Patuleia
por Mário Casa Nova Martins
A Revolução da Maria da Fonte foi uma
revolução em que as Mulheres tiveram um papel
fundamental no decorrer da acção; os Miguelistas viram
a sua crença ressuscitar, na esperança de um novo
sebastianismo libertador; os Cartistas livraram-se do ditador; os
Setembristas readquiriram forças para regressarem ao poder. O
Povo, esse continuou desiludido com o Liberalismo, que apenas
favorecia a classe nova a que ele dera origem, os “barões”
da alta burguesia (1).
Finda a Revolução da Maria da Fonte, em
Maio de 1846, foi necessário a formação de três
Ministérios sob a presidência do Duque de Palmela, tendo
em vista um Governo de concórdia. O último tinha Luís
Mouzinho de Albuquerque com a pasta do Reino, o Marquês do
Lavradio com o Ministério dos Estrangeiros, o Conselheiro
Joaquim Filipe de Soure na Justiça, José Jorge Loureiro
com a Marinha, o Duque de Saldanha no Ministério da Guerra,
acumulando o Duque de Palmela a Fazenda com a Presidência (2).
De entre as principais medidas que de imediato foram tomadas há
a realçar a abolição dos execráveis
impostos e leis de saúde decretadas pelos anteriores Governos
de Costa Cabral, e, pelo decreto de 27 de Julho, a convocação
de eleições directas para o efeito de reunião de
Cortes extraordinárias munidas de poderes constituintes (3).
Entretanto, e a muito contragosto da Rainha D. Maria II, António
Bernardo da Costa Cabral e José Bernardo da Silva Costa Cabral
estavam exilados em Espanha, desde o fim da Maria da Fonte.
Procurando continuar a seguir uma política de conciliação
e apaziguamento institucional, o Duque de Palmela vai remodelar o
Governo em 18 de Julho, fazendo entrar os setembristas Sá da
Bandeira para a Guerra e saindo Saldanha, Luís Mouzinho de
Albuquerque passa para a Marinha e Júlio da Silva Sanches vai
para a Fazenda, acumulando Palmela a Presidência e o Reino,
ficando Lavradio com os Estrangeiros e Aguiar com a Justiça
(4). Esta atitude desagrada quer ao Marechal Saldanha, sempre cioso
da sua importância pessoal, quer aos adeptos cabralistas, e
consequentemente à Rainha que propunha o fortalecimento do
poder régio como solução para a crise política
(5).
É dentro desta conjuntura que se dá o
importante episódio da Emboscada, na noite de 6 de Outubro. As
medidas políticas do Governo do Duque de Palmela, contrárias
às implementadas pelo Conde de Tomar, António da Costa
Cabral, iam no sentido da promulgação de uma nova lei
eleitoral e a realização de eleições em
meados de Outubro. A campanha eleitoral em curso tem períodos
algo conturbados, nomeadamente quando a Associação
Eleitoral de Lisboa advoga medidas consignadas na abolida
Constituição de 1838. O Miguelismo, que continua
presente nos espíritos do Povo, faz com que o Paço tema
ainda maiores convulsões. Então, de acordo com um plano
traçado pelo rei-consorte, D. Fernando, e pelo seu perceptor,
o alemão Dietz, e segundo a estratégia do
fortalecimento do poder real, a Rainha D. Maria II temendo reacções
populares vai para o Palácio de Belém, a onde chama o
Duque de Palmela. Perante a Rainha, o Marechal Saldanha, o confessor
Padre Marcos, de Dietz e de oficiais superiores, é imposto a
Palmela a assinatura de um decreto segundo o qual o Governo se
demitiria. Assinado este, é de seguida nomeado novo Gabinete
presidido pelo Duque de Saldanha, que acumula a pasta da Guerra.
Findo este acto, e pretendendo mostrar a autoridade, reposta, da
Rainha, o Marechal Saldanha sai do Paço à frente das
tropas a caminho de Lisboa (6).
