Síndrome Pós Aborto
por Maria
José Vilaça
Quando
se fala de Síndrome Pós Aborto não chega
explicar apenas os seus principais sintomas e manifestações,
e por isso tentarei também esclarecer a razão pela qual
o aborto voluntário provoca este tipo de perturbação.
Ou seja, se há um trauma, é importante perceber porquê.
Uma das formas de tornar claro todo o processo é através
do recurso a exemplos e por essa razão inclui-se também
uma secção com testemunhos retirados de casos
verídicos.
Síndrome
Pós Aborto: reacção a um evento traumático
Síndrome
Pós Aborto é o nome clínico dada a uma
perturbação emocional e psicológica sentida por
algumas mulheres na sequência de aborto voluntário. A
prevalência desta perturbação nos Estados Unidos
é de cerca de 19%, embora haja indícios de poder ser
muito maior. Sempre foram referidos os efeitos psicológicos do
aborto, mas só recentemente é que se começou a
identificar o Síndrome Pós Aborto com a Perturbação
Pós Stress Traumático relatada pelos veteranos do
Vietnam e que apresenta uma taxa de prevalência de cerca de
15%1.
Em Portugal esta perturbação também foi
identificada nos veteranos da Guerra Colonial e tem sido amplamente
estudada.
Um
acontecimento traumático é algo que abala todas as
nossas crenças relativamente à segurança e
confiança. Porque são tão inimagináveis,
estes acontecimentos provocam reacções que parecem
estranhas e sem sentido. No entanto é importante saber que,
por estranhas que pareçam, essas reacções são
normais e esperadas. São respostas normais a acontecimentos
anormais.
Uma
pessoa que sofre de PPST experimentou, observou ou foi confrontada
com um acontecimento que envolveu ameaça de morte, morte real
ou ferimento grave ou ameaça à integridade física
do próprio ou de outros. A resposta da pessoa envolve medo
intenso, sentimento de desamparo, horror - a sensação
de estar preso num beco sem saída, sentir-se armadilhado ou
traído, sensação de perda de controlo.
Para
saber quais as carcterísticas da Perturbação de
Pós Stress Traumático carregue aqui.
O
Síndrome Pós Aborto apresenta na generalidade os mesmos
sintomas da PPST embora com características específicas
relacionadas com o evento traumático, desencadeante, que é
o aborto.
Os
sintomas que melhor caracterizam o Síndrome Pós Aborto
são a negação e a supressão. Trata-se de
mecanismos de defesa que geralmente cumprem a sua função
de proteger a pessoa de emoções intoleráveis
durante alguns anos. Mais tarde ou mais cedo muitas pessoas não
conseguem continuar a lidar com a situação e tornam-se
cada vez mais emocionalmente perturbadas.
A
negação e a supressão são centrais no
processo, tal como o recurso a comportamentos de evitamento. A culpa
é uma constante, geralmente acompanhada de vergonha, baixa
auto-estima e depressão. Insónia, tristeza e desespero,
reacções nos aniversários, sonhos, pesadelos,
revivências, são algumas das situações que
podem fazer parte do Síndrome Pós Aborto. A mulher pode
considerar o suicídio e frequentemente torna-se sexualmente
disfuncional, por vezes incapaz de manter relações
estáveis e muitas vezes dependente de substâncias
químicas.
Para
conhecer a listagem exaustiva dos sintomas de SPA ver janela
Sindrome Pós Aborto.
Podem
decorrer vários anos até que a perda do filho devida ao
aborto possa ser sentida da mesma forma que uma perda de qualquer
outro membro da família. Para que isso aconteça, a
investigação até à data aponta para a
necessidade de a) assumir a sua responsabilidade na morte do filho,
b) ter oportunidade de fazer o luto, c) procurar e aceitar o perdão,
e d) perdoar-se a si própria. Nos estudos feitos até
agora nos Estados Unidos, é significativo que 80% das mulheres
com SPA não professam nenhuma religião e a maioria
conhece mal o desenvolvimento fetal na altura do aborto. O que é
no entanto mais interessante é que a cura hfoi possível
em parte devido à experiência do perdão divino.
