Utilidade
e manipulação do Holocausto
por Abel
Morais
O
recente encontro sobre o Holocausto promovido em Teerão pelo
Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano nada teve
a ver com o entendimento da realidade histórica ou o
esclarecimento de questões relacionadas com as políticas
de perseguição, deportação e extermínio
verificadas na Europa entre 1939 e 1945.
O
encontro de Teerão deveu-se mais a prioridades políticas
internas e regionais do que a qualquer interesse em esclarecer algum
aspecto controvertido das perseguições anti-judaicas
durante a II Guerra Mundial. O facto de os participantes ocidentais
não serem mais do que agitadores marginais, figuras sem
credibilidade ou grupos com agendas na franja da irracionalidade
política produziu na Europa e nos Estados Unidos a reacção
oposta àquela que o regime de Teerão dizia pretender.
Ninguém se terá sentido incomodado ou preocupado com a
presença de grupos ultra-ortodoxos anti-sionistas lado a lado
com um dirigente do Ku Klux Klan ou com professores de reputação
duvidosa, enquadrados por personalidades do Norte de África ou
islamitas asiáticos, todos em ameno debate com altos
funcionários do regime iraniano.
Não
é um acontecimento com estas figuras que pode levantar
quaisquer dúvidas à legitimidade do Estado de Israel, à
dimensão do Holocausto e contribuir para uma redefinição
da memória histórica e de alguns aspectos da II Guerra
Mundial. Não é um acontecimento desta natureza que
demonstra ser impossível na Europa o debate sobre o tema nem
será de um evento como o sucedido na capital iraniana que
surgirá qualquer contestação séria aos
números, processos e objectivos da “solução
final”.
O
que está hoje em causa quando se fala de Holocausto não
é a definição de extermínio, as técnicas
empregues, a contabilidade mais ou menos polida do número de
vítimas ou a dimensão da culpa de um regime, de uma
nação ou de um corpo civilizacional.
O
acontecimento de Teerão chamou, sim, a atenção
para a contínua instrumentalização do
Holocausto. Uma instrumentalização distinta daquela de
que se queixa o presidente iraniano, mas na qual ele e o seu regime
participam.
Em
todo o mundo árabe, o Holocausto sempre foi visto como um
pretexto para justificar a criação do Estado de Israel,
à custa dos interesses dos palestinianos. Interesses esses que
os dirigentes árabes mencionam a cada instante, mas que pouco
fazem para a sua efectiva protecção. Esta é uma
estratégia de ingerência nas questões
palestinianas com mais de meio século, de que são
exemplo a indiferença dos Estados árabes antes ainda da
proclamação do Estado de Israel, em 1948, ou a
manipulação e fraccionamento dos grupos políticos
da Palestina, procurando algumas capitais árabes cooptar e
instrumentalizar aqueles para garantir os seus interesses
específicos. Uma estratégia a que Teerão não
é imune e tem prosseguido com êxito ao apoiar o Hamas.
No
mundo árabe, a questão israelo-palestiniana é
também uma bandeira de mobilização das
populações. Aqui, o regime – persa e xiita – de
Mahmoud Ahmadinejad aprendeu com a História e sabe que somando
Estado de Israel mais colonialismo ocidental e imperialismo americano
obtém uma soma propagandística de efeito garantido, com
a vantagem de enfraquecer regimes e governos que na região
estão conotados com um excessivo alinhamento ocidental. Criar
problemas internos a esses regimes e na região é uma
forma de o Irão reforçar o seu estatuto de potência
regional e os laços com as comunidades xiitas nesses Estados.
E quanto mais enfraquecer estes Estados, mais relevante se tornará
o papel do Irão como interlocutor internacional. Observem-se
os acontecimentos no Iraque, Líbano e Palestina como exemplos
óbvios.
Há
também uma dimensão interna a não descurar. Como
as eleições de 15 de Dezembro tornaram claro, existe
uma luta pelo poder envolvendo diferentes facções, das
quais a representada pelo presidente Ahmadinejad foi das mais
penalizadas na votação. Eleito com um programa
populista e anti-elite do regime, o presidente tem falhado a maioria
dos seus objectivos internos que contemplavam a melhor distribuição
da riqueza e a redução das disparidades sociais. Este
é, pelo menos, o balanço feito por bom número de
analistas árabes e iranianos. Os insucessos internos podem
explicar o interesse de Ahmadinejad por iniciativas que o mostrem a
desafiar as grandes potências, como a reunião sobre o
Holocausto, ou, num plano com toda uma outra série de
implicações e de interesses em jogo, as questões
relativas ao programa nuclear do Irão, em que boa parte das
decisões são tomadas em outras instâncias ou em
concertação com o presidente, sendo este apenas o
porta-voz daquelas.
Mas
a instrumentalização do Holocausto não é
um processo exclusivo do Médio Oriente. Na Europa e nos
Estados Unidos transformou-se numa arma política e cultural de
duplo gume.