Figura central na Guerra Civil, o Duque de Saldanha
estava havia tempo fora do país. Entre 1841 e 1845 foi o
representante de Portugal em Viena de Áustria, e no período
da Revolução da Maria da Fonte encontrava-se em
Bruxelas. Aparentemente longe dos problemas que consumiam o país,
era como que uma reserva institucional para o maus tempos que se
avizinhavam. A sua correspondência desta época mostra
que de todos os quadrantes da vida política de então
lhe era pedido que viesse salvar ao país, que viesse defender
o Trono e a Rainha. É dentro desta ambiente que o Marechal
Saldanha regressa a Portugal a 23 de Julho de 1846, tendo os Cabrais
já partido no mês anterior para Madrid e estando o Duque
de Palmela à frente de um Governo sem nexo composto de uma
amálgama de homens de várias «parcialidades»
apenas unidos pela comum aversão ao cabralismo (7). A Rainha
confia politicamente no Duque e os cabralistas viam nele um natural
aliado. Saldanha apresentava todas as qualidades para ser a
personalidade que certeiramente fizesse frente aos extremismos dos
setembristas, que tinham ganho enorme preponderância política
depois da terceira remodelação governamental. Soldado
desde os catorze anos, foi general aos vinte e sete. Esteve presente
nos principais conflitos da época como nas guerras
napoleónicas, guerras no Brasil, guerras liberais e em
pronunciamentos militares ao longo do primeiro e segundo liberalismo.
Militar excepcional, foi um político medíocre. As suas
flutuações políticas marcaram negativamente o
seu percurso ao serviço do bem público. Homem sem
ideias, os partidos e os programas são para as ocasiões,
dizia, seu desempenho durante o processo revolucionário da
Patuleia é terrivelmente exemplificativo do seu carácter
egocêntrico (8).
António Bernardo da Costa Cabral era
politicamente originário da extrema-esquerda do setembrismo e
foi evoluindo para o centro, isto é para o cartismo (9).
Ministro da Justiça em 1839, com a derrota do setembrismo é
nomeado ministro do Reino em 1842, tendo permanecido no poder até
1846, quando, no seguimento dos acontecimentos relacionados com a
Revolução da Maria da Fonte, é obrigado a
exilar-se em Espanha. É um dos políticos mais
importantes da história do século XIX português.
A sua obra política ainda hoje é vivamente discutida.
Porém, o aspecto mais relevante da sua governação
foi no campo sociológico. De facto, a média e pequena
burguesia industrial que fora o sustentáculo da experiência
democrática setembrista, foi suplantada pela nova aristocracia
liberal dos barões e dos viscondes, de cariz fundiária,
comercial e financeira, que prosperara a partir da compra dos bens
nacionais, provenientes da extinção das ordens
religiosas (10). A sua forte personalidade conquistou-lhe inúmeros
inimigos, mas contou sempre com o apoio da Rainha. De Madrid comandou
todos os seus peões durante a Patuleia e foi um dos seus
principais vencedores, se bem efemeramente, uma vez que com o
movimento da Regeneração em 1851, liderado pelo
Marechal Saldanha, foi definitivamente afastado da ribalta política.
José Bernardo da Silva Costa Cabral, irmão
mais velho de António Bernardo da Costa Cabral, era o
principal colaborador deste último. Acompanhou a ascensão
e queda política do irmão. Quando da Revolução
da Maria da Fonte foi nomeado lugar-tenente da Rainha e encarregado
de sufocar a revolta no norte. A dureza da sua actuação
acerbou ainda mais os ânimos contra os Cabrais e acelerou a
queda do irmão. E foi esta a única atitude pública
notória ao longo do consulado cabralista.