Este
facto já nos dá algumas pistas sobre a questão
que abordamos de seguida e que é a seguinte: Porque é
que o aborto é um trauma?
Porque
é que o aborto é um trauma?
Fisicamente,
no seu corpo, na sua diferenciação sexual, a pessoa
humana tem estampado o sentido da sua existência: um ser criado
para o dom de si e para a construção de comunhão.
O aborto lesa esta vocação relacional que na mulher se
manifesta com maior evidência na sua capacidade de ser mãe,
co-geradora de vida. Por isso não hesitamos em dizer que o
aborto fere a mulher naquilo que é o mais profundo da sua
essência: a sua sexualidade e a sua identidade maternal e vai
contra a percepção interior, consciente ou não,
do que é certo e errado, do bem e do mal.
O
Dr.Julius Fogel, Obstetra e Psiquiatra que realizou cerca de 20.000
abortos, citado por Theresa Burke (2002), afirma:
“ Qualquer
mulher – independentemente da sua idade, do seu passado ou da sua
vida sexual – fica traumatizada por destruir a gravidez. A sua
humanidade é tocada. É uma parte de si própria.
Quando destrói a gravidez, ela destrói uma parte de si.
Não há hipótese de isto ser inócuo.
Estamos a lidar com a vida. Não interessa nada se acreditamos
ou não que há vida no embrião ou no feto. Não
podemos negar que algo está a ser criado e que esta criação
está a acontecer fisicamente... Frequentemente o trauma pode
afogar-se no inconsciente e nunca chegar a aparecer. Mas não
se trata de um acontecimento tão indiferente ou inócuo
como alguns querem fazer parecer. Há um preço
psicológico a pagar. Pode ser a alienação, pode
ser o afastamento do calor humano, talvez um endurecimento do
instinto maternal. Algo acontece ao mais profundo nível da
consciência da mulher, quando ela faz um aborto. Eu digo isto
enquanto Psiquiatra.” 2
Quando
uma gravidez ocorre, da mesma forma que o corpo da mulher se prepara
para a acolher, todo o seu ser, incluindo a dimensão
psicológica e espiritual, também se prepara para o
mesmo. Podemos dizer que a função de protecção
da mãe em relação ao filho começa a
desenvolver-se ainda antes de ela ter consciência da gravidez.
Durante todo o período da gravidez é possível e
normal que haja sentimentos ambivalentes sobre a gravidez, sobre a
expectativa de um novo filho, sobre a capacidade de ser mãe,
etc. Muitas transformações têm lugar e muitas
preocupações começam a surgir. Mas tudo isto faz
parte do processo que conduz a uma forte vinculação
indispensável para o acolhimento da nova vida.
Durante
a gravidez a mulher sente inevitavelmente que algo se está a
passar que vai muito para além do seu controlo. Algo lhe está
a ser dado. Esta é talvez a altura em que a percepção
da vida como dom se torna mais real. Por isso é que ao
rejeitar a vida, escolhendo abortar, a mulher acaba por só se
sentir reconciliada quando consegue acolher o perdão de quem
lhe tinha feito o dom.
O
aborto é uma experiência de morte. É a morte do
potencial humano, da relação, da responsabilidade, do
instinto maternal, da esperança. A palavra alemã
“hoffen”, que significa esperar, encerra a ideia da espera feliz
de um acontecimento ou da chegada de alguém por quem se
anseia. É por isso que se diz que uma mulher grávida
está “de esperanças”. Há uma ligação
entre a nova vida que está a crescer e a esperança.
Para o filósofo existencialista francês Gabriel Marcel
não existe esperança sem comunidade e sem amor: “Eu
espero” tem sempre como base um “eu espero por ti” e no fundo,
um “eu espero por ti, para nós” 3.
Deste
modo, a percepção de ter contribuído
voluntariamente para esta situação, mesmo estando
sujeita a pressões e mesmo sem conhecimento das consequências,
explica que esta experiência dramática de morte, envolva
um forte sentimento de culpa.
