China
– Um tigre de papel sem pés de barro
por Abel Morais
Tudo
o que hoje a China faz, é feito por uma razão:
demonstrar que é uma grande potência. Uma grande
potência não anuncia previamente os seus gestos;
prossegue uma estratégia de fins precisos, sendo esta
conhecida apenas na medida em que é indispensável para
garantir os resultados desejados e assegurar o estatuto da nação
que a formulou.
A
destruição de um antigo satélite meteorológico
da China a 11 de Janeiro por um míssil balístico de
médio alcance das forças armadas deste país
insere-se naquele desígnio.
O
exercício militar de 11 Janeiro representa uma alteração
de 180 graus na estratégia chinesa para o espaço,
alteração sugerida pela mais recente edição
do Livro Branco da Defesa, editado por Pequim em 2006. Nas anteriores
edições, constaram sempre referências expressas à
necessidade de manter o espaço livre de armas,
caracterizando-o como património da humanidade a exigir uma
regulação negociada das condições da sua
utilização. Na edição de 2006, estas
referências desapareceram. Sabendo-se, como Pequim sabe, que os
EUA reivindicam há décadas um direito à
utilização do espaço para fins militares, caso
considerem em causa a segurança nacional, aquela omissão
significa que a China considera inevitável a militarização
do espaço? E que, neste caso, vai actuar em conformidade,
considerando-se em condições de influenciar as decisões
americanas na matéria?
A
estratégia dos EUA para o espaço consta de um documento
de Outubro de 2006, em que se considera aquele de importância
central para a segurança do país; no documento
manifesta-se a total oposição a acordos políticos
ou tratados que reduzam ou proíbam o uso do espaço
pelos EUA para fins militares. Uma opção que só
pode perturbar os dirigentes chineses, levando-os a abrir uma nova
frente no conflito de interesses cada vez mais evidente entre
Washington e Pequim.
EUA
e China terão trocado informações após o
disparo de 11 de Janeiro, mas Pequim só admitiu a sua
realização quase uma semana depois de o anúncio
ter surgido em Washington, acompanhado das habituais críticas
e condenações da Casa Branca e das capitais europeias.
Pequim reiterou as suas intenções pacifistas, mas não
ofereceu qualquer explicação sobre as razões do
teste. Tal como os EUA não parecem dispostos a muita
negociação sobre a sua política nacional para o
espaço.
Com
aquele teste, a China acedeu a um dos mais restritos clubes de
competências militares, integrado apenas por grandes potências
como os EUA ou a Rússia. O sucedido a 11 de Janeiro é o
mais importante gesto de afirmação militar e
estratégica chinesa desde as manobras realizadas há uma
década frente a Taiwan, que incluíram tiros de mísseis
sobre o estreito entre a China continental e a ilha, considerada
província secessionista pelo governo de Pequim.
O
disparo é uma resposta à ambição espacial
dos EUA, mas é também um novo passo na estratégia
de Pequim para se afirmar como grande potência. Uma estratégia
que engloba gestos simbólicos, decisões políticas
e uma capacidade de afirmação internacional que não
aceita limites. A China aspira a ser a superpotência do século
XXI. Como tal, qualquer decisão de Pequim neste plano integra
um elemento de agressividade interna, a que surge sempre associada,
em simultâneo, a reivindicação de um estatuto
excepcional de «potência pacífica e solidária»,
imune aos vícios de um projecto hegemónico ou
imperialista.
O
exercício confirma uma orientação notada pelos
analistas na estratégia chinesa, vindo esta a assumir nos
últimos anos um grau de afirmação e
agressividade indirecta, em especial face aos EUA, que recorda alguns
incidentes entre russos e americanos na época da Guerra Fria.
