VISTO DE MADRID
Notas
soltas (I)
por JLLencastre
Os
jornais diários de expansão nacional foram monocórdicos
na condenação ao regime de Pinochet. Se não são
de estranhar as diatribes e insultos do El País, custa
aceitar que um jornal centenário como ABC tenha seguido
o mesmo rumo e não tenha tido a verticalidade de, com igual
veemência, enaltecer o combate anti socialista que Pinochet
travou no Chile. Ou referido o estado lastimável em que
económica e politicamente se encontrava aquele país sob
o governo de Allende. Que me recorde, só Ignacio Camacho, na
sua crónica diária, fez uma justa apreciação
do regime encabeçado por Pinochet, com as suas vitórias
e imperfeições.
Infelizmente
o referido jornal tem vindo a esmorecer a sua linha editorial e, hoje
em dia, por exemplo, o seu monarquismo limita-se, tão só,
ao relato e respectiva fotografia das inaugurações
feitas pelos membros da Família Real - o que os outros jornais
também fazem - e, por vezes (poucas), a uma La Tercera de doutrina monárquica. E nunca, baixo nenhuma circunstância,
fazem a mais leve crítica que seja a qualquer membro da
Família Real – e alguns deles bem a merecem.
Aqui há
poucos anos a família Luca de Tena, descendente do fundador do
jornal, vendeu grande parte do capital à Vocento, um dos
maiores grupos de comunicação social em Espanha, e o
resultado está à vista.
Escrevia
com piada o Hispanidad que, embora ambas comecem por m, a
Direcção do ABC não deveria confundir
moderação com mediocridade.
Contudo,
manda a verdade que diga, dispõe de uma plêiade de
excelentes colaboradores dos quais destacaria Mingote e Martín
Morales com os seus cartoons, António
Burgos, Juan Manuel de Prada, Jon Juaristi, Germán Yank,
Carlos Herrera, o já referido Ignacio Camacho bem como Arturo
Peréz-Reverte, ao Domingo, na revista que sai com o jornal.
Acresce
que tem um aspecto gráfico agradável e à 5ª
feira vem com o semanário católico Alfa y Ómega.
E, quando
se referem a Portugal ou a autores portugueses o que acontece com
frequência, fazem-no sempre com urbanidade. Por exemplo, no seu
último suplemento literário – ABCD Las Artes y las
Letras – vem crítica a um livro de Quadras de Fernando
Pessoa. (*)
Em
resumo: apesar de uma linha editorial centrista (até quando?)
o ABC continua a ser o jornal de referência da direita
conservadora.
O fim do
ano está aí a chegar e talvez alguns de vós
decidam passá-lo em Madrid. Ou, vir um pouco mais tarde, para
aproveitar as rebajas de Janeiro. Em qualquer dos casos é
quase obrigatório, pelo menos uma vez, salir de tapas.
Aqui
ficam algumas sugestões de locais que conheço, todos
situados no Barrio de Salamanca, zona de compras por
excelência, onde se encontram estabelecidas desde as marcas
mais conceituadas até outras mais de bairro, com preços
bastante acessíveis, e também, como não podia
deixar de ser, o incontornável El Corte inglês.
O Jurucha (Ayala, 19) é um bar castiço que só serve
(excelentes) tapas, com um comprido balcão de zinco, sem mesas
nem bancos para nos sentarmos.
No mesmo
género, mas com mesas e restaurante basco no 1º andar
temos o Pimiento Verde (Lagasca, 46).
Um pouco
mais “fino” e com uma frequência mais jovem a Lateral (Velázquez, 57). Para os apreciadores do gin tónico
é só atravessarem a rua onde se encontra o Bar
Ruleta.
No género
chique a valer a charcutaria Mallorca (esquina da Velázquez
com a Dom Ramón de la Cruz) é uma referência
indispensável. Tem umas tapas e umas mini sanduíches
estupendas.
Porém,
quem preferir um bom naco de carne argentina, nada como dirigir-se à Casa Julian (Dom Ramón de la Cruz, 10) ou ao L’Entrecote (Cláudio Coello, 41 ou 70).
Se,
todavia, nenhuma destas sugestões lhe agrada, e o que busca
mesmo é uma marisqueira, sugiro a La Trainera (Lagasca,
60).
Na minha
última crónica escrevia que o actual Governo tinha
empreendido uma guerra contra as empresas de fast food que
anunciavam hambúrgueres e similares tamanho XL. O que
efectivamente se está a passar é que o Ministério
da Saúde elaborou um plano para melhorar os hábitos
alimentares da população em geral, e dos adolescentes
em particular, ao qual aderiram numerosas empresas de restauração
(supõe-se que de livre vontade) comprometendo-se a não
anunciar produtos considerados prejudiciais para a obesidade. Ora,
uma das subscritoras do acordo, não o está a cumprir e
anuncia os tais hambúrgueres XL, para cúmulo com
anúncios de muito mau gosto. Trata-se, portanto, de uma
questão de honradez e não de falta de liberdade.
Desejo-vos
a todos um Santo Natal e um próspero Ano de 2007.
___________________
(*) Cantares (Quadras)
Fernando Pessoa
Edición Bilingüe
Versão de Jesús
Munárriz
Hiperión,
Madrid, 2006
233 Páginas, 12
euros |