Por
outro lado o aborto envolve, de facto, a perda de um filho e um luto
muito difícil de fazer, tanto mais quanto a dor psicológica
e espiritual por ele causada tem sido silenciada pela sociedade,
ignorada pelos meios de comunicação, rejeitada pelos
profissionais de saúde e desprezada pelos que dizem defender
os direitos das mulheres. A mulher que abortou tem dificuldade em
entender a sua própria tristeza, a sua perda. E isto é
agravado pelo facto de ninguém lhe reconhecer o direito a essa
dor. Uma vez que foi um acto voluntário que a provocou, é
paradoxal que cause tanta dor. E a solidão em que a vive torna
mais necessários os sintomas de negação de que
já falámos. No entanto, é absolutamente
indispensável fazer este luto como parte do caminho de cura.
Discussão
Científica sobre o Síndrome Pós Aborto
Muitas
vezes ouvimos os defensores da legalização do aborto
dizerem que a razão porque as mulheres sentem culpa é
porque a Igreja lhes mete essa culpa na cabeça! Numa
conferência sobre este tema, o Pe.Frank Pavone, dos Priests for
Life 4,
citou o testemunho de uma mulher ateia que dizia estar convencida
disso e que, não sendo religiosa estava segura de que nunca se
iria sentir culpada. A oposição ao aborto era apenas
uma questão religiosa. Desde que se afastasse dos pró-vida,
nunca sentiria remorsos. Mas sentiu. E sofreu fortemente com o
Síndrome Pós Aborto. Porque, na realidade, a culpa
deriva do entendimento básico de que o seu bebé morreu,
da dor associada a essa percepção e da noção
da sua responsabilidade nesse processo.
No
Japão, onde o aborto é legal e aceite desde há
cerca de 40 anos, é comum a organização de
rituais de despedida e reconciliação para ajudar as
mulheres a lidar com o luto e a culpa em casos de aborto e
infanticídio.
Também
é importante referir que os sintomas de Síndrome Pós
Aborto podem ocorrer num prazo dilatado. Há casos em que
aparecem logo depois do aborto e outros em que aparecem só 40
ou mais anos depois. Devido ao desejo de negar a existência
desta perturbação, muitas vezes atribui-se aos sintomas
outra origem e o reconhecimento da sua associação com o
aborto é atrasado ou até mesmo negado.
Numa
primeira fase, o recurso ao aborto pode ter como consequência
um sentimento de alívio, justificado pela enorme ansiedade que
antecede a decisão de o fazer. É verdade que quando a
mulher vê a gravidez como um problema dramático, julga
encontrar no aborto a solução para ele. De facto com o
aborto a gravidez deixa de ser o problema. O que acontece é
que geralmente não é informada sobre o problema que vem
depois: o problema do aborto, o problema da culpa e da
irreversibilidade do acto.
Este
sentimento de alívio é temporário e geralmente
transforma-se numa ausência de emoções a respeito
do tema, uma espécie de “paralisia emocional” que pode
durar mesmo até 8 semanas depois do aborto. E durante este
tempo, as mulheres apenas relatam o alívio que sentiram.
Passadas estas 8 semanas já é possível começarem
a relatar outro tipo de sentimentos.
Nos
Estados Unidos, os dados da investigação indicam que 5
anos depois do aborto 25% das mulheres consultam regularmente o
psiquiatra, e apontam para que 19% das mulheres sofrem de SPA. Mas a
verdade é que o número de mulheres que se recusa a
falar sobre o assunto, mesmo num país onde o aborto é
totalmente liberalizado, é mais ou menos igual. Podemos
pressupor que as pessoas se recusam a falar dos seus abortos por
estarem afectadas pelo SPA, e nesse caso temos cerca de 38% de
pessoas afectadas por esta perturbação (Theresa Burke,
2002). Efectivamente é um tema muito difícil de
investigar e que nem pelo facto de ser legal torna a investigação
mais fácil.