A seguir à Emboscada a Rainha envia para o Porto
o Duque da Terceira como seu lugar-tenente, com a finalidade de
explicar as razões da substituição do Governo do
Duque de Palmela pelo liderado pelo Duque de Saldanha. Mal conhecido
no Porto o processo político que levou a esta substituição,
o seu conhecimento originou que a reacção a estes
episódios passados em Lisboa fosse violenta. E José
Passos, Presidente da Câmara do Porto, vai encabeçar
esse descontentamento popular. Alegando falta de segurança na
cidade aconselha o Duque da Terceira a reembarcar para Lisboa. Não
o conseguindo leva-o, juntamente com o seu séquito para o
Castelo de São João da Foz, onde ficarão até
terminar a guerra civil, não propriamente como reféns,
mas aparentando-o. Em seguida José Passos reúne os
principais vultos setembristas da cidade que em conjunto decidem
nomear uma Junta Provisória do Governo Supremo do Reino,
presidida pelo General Francisco Xavier da Silva Pereira, Conde das
Antas, tendo como vice-presidente José Passos, e como vogais
Francisco de Paula Lobo de Ávila, Sebastião de Almeida
e Brito, o Conde de Resende Justino Ferreira Pinto Basto, o Barão
de Lordelo António Luís de Seabra e António Dias
de Oliveira. Estes três últimos, posteriormente,
recusaram-se a tomar posse.
Uma das primeiras iniciativas tomadas foi enviar uma
comissão a Lisboa encarregue de protestar todo o apoio da
Junta à Coroa e à Rainha. Esta diligência
baseava-se no presuposto de que a Rainha tinha sido coagida pelos
sectores cabralistas a demitir o Governo, e que era preciso apoiar a
Soberana naquele momento tão difícil para o país.
Foi esta análise um equívoco que, desde o princípio,
comprometeu a causa da Revolução e a votou ao
insucesso, apesar de vitoriosa (11). Outras medidas de carácter
político, económico e financeiro foram levadas a cabo
pela Junta, tais como a divulgação de um manifesto
dirigido aos Governos europeus explicando as razões do
movimento, ou a gestão dos rendimentos da Alfândega do
Porto, a sua principal fonte de rendimento, ou ainda a publicação
de decretos visando a continuidade da circulação
fiduciária na zona geográfica que controlava.
Entretanto, iam sendo constituídas outras Juntas
com os mesmos objectivos um pouco por todo o país, como são
exemplo as do Minho, Trás-os-Montes, Beiras, Alentejo,
Madeira, Ilha de São Miguel e Terceira, nos Açores.
Porém, a resposta a todas estas movimentações
políticas por parte do Governo, da Rainha e da Corte foi a
prisão de inúmeras pesssas ligadas à oposição.
Vivia-se já um clima de pré-guerra civil.
O Chefe militar da Junta era o Conde das Antas, e o
Chefe militar do Governo era o Marechal Saldanha. O primeiro começa
por ocupar Santarém a cuja Junta presidia Manuel Passos. Na
resposta do Governo, o Barão de Casal obriga o Marquês
de Sá da Bandeira a retirar-se de Valpaços, e, quinze
dias mais tarde ocupa Valença do Minho. Em Dezembro as tropas
governamentais comandadas pelo Marechal Saldanha infligem uma
estrondosa derrota ao Conde do Bonfim e às forças da
Junta, em Torres Vedras. Esta batalha, a mais violenta da guerra
civil, parecia conduzir a um fim rápido das hostilidades,
porque o corpo principal do exército da Junta estava
praticamente aniquilado e o exército do Governo fácil e
rapidamente poderia chegar ao Porto. Inexplicavelmente, para a Rainha
e para os cabralistas, o Marechal Saldanha não se decide a
atacar o Porto, ficando-se por Oliveira de Azemeis. Era o militar que
estava a dar lugar ao político. O Duque de Saldanha sempre
entendera que seria muito impopular o regresso de Costa Cabral.
Sabendo, porém, da sua importância política, ao
tomar posse a seguir ao 6 de Outubro oferece-lhe o cargo de
representante de Portugal em Madrid, que este aceita (12). Ao não
querer atacar militarmente a Junta num momento de fraqueza desta e ao
propor, em Janeiro, um acordo de paz com base na Convenção
de Chaves de 1837 (13), revela o pragmatismo de quem quer ser o fiel
da balança entre os cartistas e os setembristas, isto é,
entre a direita e a esquerda liberais.
Ao impasse militar sucede o impasse político, e é
neste contexto que surge a hipótese de a Guerra Civil ser
resolvida com a intervenção das potências
estrangeiras que tinham protagonizado a Quádrupla Aliança.
