Ano I - Nº 4, Dezembro de 2006
Alameda Digital
Na Defesa da Vida

NOVA FRENTE
Um "Marco Importante"

por BOS

Correram mais de quatro mil anos desde os primeiros registos escritos da «lei de Talião», que consagrava o “olho por olho, dente por dente”. Desde aí as penas foram-se amoldando às feições da moda: esmagamento dos ossos, ferro em brasa, apedrejamento, crucificação, afogamento, esquartejamento, morte pelo garrote. Durante séculos, em defesa da inocência do réu, só o instituto dos ordálios, que de tão popular nos deixou em herança a locução: «pôr as mãos no fogo». A feitiçaria, por exemplo, garantia aos praticantes a morte na fogueira. Ainda vinha longe o tempo em que as bruxas podiam apresentar programas na televisão pública.

No meio desta mortandade, uma das poucas honras que podemos citar: a abolição da pena de morte entre nós há quase 150 anos. O mesmo dizer não podem certos regimes de hoje: a China, os Estados Unidos, o Iraque, o Afeganistão, o Paquistão e a Indonésia, entre outras democracias superiores.

Para o inquilino da Casa Branca, que no governo do Texas despachou a sentença de morte de 200 compatriotas, o enforcamento de Saddam vale por uma ida à Disneylândia. É assim o disléxico de Washington. Nem misericórdia, nem dignidade, nem remorsos. A sua mão, onde quer que pouse, põe nódoas de sangue. Se esta besta é o líder do mundo livre e civilizado, eu sou Faraó do Egipto.

Ao sexto ano da sua omnipotência, mandou o porta-voz papaguear que o acto sempre bárbaro do enforcamento constituía um "marco importante". Está habituado a mandar matar. A intensidade do seu gozo é decerto maior que a intensidade da agonia dos seus mortos. Mata por desporto. Tem esse vício e quase pode dizer de si como o feroz ditador romano: «Quando eu não tiver homens que esmagar, está concluída a minha missão».

Talvez caminhemos, como ensinava Spengler, para o inevitável ocaso da cultura ocidental. Como esta já atingiu a sua fase de civilização, isto é, de plena maturidade, iniciará a decadência que precede a morte. Assim, não sei de que modo posso desejar aos meus leitores um feliz ano de 2007. Aguentem-se como puderem. A gente mata-se por aí.

 
   
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