Do
ponto de vista da investigação, é importante
referir que os estudos que não revelam a existência de
SPA sofrem de dois problemas: o primeiro é que os dados são
recolhidos imediatamente a seguir ao aborto, ainda na fase do alívio,
ou pelo menos na fase em que a culpa e o luto ainda são
negados e os sinais de sofrimento são atribuídos a
várias outras causas. Os sintomas de SPA aparecem com mais
frequência a partir de 5 anos depois do aborto. Outra razão
é a superficialidade da investigação. Os
mecanismos de repressão e negação estão
muito profundamente enraizados no inconsciente. Um simples
questionário ou entrevista podem não ser o suficiente
para se perceber a extensão do problema ou mesmo para o
detectar. Por vezes só uma avaliação psicológica
cuidada ou uma psicoterapia podem fazer vir ao de cima os sintomas e
associá-los ao aborto que a mulher tenta desesperadamente
esquecer. A este propósito importa referir um estudo feito no
Canada com um grupo de mulheres que tinha previamente respondido a um
questionário no qual negavam a existência de problemas
devidos ao aborto. Metade destas mulheres foi aleatoriamente
escolhida para entrar num programa de psicoterapia. O que resultou da
psicoterapia foi completamente contrastante com o resultado dos
questionários, mesmo tendo as mulheres considerado
racionalmente que o aborto era inevitável e a única
escolha possível. Foi demonstrado que a decisão
consciente e racional de abortar pode coexistir com um forte
sentimento de rejeição a respeito do acto em si, ao
nível mais profundo. Apesar das aparências, o aborto
deixa marcas profundas “invariavelmente de intensa dor, envolvendo
um luto e uma sensação de identificação
com o feto”. 5
Apesar
de todos os dados que a investigação tem trazido a lume
a verdade é que na comunidade científica ainda não
é consensual a extensão da Perturbação de
Pós Stress Traumático ao aborto, em grande parte por
razões políticas. Há quem defenda que o SPA não
existe, ou eventualmente, só existe em dois casos:
a)
Mulheres com anterior doença mental
As
mulheres com perturbações ao nível da saúde
mental são mais vulneráveis e por isso o aborto é
um factor agravante acrescido. Daí que há quem tente
diminuir os efeitos psicológicos do aborto alegando que as
mulheres já estariam perturbadas antes de o fazer.
Mas
é importante perceber que embora a extensão e dimensão
do Síndrome Pós Aborto seja de facto determinada pela
personalidade prévia da pessoa, a verdade é que a sua
causa directa é o aborto. Não se pode culpabilizar as
mulheres que desenvolvem um Síndrome Pós Aborto por
serem fracas ou disfuncionais.
Até
há quem defenda que seria melhor não informar as
mulheres mais vulneráveis sobre as consequências
psicológicas do aborto, para evitar que elas se desmoralizem
ou venham a desenvolver por sugestão os sintomas, o que revela
uma perspectiva redutora da pessoa humana e representa uma grave
privação da liberdade. Este tipo de pensamento,
existente nos países onde o aborto é totalmente livre,
revela que pode ser possível dispensar o consentimento
informado e que a liberalização do aborto, trazendo
associada a pressão económica das clínicas onde
o aborto é feito, pode representar um factor de risco neste
aspecto. Isto é o que se tem constatado em Espanha, e que
chega ao nosso conhecimento tanto através de notícias
locais, como através dos relatos de mulheres portuguesas que
recorreram a clínicas em Espanha: as mulheres queixam-se que
não são alertadas para as consequências
psicopatológicas e psiquiátricas que podem derivar do
aborto
Na
verdade o aparecimento de alguns sintomas de Síndrome Pós
Aborto é um sinal de que a pessoa está a reagir a algo
que foi sentido como uma violência. É portanto uma
reacção normal a um acontecimento anormal,
legitimamente sentido como violento. O primeiro passo decisivo para a
cura está precisamente no reconhecimento da perturbação
e na sua associação com o acontecimento que a
desencadeou, neste caso o aborto.
Aliás
este argumento torna difícil de compreender porque é
que a questão da saúde mental da mulher tem servido
também para justificar a legalização do aborto.