É Costa Cabral que primeiro sugere que a Espanha interfira
repondo a legalidade constitucional da Carta. O Duque de Saldanha e a
Rainha não se mostram incomodados com essa perspectiva, e é
o representante da Inglaterra em Portugal, Lorde Palmerston, quem se
vai opor a tal desiderato, argumentando que qualquer intervenção
estrangeira deverá ser feita sempre no âmbito da
Quádrupla Aliança. Lorde Palmerston tinha sido o
principal artífice da Quádrupla Aliança. Sempre
atento e bem informado em relação a Portugal foi a
personalidade estrangeira que mais influência exerceu no país
durante a primeira metade do século XIX (14).
O regente D. Pedro, ex-imperador do Brasil na ânsia
de derrotar o Irmão, D. Miguel I, propõe a Madrid uma
aliança segundo a qual as tropas de Espanha e Portugal
poderiam atravessar a fronteira em caso de perigo para essa aliança.
A perigosidade de tal proposta, se aceite, faz com que quer a
Inglaterra, quer a França levem a efeito um projecto político
que acabe com a guerra nos dois países e que garanta a paz em
toda a Península Ibérica. A essa entente foi
dado o nome de Quádrupla Aliança e era constituída
pela Inglaterra, Portugal, França e Espanha. E, foi no dia 22
de Abril de 1834 que se assinou o tratado segundo a qual as Rainhas
de Portugal, D. Maria II, e de Espanha, D. Isabel II, ambas ainda
menores, e as Coroas de França e de Inglaterra uniam os seus
esforços para pôr termo às hostilidades. Em
linhas gerais, este texto previa a queda de D. Miguel I em Portugal e
D. Carlos em Espanha, o que veio a ser conseguido (15).
A imagem do Rei Proscrito nunca se tinha apagado da
mente do Povo. Se na Revolta da Maria da Fonte ela renasce, agora com
a Patuleia volta a renascer. Qual Fénix, mil vezes sufocado,
mil vezes renascido, o Miguelismo é uma emanação
profunda do pensar e do sentir do Portugal autêntico. Dogmático
quanto ao discurso, assenta no carisma do Rei, o que o torna numa
ideologia e num mito de tipo sebastianista (16). O venerando General
Álvaro Xavier da Fonseca Coutinho e Póvoas, herói
do exército legitimista, dá a sua adesão à
Junta, que o promove a Tenente-General efectivo e comandante militar
das Beiras. Também a ela aderem o Brigadeiro Bernardino Coelho
Soares de Almeida, o Barão de Oleiros e o General MacDonnel,
que virá a ser morto em combate. Todas as proclamações
dos elementos Realistas têm por denominador comum a defesa da
nacionalidade e ao combate à tirania cabralista. Eram os
mesmos temores que uniram Setembristas e Miguelistas na Revolução
de 1846, e que agora se voltavam a repetir. A Rainha e o Governo,
agindo premeditadamente como facção, quiseram encenar
um regresso de D. Miguel como pretexto para justificar a intervenção
estrangeira, que advogavam, no país. Em caso algum a Junta ou
os Legitimistas colocaram a hipótese do regresso do Rei do
exílio.
Enquanto os políticos discutiam a força do
Miguelismo, a guerra ia tendo mais alguns episódios. O
Marechal Saldanha continuava em Oliveira de Azemeis, escrevendo
petições de todos os géneros ao Governo. O
Minho, controlado por forças da Junta com o apoio do General
MacDonnel, é invadido pelo Barão do Casal, que, após
um combate sangrento em que é morto o velho General, ocupa
Braga, chacinando mais de duzentas pessoas (17). O Vice-Almirante
Soares Franco desembarca no Minho e recupera grande parte das praças
do litoral. Em resposta, o Visconde de Sá da Bandeira vai
desembarcar no Algarve, atravessa o Alentejo, onde o General
Celestino derrotara as forças da Rainha comandadas por
Schwalbach, indo colocar-se nas imediações da foz do
Sado. O combate travado entre o General Vinhais e as tropas da Junta,
comandadas pelo Conde de Melo, junto a Setúbal, salda-se num
impasse militar, levando a um armistício proposto pelo inglês
Coronel Wylde. A partir desta altura, numa fase militarmente pouco
favorável ao Governo, começa a intervenção
estrangeira ao lado da Rainha e as tropas da Junta têm que
recuar e aceitar as condições que essas potências
as obrigam a aceitar (18).
