DO OUTRO LADO
Diz que
não
por João Ribeiro Lima
Uma sondagem
difundida recentemente pela CBS News revelou que a maioria dos
americanos deseja que o aborto seja proibido ou que o seu
enquadramento legal seja reduzido a casos excepcionais (violação,
incesto, perigo de morte para a mãe). Outros estudos de
opinião neste País têm demonstrado que a
consciência relativamente à dignidade da vida
intra-uterina e à necessidade de protegê-la é um
fenómeno crescente. Esta inversão, após vários
anos de consecutivas leis “liberalizantes”, é de tal forma
visível ao ponto de alguns Estados estarem no caminho da
abolição completa, sem excepções, desta
realidade. Inclusive o partido democrata, conhecido por posições
favoráveis ao aborto, está a repensar toda a sua
estratégia para o acto eleitoral de 2008.
A justificação
para esta mudança deve-se em primeiro lugar ao combate
extraordinário das numerosas organizações
pró-vida americanas que contribuíram para o
esclarecimento e informação da população
não só relativamente à existência
inequívoca de vida humana desde a concepção até
à morte natural, mas também em relação a
todas as consequências nefastas provenientes da realização
do aborto para a mulher, para a família e para a sociedade em
geral. Paralelamente a evolução da ciência
possibilitou, hoje, ter uma visão clara e elucidativa da vida
que é gerada no útero materno, já não se
trata de algo desconhecido mas visível aos olhos de qualquer
pessoa.
De facto, a esta
distância que me encontro, olhar para o meu País e
verificar que se “embrulha” mais uma vez na tentativa de
liberalizar o aborto é algo incompreensível e diria
mesmo, inaceitável.
Os políticos
portugueses, como já o referi anteriormente, primam, de uma
forma geral, pela mediocridade no agir, nas ideias e agora também
no conhecimento do que se passa no mundo, que nesta matéria
além de estar associado a uma total falta de cultura
científica, constitui uma angustiante ausência de
valores.
A questão
do aborto deveria ser hoje no mundo ocidental assunto encerrado, sem
qualquer margem de discussão, completamente proibido e
abolido. Mais clara deveria ser esta posição para
Portugal quando todos os outros Países que enveredaram pelo
caminho da liberalização apresentam resultados
desastrosos a vários níveis. É de facto
preocupante que o poder político volte a visitar este assunto
quando tudo o que se passa no mundo afirma exactamente o contrário.
A ciência diz que não, a maioria das mulheres que
efectuaram um aborto e que sofrem as consequências físicas
e psicológicas dessa opção dizem que não,
a queda demográfica diz que não, as estatísticas
que apresentam aumentos do aborto clandestino após leis mais
liberais dizem que não, os cidadãos que pagam impostos
dizem que não, a perda de liberdade das mulheres relativamente
ao mundo do trabalho e às pressões que são
sujeitas para não terem filhos dizem que não e por aqui
poderia continuar a enunciar razões que contrariam o caminho
que se quer tomar.
Quando se
deveria apoiar a família com o intuito de inverter a queda
demográfica, fecham-se maternidades e financiam-se abortos,
quando se deveriam incutir valores na juventude de forma a melhor
prepará-los para o futuro, distribuem-se preservativos,
vendem-se pílulas do dia seguinte, promovendo uma cultura de
irresponsabilidade, sem conseguir contrariar o aumento do número
de gravidezes em adolescentes. Os paradoxos continuam e a sociedade
deteriora-se a todos os níveis.
Por outro lado,
olhando para o processo eleitoral do referendo em Portugal é
de fazer inveja a qualquer País do terceiro mundo.
Constituindo o referendo, um pedido do Estado para que a sociedade
civil se organize e se manifeste, com a magnífica resposta
dada pelos portugueses em termos de mobilização e
organização de grupos cívicos e com o
consequente trabalho de esclarecimento da população,
são os partidos que recebem todo o dinheiro proveniente do
bolso dos contribuintes. Por outro lado a pergunta aprovada pelo
Tribunal Constitucional para o referendo não reflecte na sua
totalidade a lei que já foi aprovada no parlamento, ou seja,
os portugueses irão ser confrontados com uma pergunta que
pouco tem a ver com a realidade legal que se pretende impor. No caso
da lei avançar, fruto de uma vitória do “sim” no
referendo relativamente a uma pergunta que não é
concordante com a própria lei, teremos uma lei que vai contra
a Constituição do Estado Português, em virtude de
não reconhecer a vida humana como um valor fundamental a
proteger. A dificuldade em encontrar algo coerente e consistente em
todo este processo é enorme.
É também
questionável a conivência em todo este processo entre os
partidos com assento parlamentar apoiantes do “sim”, o Governo e
o Tribunal Constitucional.
Com tudo isto só
é possível chegar a uma conclusão, que para
ganhar o “sim” quando tudo diz que “não” a única
forma é ter as regras do jogo viciadas.
De qualquer
forma penso que o “não” uma vez mais ganhará,
imperando o bom senso do povo português contra a teimosia
ignorante dos políticos. |