NOVA FRENTE
Um "Marco Importante"
por BOS
Correram mais de quatro mil anos desde os primeiros registos escritos da «lei de Talião», que consagrava o “olho por olho, dente por dente”. Desde aí as penas foram-se amoldando às feições da moda: esmagamento dos ossos, ferro em brasa, apedrejamento, crucificação, afogamento, esquartejamento, morte pelo garrote. Durante séculos, em defesa da inocência do réu, só o instituto dos ordálios, que de tão popular nos deixou em herança a locução: «pôr as mãos no fogo». A feitiçaria, por exemplo, garantia aos praticantes a morte na fogueira. Ainda vinha longe o tempo em que as bruxas podiam apresentar programas na televisão pública.
No meio desta mortandade, uma das poucas honras que podemos citar: a abolição da pena de morte entre nós há quase 150 anos. O mesmo dizer não podem certos regimes de hoje: a China, os Estados Unidos, o Iraque, o Afeganistão, o Paquistão e a Indonésia, entre outras democracias superiores.
Para o inquilino da Casa Branca, que no governo do Texas despachou a sentença de morte de 200 compatriotas, o enforcamento de Saddam vale por uma ida à Disneylândia. É assim o disléxico de Washington. Nem misericórdia, nem dignidade, nem remorsos. A sua mão, onde quer que pouse, põe nódoas de sangue. Se esta besta é o líder do mundo livre e civilizado, eu sou Faraó do Egipto.
Ao sexto ano da sua omnipotência, mandou o porta-voz papaguear que o acto sempre bárbaro do enforcamento constituía um "marco importante". Está habituado a mandar matar. A intensidade do seu gozo é decerto maior que a intensidade da agonia dos seus mortos. Mata por desporto. Tem esse vício e quase pode dizer de si como o feroz ditador romano: «Quando eu não tiver homens que esmagar, está concluída a minha missão».
Talvez caminhemos, como ensinava Spengler, para o inevitável ocaso da cultura ocidental. Como esta já atingiu a sua fase de civilização, isto é, de plena maturidade, iniciará a decadência que precede a morte. Assim, não sei de que modo posso desejar aos meus leitores um feliz ano de 2007. Aguentem-se como puderem. A gente mata-se por aí. |