A imprensa, e principalmente a que estava com os
revoltosos, foi um dos elementos mais importantes no desenrolar dos
acontecimentos. A existência de jornais, folhetos e outros
tipos de impressos clandestinos caracterizaram sempre os momentos de
maior confrontação política. A crítica
satírica e mordaz acompanhou os liberalismos, sendo sempre a
arma mais certeira na chicalha política em que muitas das
vezes se transformaram os debates nas Câmaras. Nos períodos
revolucionários as facções utilizaram
abundantemente a palavra escrita, tentado pô-la ao seu serviço.
Na Patuleia o jornal clandestino mais importante foi «O
Espectro», publicado por António Rodrigues Sampaio, o
folheto «O Estado da Questão», do mesmo autor.
Esta folha chegou a ser distribuída nos gabinetes ministeriais
e no Paço, sem que alguma vez a Polícia descobrisse
onde era produzida ou quem a distribuía. E o Governo e a
Rainha eram, logicamente os continuamente visados, mas os interesses
estrangeiros que conduziam a guerra não eram esquecidos (19).
O papel desempenhado pela Inglaterra e pela França
no apoio ao liberalismo peninsular foi determinante para que ele se
consolidasse. Foi essa a razão da existência da
Quádrupla Aliança. Nos acontecimentos relacionados com
a Patuleia, a França nunca se mostrou muito interessada com o
que se passava em Portugal, tendo mostrado, inclusive simpatias, pela
causa da Junta, preferindo mais acompanhar o processo político
espanhol. Na Inglaterra, o Governo demonstrava uma certa simpatia
para com a Junta, mas ao pedido de apoio feito pela Rainha D. Maria
II à Rainha Vitória, cujo marido, o Príncipe
Alberto era primo do rei-consorte português, D. Fernando, ambos
da Casa de Coburgo, obrigou a que a política inglesa sofresse
alteração. A Espanha continuava com o problema da
consolidação no Trono da Rainha D. Isabel II, uma vez
que o fenómeno do Carlismo continua latente e a qualquer
momento poderia implodir (20). Embora sem quaisquer dados concretos
em relação ao ressurgimento do Miguelismo e do
Carlismo, as Rainhas ibéricas ameaçavam com essa
hipótese, querendo com esta estratégia que as outras
potências signatárias da Quádrupla Aliança
interviessem em Portugal contra a Junta. Conseguidos estes
propósitos, Lorde Palmerston encarregou o Coronel Wylde de ir
ao Porto obter a anuência às condições
propostas pelo protocolo que tinha sido assinado em Londres entre os
representantes de Portugal, Espanha, França e Inglaterra.
O documento que contem as propostas de mediação
apresentadas pela Inglaterra assenta em quatro pontos: Primeiro,
concessão de uma amnistia plena e geral sem excepções
para ninguém; Segundo, revogação de todos os
decretos anticonstitucionais publicados desde 6 de Outubro; Terceiro,
realização de eleições indirectas e
reunião de Cortes ordinárias; Quarto, nomeação
de um Governo neutro, isto é, formado por indivíduos
independentes quer do partido da Junta, quer do Cabralista (21).
Wylde acompanhado do delegado do Governo de Madrid, o Brigadeiro
Marquês de Espanha, expôs os termos do protocolo aos
delegados nomeados pela Junta, que vêm a ser recusados. As
consequências desta decisão da Junta não se
fizeram esperar. Pretendendo vir para o sul, o Conde das Antas tenta
sair da barra do Douro e os quatro navios que transportavam as tropas
são apressados pela esquadra inglesa e feitos todos
prisioneiros. E a Junta é obrigada a aceitar o armistício.
A sul, o visconde da Sá da Bandeira é informado de que
a Junta aceitara a mediação inglesa e entrega-se. O
General espanhol Manuel de la Concha atravessa a fronteira em
Trás-os-Montes e vai ocupar militarmente o Porto, enquanto as
guarnições dos navios ingleses desembarcam em S. João
da Foz (22).