Se uma mulher com doença mental é mais vulnerável
e corre mais risco de vir a desenvolver Síndrome Pós
Aborto, então a doença mental nunca deveria servir para
justificar legalmente o aborto.
No
entanto, o risco de doença mental da mãe decorrente da
gravidez é a razão que justifica a maioria dos abortos
em Portugal 6.
Isto apesar de a própria Ordem dos Médicos 7 já ter esclarecido que o aborto raramente se justifica por
razões psíquicas, (Publico, 15 de Dezembro de 2004).
Foi o então Bastonário da Ordem dos Médicos que
pediu a um grupo de 10 médicos do colégio da
especialidade de Psiquiatria que esclarecesse a aplicação
da lei quanto à questão da saúde psíquica.
A conclusão foi que não há nenhuma situação
em que a gravidez seja causa directa e inequívoca "de
lesão grave e duradoura para a saúde psíquica"
- logo o aborto por razões psíquicas previsto na lei
portuguesa raramente se justifica. Os psiquiatras consideram mesmo
que não é a gravidez que é passível de
causar danos psíquicos; a existirem, estes podem mesmo ser
agravados pela própria interrupção da gravidez,
explicita o bastonário, que afirma identificar-se com o
parecer que é assinado pela presidente do colégio de
psiquiatria, Maria Luísa Figueira. "A interrupção
voluntária da gravidez como forma de preservação
da saúde psíquica não só pode não
garantir a resolução do problema como até
induzi-lo ou agravá-lo", refere o bastonário.
Tendo em conta este pressuposto, qualquer intervenção
que implique risco para a mulher só deve ser considerada
"depois de esgotadas outras intervenções
terapêuticas alternativas e com melhor relação
risco/benefício" na preservação da saúde
psíquica, continua, dando como exemplo a terapia medicamentosa
ou psicoterapeutica.
Também
o Colégio da Especialidade de Psiquiatria do Reino Unido
(Royal College of Psychiatrists) chamou a atenção, já
em 1992, para uma das consequências da liberalização
do aborto nesse país: “Ainda que a maioria dos abortos seja
realizada com base no risco para a saúde mental da mulher, não
há justificação de natureza psiquiátrica
para o aborto. [Pelo contrário], coloca as mulheres em risco
de sofrerem perturbações psiquiátricas, sem
resolver qualquer problema dessa natureza já existente”.
b)
Circunstâncias especialmente complicadas
Este
é outra das situações que é geralmente
alegada para justificar o Síndrome Pós Aborto.
A
investigação mais recente tem demonstrado que a mulher
que escolhe abortar está geralmente sujeita a grandes pressões
que de certo modo a conduzem a uma escolha na verdade não
desejada. Não se pode ignorar o peso das circunstâncias
sociais, o peso do abandono por parte do pai da criança, o
peso da pressão da família ou dos médicos.
Nalguns casos até o peso da violência ou das ameaças
a que está sujeita se não abortar. Nos Estados Unidos
concluiu-se que 80% das mulheres que abortaram, teriam dado à
luz se tivessem sido apoiadas nesse sentido. 8
Portanto
a verdade é que todas as mulheres que recorrem ao aborto estão
numa situação especialmente complicada: um dilema moral
para o qual lhes é apresentada uma racionalização
do tipo escolher entre um mal maior e um mal menor. Nos países
em que o aborto é legal, o dilema é agravado pela
incongruência entre a lei e a moral natural. Muitas mulheres
testemunharam que se não fosse legal nunca lhes teria passado
pela cabeça que pudesse ser uma opção, ou que
pelo facto de ser legal era percepcionado como seguro e sem riscos,
física e psicologicamente, o que não se veio a
verificar.
Portanto
podemos afirmar que as circunstâncias especialmente complicadas
podem ter influência na decisão de abortar mas não
são a razão pela qual as mulheres desenvolvem o
Síndrome Pós Aborto.
