Lá,
onde a vida se joga…
por Rui Corrêa de Oliveira *
É
lá, onde a vida se joga que nós estamos. Diante da
Irene que nos apareceu de cara assustada, tremendo de medo, confusa,
baralhada, desesperada… Tinha sabido que estava grávida
outra vez, havia uma semana. O companheiro perdeu a cabeça e
insultou-a, acusando-a de ser a culpada por não ter tomado a
pílula. A solução era só uma: «abortar
e pronto! É pegar ou largar: ou despachas isso ou vai à
tua vida, que eu não estou para aturar desleixadas».
«Não, abortar, não! Mas sozinha que hei-de
fazer?» À Mãe a quem recorreu, encontrou
bêbeda, meio adormecida sobre a mesa da cozinha, que é
sala e que é quarto, naquele barraco húmido com vista
para a pista da Portela. Passou os dias com a angústia da hora
da chegada a casa do companheiro. Passou as noites encolhida a um
canto da cama com medo que ele lhe tocasse. Sem saber para onde se
virar foi até ao Centro, pedir ajuda à assistente
social. Foi a primeira pessoa que a ouviu, foi o primeiro olhar que a
olhou como gente, foi a primeira vez, desde o começo do
pesadelo, que alguém parou diante dela para pensar na sua vida
e na sua condição. Foi então que ouviu falar de
nós. Talvez a pudéssemos ajudar…
Foi a
tremer que nos ligou pelo número grátis. Marcou lá
ir no dia seguinte… e ali estava ela, sempre a tremer. O primeiro
quarto de hora foi feito de silêncio e monossílabos,
incapaz de alinhavar uma frase. A custo foi acalmando… a pouco e
pouco descreveu a sua história e a sua situação.
Já não regressou a casa. Nesse dia foi na nossa Casa de
Acolhimento que pela primeira vez conseguiu dormir de um sono só.
Depois, foi o lento reconstruir de uma personalidade desmantelada.
Exames médicos, acompanhamento psicológico e companhia
humana. Enquanto avançava a sua gravidez foi percebendo que
havia vida para além do horizonte de fome e violência a
que estava habituada. Seis meses depois nascia o Daniel! Um ano
depois aprendera as “artes da casa”, sabia cozinhar e passar a
ferro e já era capaz de ajudar no cabeleireiro onde arranjara
emprego. Entrou de “porteira” num prédio das avenidas
novas, tinha um quarto para si e para o Daniel, cozinha e
casa-de-banho. Renascera para a vida e para o mundo, um mundo novo e
diferente onde a vida é possível, com dignidade e
futuro. Um dia, o Daniel haveria de ser homem, aquele mesmo que
esteve para acabar numa hemorragia provocada. A história desta
Irene é uma história feita de mil histórias
verdadeiras, mil vidas reais, mil dramas autênticos.
É
aqui, onde a vida se joga, paredes-meias com a morte, que nós
estamos, porque acreditamos que a vida é possível se
nos deixarem ajudar as “Irenes” desta cidade com quem nos
cruzamos sempre distraídos e sempre apressados.
É
o que fazemos em cada dia, todos os dias, se nos ajudarem a ajudar.
* Ponto
Apoio à Vida – Associação de Solidariedade
Social
Centro de
Atendimento e Casa de Acolhimento para grávidas em risco |