A Fé no Aborto
por Jorge Azevedo Correia
Nos últimos
tempos fez-se um consenso sobre o Aborto. “Ninguém é
a favor do Aborto” dizem-nos, como se a sanção para
fazer algo ao abrigo da lei não fosse um pacto real com a
prática. Sacode-se a água do capote e nada mais se tem
para discutir, fazendo-se passar o “slogan” por acto de
humanitarismo.
O que ninguém
explica, nem parece querer explicar, é o porquê de
tantos pruridos. Se o Aborto é uma acção moral e
boa, por que razão tanta gente fala dele como um mal
necessário? Para quê esta tendência emocional para
um acto que nada tem de mal?
Para compreendermos
esta posição temos de analisar uma “falta de
comparência” fundamental. A forma como todas as reflexões
e pensamento sobre o que constitui uma Vida Humana estão
ausentes é pouco surpreendente. Ao invés de
encontrarmos duas propostas de sociedade, uma que defende a
constituição de um Ser Humano após a concepção
e outra que se demite de o fazer, deixando ao critério de cada
um julgar quando começa a vida humana, ou mesmo agir (abortar)
sem reflectir sobre qualquer um dos fundamentais problemas morais que
a questão impõe.
Basta relembrar alguns
episódios da História para ficarmos esclarecidos sobre
o que pode acontecer a uma sociedade onde a concepção
de Humanidade é deixada ao critério de cada um e
independente de concepções imemoriais de Justiça.
Seja na Vendeia, onde a os afogamentos colectivos eram considerados
pelo revolucionário Marquês de Sade um acto de limpeza
de uma parte de sociedade infra-humana (os católicos) que não
se subordinava às leis do Progresso Humano, quer na União
Soviética onde os “Inimigos do Povo” se opunham ao
desenrolar do devir histórico, quer no totalitarismo do Reich,
onde havia uma massa da população que, por mera
pertença a uma etnia, não era susceptível de
quaisquer direitos e que por isso era exterminada e cobaia de algumas
das mais abjectas experiências médicas.
Imagine-se uma
sociedade onde uma definição de Vida não se
encontra, pelo menos, intuída na Lei, sendo deixada ao
critério de cada um. Tal sociedade não terá
forma de evitar que o indivíduo comece a desumanizar os outros
no sentido de cumprir os seus desejos. A criança no ventre
torna-se um empecilho (faz a mãe engordar, p.ex.) deixa de ser
considerada um Ser Humano. O vizinho do lado, que tem um tio judeu,
não vende as terras, passa a ser infra-humano... Em breve nos
encontramos numa “guerra de todos contra todos” e a abandonar a
essência do político, a vida segundo normatividade
comunitária.
O argumento “pro
choice”, que resulta no que expus anteriormente, é sem
dúvida o argumento mais perigoso nesta problemática do
Aborto, porque ao acenar com a beleza da Liberdade conduz
invariavelmente ao maior despotismo de todos, a existência de
áreas de arbitrariedade individual onde elas prejudicam
terceiros.
Um Nazi não
deixa de ser homicida por achar que um judeu não é
humano! Considerar isso é dar vários passos no sentido
do suicídio.
A abordagem
cientificista da Vida é fácil de rebater (mas nem por
isso menos abjecta), tanto pela sua incompletude como pela sua
história. Sabemos pelo senso-comum e pela teoria de Popper que
todo o conhecimento científico é incapaz de provar
alguma coisa, uma vez que é por natureza provisório. A
sua história patenteia precisamente esse elemento efémero,
pois praticamente toda a ciência desde os alvores da sua
fundação moderna já foi refutada.
E o que dizer da
ciência racial e antropométrica de Gobineau, H.S.
Chamberlain e de Rosenberg?
Quando ouvimos alguém
dizer que a Vida começa na formação de este ou
aquele elemento do corpo humano, basta relembrar que há dez
anos se achava o contrário, há vinte o oposto e há
trinta algo diametralmente oposto das duas posições
posteriores. Que boas razões teremos para considerar que esta
não sofrerá alterações?
E falta saber quem se
responsabiliza pelos homicídios no caso de haver uma alteração
científica que determine que a vida começa na
concepção.
Não serão
poucos os que dirão que a ciência nunca poderá
encontrar-se em tal estado...
Mas não são
esses os que consideram que a ciência está cativa e
pré-formatada pelos desejos e ideologias?
Esses já
decidiram há muito, antes de toda a ciência, a sua
posição. |