| Editorial
por Carlos Bobone
A segurança é um valor com
alta cotação nos países do ocidente. Bem o
entenderam os elementos mais aguerridos das nações
árabes, que se consideram espoliados e humilhados pelos
ocidentais. Atacando indiscriminadamente conseguiram tornar-se a
maior dor de cabeça do mundo euro-americano, que tanto preza a
vida sem sobressaltos. Grande parte da energia e do génio dos
europeus consumiu-se, ao longo dos tempos, na construção
e no aperfeiçoamento de instituições que nos
protegessem das incertezas da fortuna, da saúde ou do clima,
que assegurassem pessoas e propriedades contra a cobiça ou a
hostilidade alheias. Exércitos, polícias, bancos,
companhias de seguros, hospitais, caixas de previdência,
montepios, reflectem as preocupações de uma civilização
profundamente apegada à vida terrena e aos bens que nela se
podem desfrutar.
Esta afeição ao tranquilo
gozo da vida e da propriedade encontra-se, no entanto, camuflada, em
obediência aos critérios de comportamento impostos pela
facção a quem pertence o magistério cultural e
moral dos tempos modernos. Por hábito e propensão
natural, esta faz questão de se mostrar desconfiada e hostil
perante as forças de segurança, olhando-as como
inimigas tradicionais de tudo aquilo que, no seu imaginário,
constitui a força dinâmica das sociedades: a rebeldia, a
ousadia, a subversão, a contestação, a
insubmissão.
A retórica política
tradicional atribui às franjas conservadoras e autoritárias
da sociedade uma infantil devoção a valores como a
segurança, a ordem e a disciplina, enquanto presume nas
camadas liberais uma condescendente e sofisticada permissividade,
propícia ao desabrochar das forças criativas. O
desprezo das forças da ordem encontra-se entranhadamente
incorporado na atitude, na linguagem, na pose e no estatuto desta
corrente ideológica que conquistou o primado espiritual no
mundo da “modernidade”. Os seus pontífices, fiéis
à pose que os caracteriza, vêm-se agora galvanizados
pela denúncia de um novo perigo a pairar sobre as sociedades
democráticas desde o 11 de Setembro de 2001: a “deriva
securitária”. Não diremos que fizeram um diagnóstico
original, mas podemos garantir que denunciando e empolando esta
ameaça estão rigorosamente alinhados com a tradição
do liberalismo iluminista. Na perspectiva deste toda a história
da humanidade se resume ao que poderíamos chamar uma longa
“deriva securitária”. Segundo a teoria do Contrato Social
o homem primitivo abdica da liberdade plena, sua condição
natural, estabelecendo sociedade com outros homens para garantir a
sua segurança. Este terá sido o primeiro passo de uma
sucessão de abdicações que conduziram a
humanidade a uma situação cheia de hierarquias e
servidões, contrárias em tudo à natureza humana.
Ao fim de três séculos de esforços para o
desmantelamento das instituições repressivas, os
herdeiros de Rousseau e Voltaire entram em alvoroço vendo que
as massas inconscientes estão prontas a abdicar dos seus
direitos, duramente adquiridos, em troca de mais segurança. A
denúncia deste processo, da segurança obtida à
custa da liberdade dos cidadãos, é a razão de
ser de toda a tradição revolucionária. Por isso
o seu discurso tende para a desvalorização da
segurança.
Não será justo afirmar, no
entanto, que a corrente da permissividade está inteiramente
desprovida de respostas para o problema da segurança nas
sociedades modernas. Opondo-se às soluções
repressivas ou “musculadas”, apresenta um programa que, embora
vago, tem alguma razão de ser: a segurança obtém-se
eliminando os focos de revolta, integrando os mais desfavorecidos e
os desenraizados na comunidade onde vivem. Por este caminho
alcançar-se-á, sem dúvida, uma das fontes da
segurança universal. Quanto mais acolhido, estimado e
respeitado, investido de um papel e reconhecido pela comunidade se
sentir o cidadão, mais respeitará a sociedade em que se
integra. Mas esta perspectiva de integração plena dos
cidadãos, mais do que um programa com futuro, assemelha-se
antes a uma descrição das sociedades rurais e arcaicas
em vias de extinção. É aí que encontramos
povoações com toda a população bem
integrada. Nas sociedades urbanas os programas de integração,
por muito louváveis que sejam, estão condenados a
deixar de fora volumosas fatias da população. Onde se
acumula mais gente é onde se encontra maior solidão,
desenraizamento, frustração, agressividade e revolta.
As concepções sociais que
confiam a segurança dos povos aos programas de integração
social destinam-se, pois, a ser usadas por grupos ideológicos
com vocação retórica, minoritária e
oposicionista. Quando estes chegam às esferas do poder,
confrontados com as exigências de resultados visíveis,
recorrem aos meios repressivos tradicionais com a falta de critério
de quem nunca os ponderou nem admitiu na teoria. Tal como o pacifista
que, quando constrangido a recorrer à força não
sabe onde há de parar, pois para ele toda a violência é
injustificada desde o começo, também os governos de
formação permissiva constroem sistemas de segurança
e justiça que são caldos indescritíveis de
garantias dilatórias e proibições arbitrárias. |