CRÓNICAS DE UM LUSITANO INTERIOR NA ÁLBION
Rendição ou estupidez?
por Rafael Castela Santos
Uma das características
mais interessantes da Grã-Bretanha é o seu apreço
pelo militarismo no sentido mais genérico da palavra. Uma
explicação plausível para esta atitude pode
assentar no valor de cada vitória nas recentes Guerras
Mundiais, na ligação a um passado imperial, num passado
já de si recheado de vitórias e na sua complexa história. As prateleiras estão cheias de livros de
história militar, as exposições e os
desfiles militares têm um público numeroso e atento, e
esses temas surgem repetidamente quer nas conversas quer nos media.
A política
militar da Grã-Bretanha só não tem competido em
pé de igualdade com a dos Estados Unidos devido a situações
obscuras. Recordemos, por exemplo, o escândalo do TR2, um avião
de grande superioridade tecnológica nos anos sessenta e que
foi travado por estranhos interesses político-económicos.
A excelente capacidade de investigação e de
desenvolvimento da Grã-Bretanha no campo do armamento está
acima de qualquer dúvida. Prova disso é a sua elevada
tecnologia aeroespacial e naval.
E no entanto, algo vai
mal em todo este processo. As Forças Armadas britânicas
enfrentam sérios problemas de recrutamento, o que não
deixa de ter alguma lógica dado que a grande número dos
cidadãos das terras de "Sua Majestade" falta vocação
para bombardear sérvios, matar afegãos, liquidar
iraquianos ou servir de marionetas
às companhias petrolíferas.
Além disso, não
existe vontade de defesa. Poder-se acreditar que um exército
profissional de pouco mais de 100 000 homens (e mulheres) possa
defender um país como a Grã-Bretanha, mesmo
considerando forças reservistas tais como a Territorial Army,
não augura nada de bom. E no entanto, a população
britânica acredita piamente que os seus soldados não só
cumprirão a sua missão como também que o farão
de forma competente. E por isso o britânico poderá
seguir tranquilamente qualquer contratempo através da
televisão.
Não é
apenas entre a sociedade civil que se encontra esta tendência.
A Royal Navy ainda não recuperou completamente das perdas
sofridas durante a Guerra das Malvinas, em boa parte porque não
tem existido um verdadeiro desejo de que ela recupere a posição
que detinha até 1982. Este facto, que é grave sobretudo
num país obrigado pela sua extensão geográfica a
ser uma potência naval, leva-nos a perguntar qual será
ao preço a pagar por esta vitória de Pirro.
Torna-se patético
observar que, enquanto o governo inglês considera seus inimigos
países como o Irão, lá longe destas latitudes,
já o não faz em relação a outros países
como a Rússia, que se está a armar até aos
dentes e cuja ameaça terrível se abate sobre a Europa.
A rede de radares existente na Escócia desde os tempos da
guerra fria e que servia de alerta a uma possível ameaça
soviética, está de momento semi-desactivada, se é
que não foi mesmo deixada deteriorar por falta de
modernização. Já a Rússia tem mantido ao
longo dos tempos certos "interesses" nestas ilhas, o que
não só se explica através de uma forte rede de
espionagem existente ao longo de anos e que em muitos casos é
procedente das Universidades de Cambridge e de Oxford o que
historicamente se pode demonstrar, como também se verifica que
essa espionagem se mantém activa, facto para o qual a imprensa
frequentemente tem alertado.
Perante semelhante
panorama é altura de nos perguntarmos se a sociedade
britânica, gravemente atingida por um hedonismo e um consumismo
que ultrapassam a imaginação mais delirante, tem
realmente vontade de se defender. A diferença entre
gerações é grave dado que aqueles que
protagonizaram os grandes feitos da Segunda Guerra Mundial, fora e
dentro de casa, estão a morrer por ter chegado a sua hora. E
os que se lhes seguiram não têm, nem se vislumbra que
possam vir a ter, a integridade e a capacidade de sofrimento que
foram ao longo dos tempos uma das maiores virtudes dos britânicos.
Confiar apenas na tecnologia e nuns poucos homens (para mais,
dispersos por todo o mundo) suficientes apenas para formar uma força
de autodefesa, pode criar uma situação de grande
vulnerabilidade, sobretudo se não for tomada em devida
consideração a ameaça que vem do Leste e que tem
minado o Reino Unido no que toca à inteligência; assim,
só se levanta uma dúvida em relação à
defesa do Reino Unido: tratar-se-á de uma rendição
a priori ou muito simplesmente de mera estupidez?
Lamentavelmente, há
séculos que a Grã-Bretanha se não defende a si
própria mas apenas a inúmeros interesses espúrios.
Os ricos e os poderosos deste mundo são os mesmos que
catapultaram este belíssimo país para a hegemonia e os
mesmos que depois se desembaraçaram dele. Olhar para si
própria, defender-se para ser (ou ser para se defender),
identificar claramente o potencial inimigo e regenerar os recursos
humanos devem ser as estratégias mais adequadas. Mas nenhuma
destas parece ser a linha de força da segurança e
defesa britânicas.
Hoje em dia, sob o
verniz superficial duma aparente prosperidade e com algum poder (para
mais utilizados iniquamente) a Grã-Bretanha caminha a passos
largos para a insegurança e para uma falta de defesa. Deverá
ser motivo de debate saber se esta queda é provocada pela
rendição ou pela estupidez (ou por outra qualquer razão
distinta e ainda pior do que as anteriores). Temo que mais cedo do
que acreditamos esta linda terra britânica, outrora conhecida
como Mary's Dowry, em honra de Nossa Senhora, esteja a ser pisada por
botas russas. Esta mesma terra a quem o protestantismo arrancou
iniquamente a veneração que era devida à Mãe
de Deus.
Ou talvez até
por isso mesmo: para que a Inglaterra volte a ser a Mary's Dowry.
A segurança deve
assentar em Alfredo, o Grande, em Santo Eduardo, em Santo Aelred, em
São Tomás Morus. A segurança da Grã-Bretanha e a sua defesa sempre estarão no espírito que
lhe deu vida e que a viu nascer. Não nas máquinas; não
num punhado de soldados profissionais; não na co-habitação
com alguma Lógia nem numa união perversa entre
Londres e Nova Iorque. A segurança estará, certamente
que estará, na vontade de se defender lutando por princípios.
Os princípios da Cristandade dos quais a Inglaterra está
há tanto tempo arredada. Sem o verdadeiro espírito não
poderá haver segurança porque nada haverá para
defender.
A segurança,
numa palavra, está em ser. E "ser é defender-se",
como insistia o anglo-hispânico Ramiro de Maeztu Whitney.
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