A Junta compreendeu, então, que não tinha
outro caminho senão capitular. Era agora necessário
terminar o conflito com uma negociação honrosa. Para
tal a Junta nomeia seus representantes plenipotenciários o
Marquês de Loulé e o General António César
Teixeira de Vasconcelos, enquanto que pelas potências
estrangeiras estão o General Concha, o General Buenaga e o
Coronel Wylde. O encontro dá-se em Gramido, sendo aí
redigida a Convenção que ficou conhecida pelo nome do
lugar. A Convenção de Gramido é constituída
por oito artigos: Os quatro do protocolo de Londres e, ainda, que o
Porto, Gaia e todos os fortes e redutos das duas margens do rio
seriam ocupadas por tropas espanholas e o Castelo da Foz pelas
inglesas, que as tropas espanholas receberiam a rendição
das tropas da Junta, que se concederia passaportes para todos os que
quisessem sair do país, e que as potências empregariam
todos os esforços para melhorar as condições dos
soldados realistas que combatiam nas fileiras da Junta (23). Assinado
este documento, a Junta dissolve-se a 30 de Junho, terminando
oficialmente a Guerra Civil de 1846/1847, ou da Patuleia.
Como muitas vezes acontece em política, os
protocolos, os tratados, as minutas, os documentos assinados não
são cumpridos. A pretexto de que os representantes
estrangeiros haviam exorbitado as suas competências, uma vez
que sendo militares assinaram compromissos políticos, e que,
também, tinha estado ausente a França, o texto da
Convenção de Gramido deveria reduzir-se apenas à
afirmação de que a única base em que deveria
aceitar-se a mediação seria a amnistia plena e inteira
de Sua Majestade Fidelíssima. É claro que o Governo
português, triunfante, não respeitou a Convenção
(24). As prisões, os espancamentos, os assassínios e as
perseguições rapidamente começaram. Os
principais dirigentes da Junta tiveram que sair do país,
Saldanha não conseguiu impedir o regresso de Costa Cabral, e o
Povo ficou pior, se possível, do que estava antes do 6 de
Outubro de 1846.
_________________________
(1)
Martins, Mário Casa Nova - Navio Farol, nº. 13, pg. 22
(2)
Martins, Oliveira - Portugal Contemporâneo, vol II, pg. 358
(3)
Serrão, Joaquim Veríssimo - História de
Portugal, vol. VIII, pg. 110
(4)
Martins, Oliveira - ibid., pg. 358
(5)
Bonifácio, Maria de Fátima - História da Guerra
Civil da Patuleia 1846-47, pg. 22
(6)
Dória, António Álvaro - Dicionário de
História de Portugal, vol. II, pg. 362
(7)
Bonifácio, Maria de Fátima - ibid., pg. 26
(8)
Carvalho, Alberto Martins de - Dicionário de História
de Portugal, vol V, pg. 425
(9)
Martins, Mário Casa Nova - ibid., pg. 22
(10)
Valente, Vasco Pulido - Os Devoristas, pg. 61
(11)
Dória, António Álvaro - Dicionário de
História de Portugal, vol. V, pg. 17
(12)
Bonifácio, Maria de Fátima - ibid., pg.38
(13)
Bonifácio, Maria de Fátima - ibid., pg. 68
(14)
Leitão, Ruben Andresen - Dicionário de História
de Portugal, vol IV, pg. 540
(15)
Serrão, Joaquim Veríssimo - ibid., pg. 52
(16)
Silva, Armando Barreiros Malheiro da - Miguelismo Ideologia e mito,
pg. 253
(17)
Dória, António Álvaro - ibid, vol V, pg. 17
(18)
Selvagem, Carlos - Portugal Militar, pg. 576
(19)
Dória, António Álvaro Dória - vol V, pg.
17
(20)
Comellas, Jose Maria - Historia Breve de España Contemporanea,
pg.77
(21)
Bonifácio, Maria de Fátima - ibid., pg. 88
(22)
Selvagem, Carlos - ibid., pg. 576
(23)
Dória, António Álvaro - ibid., vol V, pg. 19
(24)
Dória, António Álvaro - Dicionário de
História de Portugal, vol. III, pg. 145 |