É
fundamental referir que estão sujeitos ao Síndrome Pós
Aborto, não só as mulheres que abortaram, mas também
os seus maridos, namorados que não conseguiram impedir o
aborto (muitas vezes nem são tidos em conta na decisão)
ou que não conseguem lidar com as consequências que ele
teve para a mulher e todas as pessoas que, de alguma forma,
participaram no processo. Mães, pais, amigos, os médicos
e as enfermeiras, terapeutas, assistentes sociais, qualquer pessoa
que tenha promovido o aborto ou que não tenha conseguido
evitá-lo pode vir a sofrer desta perturbação.
Exemplos
de Mecanismos de Defesa retirados de testemunhos
Ilustramos
agora os principais mecanismos de defesa com exemplos reais retirados
da prática clínica:
Supressão
de memórias
“Não
me deixei pensar mais no assunto”
Repressão
de memórias
“Não
me consigo lembrar bem da idade que tinha, tenho ideia que era
Outono”
Racionalizações
“Pensei
que havia apenas duas possibilidade: ou deixava crescer o que eu
julgava ser amor entre mim e o meu namorado, ou deixava crescer o que
tinha dentro de mim. Como o amor também é vida escolhi
entre uma vida visivel e uma vida invisível! Este raciocínio
foi partilhado com uma psicoterapeuta que o validou!”
Formações
reactivas
“O
meu desejo de ter aquele filho era enorme. Quando me vi sozinha com a
rejeição do pai, imediatamente me “esqueci”.
Passei-me para o lado dele, julgando ser possível a nossa
relação ter futuro.”
“Senti
necessidade de passar a controlar tudo o que podia na minha vida.
Afastei-me de Deus porque não O podia controlar. Atribuí
a culpa à Igreja que acusei de ser hipócrita por não
aceitar pessoas que sofreram o que eu sofri.”
“Passei
a recusar todo o amor, fosse de quem fosse. Sentia sempre que ficava
presa a uma dívida de gratidão. Foi após muitos
anos de terapia que voltei a aprender a confiar.”
“Tornei-me
defensora do argumento “é com a consciência de cada
um”, evitava discussões sobre o aborto e evitava o contacto
com crianças”
“Lembro-me
de ter recusado ir visitar uma colega de trabalho que tinha tido um
filho, porque sentia que lhe podia transmitir algo de negativo que
sentia ter em mim.”
Substituições
Dediquei-me
ao trabalho voluntário, tão obsessivamente que acabei
por me esgotar. Queria ser perfeita porque sentia que isso me iria
fazer sentir melhor”
Projecções
“Desenvolvi
uma reacção violenta contra todos os que se opõem
ao aborto, imaginando que não sabiam do que estavam a falar.
Era como se só a minha experiência, que eu nunca
partilhara com ninguém, fosse válida. Ninguém
mais podia ter opinião sobre o assunto. Um dia distribuíram
à saída da missa folhetos pró-vida a dizer mal
das mulheres que abortaram. Senti-me violentamente agredida e desde
esse dia estive muitos anos sem voltar à missa.”
Comportamentos
provocativos
“Como
eu não gostava de mim, tentava obrigar os outros a gostar.
Depois do aborto utilizei a sedução e a sexualidade
para me sentir amada. Achava piada a seduzir e fazia-o tão bem
que depois ficava sufocada pela intensidade das reacções
que eu provocava. Cheguei a pensar tornar-me prostituta. Por vezes
sentia-me como se o fosse. Lembro-me de ter escrito num diário
que mantinha “Porque desejar é mau, eu não desejo,
porque tenho medo, eu não me dou, mas preciso ...e
desejo...Será que não consigo viver sem um homem? Será
que vou de novo prostituir-me? Vou “gostar” outra vez em troca de
amor? Vou de novo viver a vida dele? Ser o que ele quer?” Deus
nunca me abandonou e permitiu que encontrasse Nele o tal Amor que eu
procurava.”
Deslocamentos
“Depois
de me ter zangado com o meu namorado, nunca mais voltei a conseguir
acreditar nos homens em geral.”
