CRÓNICAS DE UM LUSITANO INTERIOR NA ÁLBION
O Um livro por Abrir
por Rafael Castela Santos
Comprei
recentemente um livro sobre Murillo, o grande pintor da Santíssima
Virgem Maria. Está ali, por abrir. Olha-me a partir da
prateleira ao mesmo tempo que da minha cama eu o contemplo enquanto
escrevo no meu portátil. Em boa verdade ainda não tive
muito tempo para o apreciar. Quando o comprei sabia já que era
um bom livro. Um grande amigo e excelente bibliófilo em quem
deposito toda a confiança, tinha-mo recomendado. Desde que ali
o coloquei tenho reparado na sua sobrecapa branca em papel couché.
Na lombada, as letras do título são delicadas. Segundo
me asseguraram, o texto sobre Murillo é excelente. Analisa
mesmo a época em que este viveu tanto do ponto de vista
histórico como do das ideias. Ainda não o li mas sei
que é assim. A qualidade das litografias é
impressionante. Da minha cama não as posso ver, mas já
sei que me vou deliciar a apreciá-las assim que puder. Até
sei que tem datas cronológicas e inclusive diagramas de alguns
dos seus quadros, com a explicação de certas técnicas
pictóricas. Também daqui os não posso ver mas
positivamente sei que estão ali. Não deixa de ser um
livro pelo facto de eu ainda o não ter aberto, por não
estar neste momento nas minhas mãos, pelo facto de ainda não
o ter lido. É e será sempre um livro. Inclusive, um
excelente livro a partir do momento em que o seu autor o concebeu. Um
grande livro. Mesmo que ainda não esteja aberto.
Um
homem e uma mulher fizeram amor. Um óvulo recebeu um
espermatozóide entre milhões, apenas um. E pelo milagre
da fecundação essas duas células transformam-se
num ser humano. Porque no momento em que essas duas células
(óvulo e espermatozóide), cada uma com 23 cromossomas,
se unem e se transformam numa única célula de 46
cromossomas, existe já um ser humano. Com a sua estatura, a
cor do seu cabelo e dos seus olhos. Mesmo que ainda se não
veja. A sua vulnerabilidade a certas doenças. Mesmo que ainda
as não tenha sofrido. O seu coeficiente intelectual. Mesmo que
ainda não saiba uma só palavra. O seu metabolismo e a
totalidade da sua bioquímica. Embora dependa ainda e
completamente do metabolismo da sua mãe. Inclusive, uma
percentagem significativa da sua personalidade está codificada
nesses genes. Mesmo que não tenha dito sequer uma única
palavra. Nesse livro por abrir do ADN reconhecem-se todos estes dados
e instruções. E muitos milhões mais. Estão
aí todas as características de um novo ser humano.
Todas estão aí, mesmo que ainda não tenham sido
"lidas".
Ao
contrário do meu livro por abrir do qual existem algumas
centenas ou milhares de cópias idênticas, esta nova
pessoa (literalmente recém concebida) é única.
Não há nem haverá outra como ela em toda a
história da humanidade, por mais que esta se prolongue.
Se
aceitamos que o meu livro por abrir é um livro,
como é que
alguns se negam a reconhecer que esse novo ser humano é um ser
humano pelo simples facto de ainda não ter sido "lido",
de não se ver, de não ter crescido, de não ter
atingido todo o seu potencial - que já se encontra neste óvulo
fecundado - acto, para empregar a terminologia aristotélica?
Será
menos pessoa ou deixa mesmo de o ser por estar ainda fechada, apenas
fechada no ventre de sua mãe? Mas o meu livro não deixa
de ser um livro pelo facto de ainda estar fechado e colocado numa
estante.
Esta
pessoa é uma pessoa desde o exacto momento em que foi
concebida. Nem um segundo antes nem um segundo depois.
E,
graças ao que ficou dito, esta nova pessoa tem liberdade.
Liberdade para escolher. Liberdade para optar pelo bem e pelo mal.
Liberdade para fazer o bem ou para seguir
outro caminho.
Ai
Já me esquecia! Desde o instante da sua concepção
essa pessoa tem uma Alma eterna. Mas essa já é uma
outra história: a história de um livro aberto com as
páginas em branco por escrever.
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