Ano I - Nº 4, Dezembro de 2006
Alameda Digital
Na Defesa da Vida
Utilidade e manipulação do Holocausto

por Abel Morais

O recente encontro sobre o Holocausto promovido em Teerão pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano nada teve a ver com o entendimento da realidade histórica ou o esclarecimento de questões relacionadas com as políticas de perseguição, deportação e extermínio verificadas na Europa entre 1939 e 1945.

O encontro de Teerão deveu-se mais a prioridades políticas internas e regionais do que a qualquer interesse em esclarecer algum aspecto controvertido das perseguições anti-judaicas durante a II Guerra Mundial. O facto de os participantes ocidentais não serem mais do que agitadores marginais, figuras sem credibilidade ou grupos com agendas na franja da irracionalidade política produziu na Europa e nos Estados Unidos a reacção oposta àquela que o regime de Teerão dizia pretender. Ninguém se terá sentido incomodado ou preocupado com a presença de grupos ultra-ortodoxos anti-sionistas lado a lado com um dirigente do Ku Klux Klan ou com professores de reputação duvidosa, enquadrados por personalidades do Norte de África ou islamitas asiáticos, todos em ameno debate com altos funcionários do regime iraniano.

Não é um acontecimento com estas figuras que pode levantar quaisquer dúvidas à legitimidade do Estado de Israel, à dimensão do Holocausto e contribuir para uma redefinição da memória histórica e de alguns aspectos da II Guerra Mundial. Não é um acontecimento desta natureza que demonstra ser impossível na Europa o debate sobre o tema nem será de um evento como o sucedido na capital iraniana que surgirá qualquer contestação séria aos números, processos e objectivos da “solução final”.

O que está hoje em causa quando se fala de Holocausto não é a definição de extermínio, as técnicas empregues, a contabilidade mais ou menos polida do número de vítimas ou a dimensão da culpa de um regime, de uma nação ou de um corpo civilizacional.

O acontecimento de Teerão chamou, sim, a atenção para a contínua instrumentalização do Holocausto. Uma instrumentalização distinta daquela de que se queixa o presidente iraniano, mas na qual ele e o seu regime participam.

Em todo o mundo árabe, o Holocausto sempre foi visto como um pretexto para justificar a criação do Estado de Israel, à custa dos interesses dos palestinianos. Interesses esses que os dirigentes árabes mencionam a cada instante, mas que pouco fazem para a sua efectiva protecção. Esta é uma estratégia de ingerência nas questões palestinianas com mais de meio século, de que são exemplo a indiferença dos Estados árabes antes ainda da proclamação do Estado de Israel, em 1948, ou a manipulação e fraccionamento dos grupos políticos da Palestina, procurando algumas capitais árabes cooptar e instrumentalizar aqueles para garantir os seus interesses específicos. Uma estratégia a que Teerão não é imune e tem prosseguido com êxito ao apoiar o Hamas.

No mundo árabe, a questão israelo-palestiniana é também uma bandeira de mobilização das populações. Aqui, o regime – persa e xiita – de Mahmoud Ahmadinejad aprendeu com a História e sabe que somando Estado de Israel mais colonialismo ocidental e imperialismo americano obtém uma soma propagandística de efeito garantido, com a vantagem de enfraquecer regimes e governos que na região estão conotados com um excessivo alinhamento ocidental. Criar problemas internos a esses regimes e na região é uma forma de o Irão reforçar o seu estatuto de potência regional e os laços com as comunidades xiitas nesses Estados. E quanto mais enfraquecer estes Estados, mais relevante se tornará o papel do Irão como interlocutor internacional. Observem-se os acontecimentos no Iraque, Líbano e Palestina como exemplos óbvios.

Há também uma dimensão interna a não descurar. Como as eleições de 15 de Dezembro tornaram claro, existe uma luta pelo poder envolvendo diferentes facções, das quais a representada pelo presidente Ahmadinejad foi das mais penalizadas na votação. Eleito com um programa populista e anti-elite do regime, o presidente tem falhado a maioria dos seus objectivos internos que contemplavam a melhor distribuição da riqueza e a redução das disparidades sociais. Este é, pelo menos, o balanço feito por bom número de analistas árabes e iranianos. Os insucessos internos podem explicar o interesse de Ahmadinejad por iniciativas que o mostrem a desafiar as grandes potências, como a reunião sobre o Holocausto, ou, num plano com toda uma outra série de implicações e de interesses em jogo, as questões relativas ao programa nuclear do Irão, em que boa parte das decisões são tomadas em outras instâncias ou em concertação com o presidente, sendo este apenas o porta-voz daquelas.

Mas a instrumentalização do Holocausto não é um processo exclusivo do Médio Oriente. Na Europa e nos Estados Unidos transformou-se numa arma política e cultural de duplo gume.