Conversão
somática ou histérica
“Comecei
a sofrer de dores de cabeça, tonturas, exaustão, fadiga
e enjoos. Percorri vários médicos, convencida de que
tinha algo de muito grave. Só mais tarde percebi que estava à
procura de uma razão para estar triste, para ter medo, para
fazer o luto e para que os outros me dessem atenção.”
Fuga
“Servia-me
do alcoól para esquecer e comecei a usar drogas. Acho que
queria anestesiar as minhas emoções com experiências
novas”
Regressão
“Quando
me sentia invadida por uma tristeza inexplicável, enrolava-me
na posição fetal e deixava-me ficar assim,
baloiçando-me e sentindo-me um bebé abandonado”
Negação
(termo que engloba vários dos mecanismos de defesa já
exemplificados)
“Decidi
que não ia deixar que o aborto me afectasse. Não me
lembro do que fiz, mas devo ter tomado uns calmantes antes de ir para
lá. Estava bem disposta e calma. Muito mais do que quando vou
ao dentista. Não queria dar parte de fraca.”
“Nem
quando, passados anos comecei a ter ataques de pânico,
relacionei as coisas. Tinha horror a perder o controlo. Tinha pavor
de ser anestesiada.”
Sobre
os Mecanismos de Defesa, é importante dizer que são
meios de evitar emoções intoleravelmente dolorosas. No
entanto é importante ter em conta que podem causar mais
problemas do que os que resolvem. De facto eles não resolvem
nada. Apenas mascaram. Assim, é fundamental perceber que:
- Os
mecanismos de defesa consomem uma grande parte da nossa energia
emocional e física. O seu uso prolongado pode enfraquecer o
sistema imunitário e aumentar a vulnerabilidade às
doenças relacionadas com o stress, nomeadamente o cancro e
doenças do foro cardíaco.
- Os
mecanismos de defesa podem alterar a nossa percepção
da realidade. Quando falhamos na compreensão de nós
próprios e dos outros, não conseguimos lidar com os
nossos problemas de forma eficaz.
- Estes
mecanismos de defesa não se limitam a filtrar as emoções
dolorosas. Infelizmente eles inibem todas as emoções.
Quanto mais os utilizamos, mais corremos o risco de perder as
emoções boas que a vida nos pode dar. Se não
aceitamos que o amor implica dor, para não sofrer com a dor,
não temos a alegria do amor.
- Estes
mecanismos de defesa podem, por si só, dar origem a estados
patológicos graves em termos de saúde mental, com
graves consequências a nível social.
- Os
mecanismos de defesa não fazem desaparecer as experiências
negativas e dolorosas. Protegem-nos de emoções
indesejáveis, mas não eliminam memórias
dolorosas. Os problemas ficam escondidos, não resolvidos. Se
negamos a existência das emoções, negamos a
possibilidade da cura.
- Os
mecanismos de defesa não são uma cura – são
formas de atrasar a cura.
Principais
consequências do aborto ao nível físico e
psicológico com implicações sociais.
ASSOCIAÇÕES
Para
terminar queria só referir a importância das
associações. Trata-se de situações que
podem reactivar as memórias do passado. Por vezes a associação
com o acontecimento traumático é muito subtil.
“Quando
o meu cão morreu fiquei tão abalada que tinha ataques
de choro frequentes. O que mais me irritava é que os meus
amigos achavam isso disparatado e aconselhavam-me a comprar outro
cão. Eles não percebiam que eu não sentia falta
do cão... mas sim do meu bebé.”
“Depois
do aborto, tinha dificuldade em ir a sítios onde houvesse
música de fundo. A única memória que tinha do
aborto era a da música de fundo que havía na clínica.