Aquela
orientação encontra reflexo numa série de obras
de militares chineses surgidas recentemente sobre estratégia e
definição das condições de vitória
no campo de batalha. Uma das ideias recorrentes é a de que,
mais importante do que possuir supremacia em efectivos, equipamento e
tecnologia, se deve tirar partido de uma situação de
vulnerabilidade do inimigo, sendo este globalmente mais forte. Uma
segunda ideia é a da opção por um ataque
preventivo, pela iniciativa estratégica que degrade as
condições de resposta do adversário. Neste, como
no primeiro caso, a chave da vitória está em deteriorar
o conhecimento e o espaço de manobra do oponente no campo de
batalha. O que é feito pela neutralização do
poder de fogo e pelo bloqueio das fontes de recolha de informação.
Estas estão hoje dependentes do recurso a satélites.
A
importância do factor naval
A
China pode exibir-se já como potência indiscutível
e directora na região Ásia-Pacífico, pode fazer
sentir a sua influência no plano internacional e utilizar a
dimensão potencial do seu mercado interno e a dimensão
da sua economia para impor condições na Ásia e
na Europa – e de forma deliberadamente distinta em África –,
mas não consegue ainda projectar a sua influência
através da componente militar.
A
China – politica e economicamente – já cessou de ser um
gigante de pés de barro, mas não deixou ainda de ser um
tigre de papel. Ou seja, a sua capacidade de influenciar
acontecimentos e opções de terceiros não é
plena nem indiscutível. Neste ponto, não vai sê-lo
a curto prazo. Mas quando o for – e se o for – a dimensão
do seu poderio militar e a sua real capacidade de projecção
serão fundamentais para aferir se Pequim pode ser a capital da
grande potência do século XXI.
Preocupação
que esteve no centro de um discurso do Presidente Hu Jintao no final
de Dezembro, em que apelou à constituição de uma
marinha de guerra oceânica. Um ponto decisivo na afirmação
actual de uma grande potência; além do poder económico
e da capacidade tecnológica. Vertentes que se encontram hoje
só ao alcance dos EUA.
Hu
Jintao, que é também presidente do centro nevrálgico
de poder na China – a Comissão Militar Central – defendeu
a constituição de uma marinha de guerra «poderosa»,
em condições de, «a qualquer momento»,
«neste novo século e nesta nova conjuntura»,
defender os interesses de uma nação que definiu como
uma importante potência naval. «O papel da marinha de
guerra é decisivo na defesa da autoridade e segurança
da nossa nação e na preservação dos
direitos marítimos. Esta é uma tarefa gloriosa» .
A
China necessita de uma dimensão naval para confirmar a sua
dimensão de grande potência. Há gestos simbólicos
relevantes, como o crescente envolvimento nas missões de paz
das Nações Unidas, gestos políticos e
económicos, com Pequim a exibir um extraordinário nível
de solidariedade – em especial em África – para
alguns dos regimes mais incompetentes, corruptos e repressivos da
actualidade como forma de pressão sobre a Europa e os EUA e
como instrumento para obter energia e matérias-primas a preços
convenientes, além de escoar as suas produções
de baixa tecnologia e de mão-de-obra abundante. Mas os
dirigentes de Pequim sabem que não possuem uma marinha
experiente, nem porta-aviões nem submarinos, para influenciar
de forma decisiva uma conjuntura estratégica.
Um
primeiro objectivo «glorioso» para a marinha chinesa
deverá ser a constituição de uma área de
interdição em torno de Taiwan, que torne excessivo o
custo de um apoio dos EUA ao Estado que Chiang Kai-shek instituiu em
1948, depois de ter sido afastado da China continental pelos
exércitos de Mao Tsé-tung. Pequim deve tornar claro
para a planificação militar americana os custos de uma
defesa da ilha de Taiwan, no caso de um confronto directo, que
envolva as forças aeronavais dos EUA.
Factor
que explica a declaração conjunta nipo-americana de
Fevereiro de 2005, em que ambos os países definiram como
prioridade estratégica a defesa de Taiwan. Para o Japão
é também essencial tornar claro a Pequim ser
intolerável um projecto de hegemonia chinesa na Ásia,
uma hegemonia que só pode significar uma política de
cerco ao arquipélago nipónico. Hegemonia em que um dos
primeiros momentos de afirmação será,
naturalmente, a neutralização de Taiwan, não
forçosamente por uma acção militar directa, mas
pela criação de condições que
possibilitem o controlo das vias de acesso e do espaço
aeronaval em torno da ilha, o que influenciará toda a
conjuntura regional.
