Ano I - Nº 5, Janeiro de 2007
Alameda Digital
Segurança e Defesa
Justiça do Destino

por F Santos

Por ocasião do centenário do nascimento de Dmitri Shostakovitch, comemorado em 2006, debateu-se o papel político que o grande compositor terá tido na URSS. Uns acusaram-no de ter apoiado tácita ou explicitamente Estaline nas suas obras, outros lembraram a enorme pressão que sofriam todos os criadores naquele país, sendo forçados num momento ou noutro a condescender e a compor obras na linha que defendia o partido, ou seja, obras "ao serviço do povo".

A discussão tornou-se um pouco inconsequente pois os factos acabam por dar argumentos a ambas as opiniões.

Na URSS a criação artística era extremamente vigiada. Os compositores que fugissem à linha do "realismo socialista" eram acusados publicamente de "formalismo" e, na prática, intimados a inverter o rumo. Assim sucedeu com Prokofiev, com Shostakovitch e muitos outros. O que nunca os impediu de reincidir, o que só por si dá mostras do seu inconformismo e, porque não dizê-lo, da sua coragem.

Shostakovitch, só no campo das sinfonias, fornece-nos bastos exemplos. A Quinta e a Sétima, compostas durante a II Guerra Mundial, são sinfonias "heróicas", exaltando a resistência soviética ao invasor alemão. A Quinta é uma obra soberba, empolgante e de grande intensidade dramática. A Sétima, chamada "Leninegrado", evoca a estóica resistência da martirizada cidade ao invasor. É famoso o andamento que descreve, num crescendo angustiante, o avanço das tropas nazis. É talvez mais enfática que a Quinta.

Em contraponto a estas obras temos a Nona e a Décima Quarta Sinfonias. A nomenclatura do regime, e Estaline em particular, tinha grandes expectativas aquando da estreia daquela, pois julgavam que a exaltação à grande vitória soviética se expressaria musicalmente como nunca. Em vez disso, em vez do triunfalismo plasmado em música, surgiu uma obra introspectiva, nada heróica, satírica até em alguns momentos. A acusação de "formalismo" recaíu novamente sobre o compositor, que declarou a propósito da obra: «Os músicos terão enorme prazer em a tocar e os críticos em a arrasar».

A primeira récita da Décima Quarta Sinfonia, só para as grandes figuras do regime, acabou por ser histórica não apenas por motivos estritamente musicais. O grande maestro Rudolf Barshai, que dirigiu a obra nesse dia, fez uma espantosa evocação do que ocorreu na sala de concertos do Conservatório de Moscovo:

«No dia de estreia apenas se podia entrar por convite. Na primeira parte executámos a Sinfonia “A Paixão”, de Joseph Haydn, e na segunda a Sinfonia Nº 14 de Shostakovitch. O auditório estava cheio de notáveis do regime, ministros, membros do politburo, todos... Durante a interpretação da obra de Shostakovitch algo de terrível e assombroso se passou: morreu, com um enfarte, Apostolov, o antigo chefe da Chéka, o homem-chave do KGB e director do Departamento de Música do Partido Comunista da URSS, o homem que mais mortificou Shostakovitch em toda a sua vida, o homem que escreveu o texto do famoso artigo “Caos e não música”, publicado no Pravda e atribuído a Estaline, e o homem que preparou o famoso decreto de Zhdanov contra o formalismo: esse era Apostolov. Durante a interpretação ouvi ruído na sala, mas não me voltei para trás, e só no final soube que Apostolov tinha tido um ataque e morrera na plateia. Quando Shostakovitch veio ter comigo ao camarim vi que estava muito impressionado: “Eu não queria isto, não o desejava”. Retorqui: “ Dmitri, foi a música que o matou: essas palavras, essa música eram algo demasiado forte para Apostolov”. Na verdade, estou em crer que quando ele escutou os terríveis versos da “Resposta dos Cossacos ao Sultão de Constantinopla”, interpretou que lhe eram dirigidos. E os versos de Apolinaire sobre o poeta na prisão devem também ter sido por ele interpretados como o espelho da sua própria conduta, daquilo que tinha feito a tantos outros, entre os quais Shostakovitch, cujas vidas destroçou. Foi algo tremendo, como que uma justiça do destino.»

Shostakovitch conseguiu manter um equilíbrio instável entre a sua pulsão criativa e as pressões externas. Não foi um compositor de vanguarda strictu sensu, não aderiu ao serialismo em voga no pós-guerra mas não deixou de ser bastante original, mesmo não abandonando a grande tradição musical ocidental. Nas suas últimas sinfonias e nos seus últimos quartetos de cordas abeira-se da atonalidade, a intensidade melódica chega a extremos a que já chegara Gustav Mahler na sua inacabada Décima Sinfonia. Em última análise Shostakovitch demonstrou, tanto aos zeladores da estética soviética como aos críticos modernistas ocidentais, que não é necessário fazer rupturas na tradição musical para se ser original - e intemporal. A popularidade de que goza a sua música acaba por ser também uma justiça do destino.

   
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