo senso-comum e pela teoria de Popper que todo o conhecimento científico é incapaz de provar alguma coisa, uma vez que é por natureza provisório. A sua história patenteia precisamente esse elemento efémero, pois praticamente toda a ciência desde os alvores da sua fundação moderna já foi refutada.

E o que dizer da ciência racial e antropométrica de Gobineau, H.S. Chamberlain e de Rosenberg?

Quando ouvimos alguém dizer que a Vida começa na formação de este ou aquele elemento do corpo humano, basta relembrar que há dez anos se achava o contrário, há vinte o oposto e há trinta algo diametralmente oposto das duas posições posteriores. Que boas razões teremos para considerar que esta não sofrerá alterações?

E falta saber quem se responsabiliza pelos homicídios no caso de haver uma alteração científica que determine que a vida começa na concepção.

Não serão poucos os que dirão que a ciência nunca poderá encontrar-se em tal estado...

Mas não são esses os que consideram que a ciência está cativa e pré-formatada pelos desejos e ideologias?

Esses já decidiram há muito, antes de toda a ciência, a sua posição.

 
   
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