Mais tarde, sempre que ouvia música, tinha suores, taquicardia
e medo. Sentia que algo de terrível ía acontecer”
Mas
as associações podem também ser uma forma pôr
travão aos mecanismos de defesa. Podem fazer parte do processo
de cura, como neste caso:
“Não
me lembro de conscientemente fugir de sítios, situações,
sons, etc. Lembro-me que muitos anos depois do aborto e durante
cerca de 10 anos, sempre que ia à Missa ou que levava os meus
filhos à catequese, tinha de passar “naquela rua”. No
princípio ficava muito perturbada. Só ao fim de algum
tempo consegui verbalizar isso. Era como se eu fosse obrigada a
nunca esquecer. Finalmente aceitei que era a forma como Deus se
fazia lembrar. Sempre que ía ter com Ele ou Lhe levava os
meus filhos, era como se Ele me dissesse “não julgues para
não seres julgada”, “perdoa para seres perdoada”,
“deixa que o Meu amor te cure”. Foi nessa altura que comecei a
perceber que tinha medo de abrir uma ferida antiga que se
transformasse numa caixa de pandora. Algumas vezes tentei mudar de
caminho. Desviei-me por outras ruas, mas senti-me como se estivesse
a fugir duma passagem inevitável na minha vida. Hoje sei que
me sentia com S. Pedro, quando fugia do martírio e encontrou
Jesus que se dirigia para tomar o lugar dele. Pedro perguntou-lhe
“Onde ides Senhor?” e Jesus respondeu-lhe. “Vou para Roma
morrer no teu lugar”. Nesses dias em que deliberadamente fugi do
meu caminho, Jesus ia para lá sofrer o que eu recusara.”
Conclusão
Não
nos parece haver motivo para duvidar da existência do Síndrome
Pós Aborto e muito menos da gravidade dos sintomas, assim como
das consequências e implicações que tem a nível
social. Ainda que não seja fácil obter dados
científicos que esclareçam a prevalência desta
perturbação, é absolutamente necessário
investir na investigação honesta e independente.
No
entanto, com os dados actualmente disponíveis, já temos
indicações suficientes para reconhecer que a
morbilidade é grande e que não está relacionada
com o facto de o aborto voluntário ser ou não legal.
Também temos dados suficientes para saber que o tratamento do
Síndrome Pós Aborto passa pelo reconhecimento da
perturbação e pela sua associação ao
acontecimento traumático que é o aborto. Como já
vimos, a dor do aborto vivida na solidão e perante a
incompreensão do mundo torna-se cada vez mais difícil
de tratar.
Assim,
é muito importante que se fale do Síndrome Pós
Aborto, tanto numa perspectiva de defesa da vida, como forma de
prevenir o aborto, mas também tendo em vista a necessidade
urgente de generalizar a possibilidade de tratamento eficaz às
mulheres e aos homens que sofrem desta perturbação.
_____________________________
1 - T. Keane, Vietnam Vets Trauma disorder level
at 15%, Am. Med. News, L. Abraham, Dec 2, 1988, p. 2
2 - Burke, Theresa & Reardon, David, “Forbidden Grief: the
unspoken pain of abortion” , 2002, Acorn Books, Springfield,
Il, USA
3 - G.Marcel, Homo Viator, Dusseldorf,1949
4 - Priests for Life: www.priestsforlife.org é uma organização pró-vida sediada nos
Estados Unidos
5 - I. Kent et al., "Emotional Sequelae of Elective Abortion," British College of Med. Jour., vol. 20, no. 4, April 1978 I.
Kent, "Abortion Has Profound Impact," Family Practice
News, June 1980, p. 80
6 - Segundo um relatório da Direcção Geral de
Saúde, em Portugal, em 2003 houve 137 interrupções
voluntárias de gravidez por doença materna reportadas
pelos serviços de saúde, das quais 37 foram devidas a
doença mental. Em 2001 tinham sido 21 num total de 126. As
patologias físicas justificaram os restantes abortos na
categoria de doença materna, com patologias infecciosas no
topo, seguidas das cancerígenas e crónicas graves. Os
episódios de internamento por aborto dão conta de um
total de 699 interrupções legais realizadas em 2003.
7 - Jornal “O Publico”, 15 de Dezembro de 2004 - primeiro parecer
oficial produzido sobre o assunto pela Ordem dos Médicos, que
foi aprovado pelo Conselho Executivo deste Orgão no final de
Dezembro de 2004.
8 - Post Abortion Review, Elliot Institute, Julho 2005. |