A
política de perseguição, detenção
e genocídio prosseguida na Europa pelo III Reich foi
transformada num conceito que se sobrepõe às restantes
realidades repressivas. A experiência trágica da
detenção num campo de concentração alemão
durante a II Guerra Mundial é apresentada como a etapa última
da barbárie, de uma regressão civilizacional,
ignorando-se em muitos sectores, ou reduzindo a sua dimensão
trágica e desumana, as realidades de detenção no
Gulag soviético, no Laogai da China de Mao e nos campos da
morte dos Khmers Vermelhos.
O
campo de concentração do III Reich é um produto
da História e da sociedade europeias, inscreve-se numa
genealogia e matriz civilizacionais, enquanto as restantes
experiências concentracionárias originadas em regimes
totalitários surgem descritas, em boa parte da literatura
sobre a época e esses regimes, como uma perversão ou
desvio, não como o desenvolvimento natural que foram. O campo
de concentração nazi é genético, resulta
da lógica do regime; os restantes são malformações
dos regimes que lhes deram origem ou, num exercício de
cinismo, uma trágica necessidade para enquadramento dos
“desajustados sociais” ou um instrumento de garantia da
sobrevivência do regime.
Com
esta prestidigitação conceptual, o Holocausto
transforma-se num elemento de contaminação da cultura e
da História europeias e – ao referir-se um grupo específico
como mártir único ou alvo prioritário de uma
estratégia de extermínio – esquece-se ou minimizam-se
as restantes comunidades étnicas e as diferentes famílias
de resistência política e confessional que encontraram a
morte nas prisões e campos do III Reich. Nestes morreram
cidadãos de muitos dos países ocupados e as políticas
de extermínio abrangeram também membros das etnias
eslavas e cigana, por exemplo.
Apesar
da identidade de natureza entre regimes, dissociam-se as práticas
e consequências num processo de contestação aos
fundamentos civilizacionais da Europa. O momento histórico do
III Reich integrar-se-ia numa genealogia de intolerância de que
as Cruzadas, de uma forma, ou a Inquisição e os
conflitos político-religiosos surgidos da Reforma e
Contra-Reforma, de outra maneira, seriam exemplos.
Com
um tal passado, o modelo e as práticas civilizacionais da
Europa são definidos como contaminados pela violência e
intolerância, de que só conseguirão libertar-se
negando os seus fundamentos e a sua experiência histórica.
Daqui a estabelecer um nexo causal entre violência,
intolerância e religião vai um pequeno passo que nada
custa efectuar. Mas o que se esquece é que qualquer das
utopias totalitárias que geraram soluções
concentracionárias como instrumentos de acção
política, cada uma delas reivindica uma origem não
religiosa, de facto anti-religiosa e ateísta.
O
Holocausto serve ainda, no plano lógico, de argumento de
crítica e instrumento de ataque ao Estado de Israel por
aqueles mesmos que o utilizam, na Europa, para criticar os
fundamentos do Velho Continente.
Recorrendo
à experiência histórica da repressão do
III Reich, traça-se um paralelo entre a actuação
do governo e forças de segurança israelitas sobre as
populações e militantes palestinianos e as práticas
repressivas das forças alemãs na II Guerra Mundial.
Também aqui se manipula o conceito de culpa e
responsabilidade. A actuação do Estado de Israel
passa a ser medida em função dos exemplos extraídos
da II Guerra Mundial, uma tarefa facilitada pela disparidade de meios
que serve o exército israelita e as suas actuações
desproporcionadas num ambiente em que bombistas-suicidas e o
envolvimento de menores em confrontos violentos vem confundir as
regras e a delimitação de um conflito político-militar.
Nesta
versão, o exército israelita é transformado numa
máquina de ocupação e os seus responsáveis
políticos procuram também uma “solução
final” para as populações palestinianas, a quem negam
todos os direitos e forçam a viver numa sociedade refém
da assimetria de recursos, desprovida de autonomia e sob contínua
vigilância. Os palestinianos estariam a ser vítimas de
políticas de segregação e discriminação,
sendo caracterizados em alguns sectores israelitas com recurso a
categorias inerentes às políticas de demonização
do adversário, antecâmara lógica dos processos de
genocídio. Nesta interpretação, a realidade do
Holocausto vivida na Europa pelas populações judaicas
reproduz-se hoje no Médio Oriente, tendo como alvo os
palestinianos refugiados nos seus “guetos” da Cisjordânia e
Faixa de Gaza.
O
símbolo poderoso que foi o Holocausto está a
esvaziar-se de significado real. A distância temporal, as
diferentes interpretações e sua manipulação
no âmbito de agendas políticas contraditórias,
além da insistência de sectores judaicos numa versão
simplificada de certos factos têm contribuído para
esbater as fronteiras históricas e a dimensão real dos
acontecimentos vividos pelos judeus sob o III Reich. Em todo este
processo, os verdadeiros derrotados são, de novo, as vítimas
de um momento de barbárie que a Europa não soube
evitar, em nome das quais todos falam e muitos manipulam a memória
em proveito de projectos políticos próprios.
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