A política de perseguição, detenção e genocídio prosseguida na Europa pelo III Reich foi transformada num conceito que se sobrepõe às restantes realidades repressivas. A experiência trágica da detenção num campo de concentração alemão durante a II Guerra Mundial é apresentada como a etapa última da barbárie, de uma regressão civilizacional, ignorando-se em muitos sectores, ou reduzindo a sua dimensão trágica e desumana, as realidades de detenção no Gulag soviético, no Laogai da China de Mao e nos campos da morte dos Khmers Vermelhos.

O campo de concentração do III Reich é um produto da História e da sociedade europeias, inscreve-se numa genealogia e matriz civilizacionais, enquanto as restantes experiências concentracionárias originadas em regimes totalitários surgem descritas, em boa parte da literatura sobre a época e esses regimes, como uma perversão ou desvio, não como o desenvolvimento natural que foram. O campo de concentração nazi é genético, resulta da lógica do regime; os restantes são malformações dos regimes que lhes deram origem ou, num exercício de cinismo, uma trágica necessidade para enquadramento dos “desajustados sociais” ou um instrumento de garantia da sobrevivência do regime.

Com esta prestidigitação conceptual, o Holocausto transforma-se num elemento de contaminação da cultura e da História europeias e – ao referir-se um grupo específico como mártir único ou alvo prioritário de uma estratégia de extermínio – esquece-se ou minimizam-se as restantes comunidades étnicas e as diferentes famílias de resistência política e confessional que encontraram a morte nas prisões e campos do III Reich. Nestes morreram cidadãos de muitos dos países ocupados e as políticas de extermínio abrangeram também membros das etnias eslavas e cigana, por exemplo.

Apesar da identidade de natureza entre regimes, dissociam-se as práticas e consequências num processo de contestação aos fundamentos civilizacionais da Europa. O momento histórico do III Reich integrar-se-ia numa genealogia de intolerância de que as Cruzadas, de uma forma, ou a Inquisição e os conflitos político-religiosos surgidos da Reforma e Contra-Reforma, de outra maneira, seriam exemplos.

Com um tal passado, o modelo e as práticas civilizacionais da Europa são definidos como contaminados pela violência e intolerância, de que só conseguirão libertar-se negando os seus fundamentos e a sua experiência histórica. Daqui a estabelecer um nexo causal entre violência, intolerância e religião vai um pequeno passo que nada custa efectuar. Mas o que se esquece é que qualquer das utopias totalitárias que geraram soluções concentracionárias como instrumentos de acção política, cada uma delas reivindica uma origem não religiosa, de facto anti-religiosa e ateísta.

O Holocausto serve ainda, no plano lógico, de argumento de crítica e instrumento de ataque ao Estado de Israel por aqueles mesmos que o utilizam, na Europa, para criticar os fundamentos do Velho Continente.

Recorrendo à experiência histórica da repressão do III Reich, traça-se um paralelo entre a actuação do governo e forças de segurança israelitas sobre as populações e militantes palestinianos e as práticas repressivas das forças alemãs na II Guerra Mundial. Também aqui se manipula o conceito de culpa e responsabilidade. A actuação do Estado de Israel passa a ser medida em função dos exemplos extraídos da II Guerra Mundial, uma tarefa facilitada pela disparidade de meios que serve o exército israelita e as suas actuações desproporcionadas num ambiente em que bombistas-suicidas e o envolvimento de menores em confrontos violentos vem confundir as regras e a delimitação de um conflito político-militar.

Nesta versão, o exército israelita é transformado numa máquina de ocupação e os seus responsáveis políticos procuram também uma “solução final” para as populações palestinianas, a quem negam todos os direitos e forçam a viver numa sociedade refém da assimetria de recursos, desprovida de autonomia e sob contínua vigilância. Os palestinianos estariam a ser vítimas de políticas de segregação e discriminação, sendo caracterizados em alguns sectores israelitas com recurso a categorias inerentes às políticas de demonização do adversário, antecâmara lógica dos processos de genocídio. Nesta interpretação, a realidade do Holocausto vivida na Europa pelas populações judaicas reproduz-se hoje no Médio Oriente, tendo como alvo os palestinianos refugiados nos seus “guetos” da Cisjordânia e Faixa de Gaza.

O símbolo poderoso que foi o Holocausto está a esvaziar-se de significado real. A distância temporal, as diferentes interpretações e sua manipulação no âmbito de agendas políticas contraditórias, além da insistência de sectores judaicos numa versão simplificada de certos factos têm contribuído para esbater as fronteiras históricas e a dimensão real dos acontecimentos vividos pelos judeus sob o III Reich. Em todo este processo, os verdadeiros derrotados são, de novo, as vítimas de um momento de barbárie que a Europa não soube evitar, em nome das quais todos falam e muitos manipulam a memória em proveito de projectos políticos próprios.

 
   
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