É
neste ponto – e perante a eventualidade de um confronto militar –
que também o exercício de 11 de Janeiro manifesta a sua
importância.
A
capacidade de projectar poder e garantir uma esfera de influência
– além do controlo das vias de transporte marítimo de
bens e matérias-primas – estão associadas à
existência e operacionalidade de uma marinha de guerra oceânica
e à constituição da arma aérea
operacional a partir de porta-aviões. Nas últimas duas
décadas, Pequim tem adquirido importante número de
navios de superfície e submarinos, em especial à
Rússia. Em simultâneo, procura adquirir tecnologia
sofisticada para equipar a sua marinha de guerra. O que só
parcialmente tem sido possível, devido à existência
do embargo europeu e americano à transferência de
tecnologia e equipamentos militares, em vigor desde os acontecimentos
de Tiananmen, em Junho de 1989.
Mas
não basta constituir frotas de alto mar, a que falta ainda um
porta-aviões operacional; é indispensável
preparar tripulações competentes nas tácticas de
guerra naval e no domínio da tecnologia e das armas que
permitem obter a supremacia – e a vitória – em caso de
combate. É na conjugação deste ponto com o
referido no anterior parágrafo que reside a fragilidade da
capacidade de projecção e afirmação do
poder militar chinês. Este é um processo – dispendioso
– que pode prolongar-se por décadas e tem pela frente um
adversário cujo crepúsculo não se anuncia para
breve: os EUA, que dispõem de 11 agrupamentos de batalha
organizados em torno de outros tantos porta-aviões
(International Herald Tribune, 28 Dez. 2006, China airs
ambitions to beef up naval power).
O
espaço como campo de batalha
É
também claro que, tarde ou cedo, o Japão realizará
uma inflexão na articulação da sua estratégia
de afirmação regional e internacional, ultrapassando as
limitações impostas em 1945. As opções do
actual primeiro-ministro, Shinzo Abe, de rever a Constituição
escrita pelos EUA e de impor maior visibilidade internacional ao seu
país são um dos passos nesse sentido. Outro resulta da
apologia de uma aliança reunindo as “democracias marítimas”
da região Ásia-Pacífico, numa indicação
de que o adversário real – hoje ou no futuro – é o
regime de Pequim e seus aliados, como a Coreia do Norte.
Regime
de Pequim que mantém um alto grau de suspeita em relação
às intenções de Tóquio. Por isso, este
disparo tem também como alvo o arquipélago nipónico.
Arquipélago duplamente vulnerável, pois depende da
liberdade dos mares para se abastecer e exportar e a sua localização
obriga-o a considerar uma série de ameaças, rodeado
como se encontra de potenciais ou reais concorrentes a uma esfera de
influência – Rússia e China – ou importantes focos
de tensão – o estreito de Taiwan e a península
coreana. O que só pode apressar o facto de o Japão
deixar de ser a “potência menor” da Ásia e
reivindicar a sua liberdade de acção internacional e
naquele continente.
Por
isso, Pequim precisa de mostrar que está preparado para
qualquer evolução no plano regional. E não
podendo recorrer à projecção de poder aeronaval,
mostrou agora estar, teoricamente, em condições de
ameaçar os fundamentos da capacidade de projecção
de poder dos EUA, pondo em causa a sua superioridade no campo de
batalha. Por que esta depende de uma estratégia centrada no
recurso a satélites para policiamento de vias de comércio,
missões de reconhecimento, identificação de
alvos e definição de rotas de tiro de mísseis, o
teste de 11 de Janeiro veio revelar que o regime chinês sabe
onde atacar para neutralizar essa supremacia, mesmo que em termos
parciais.
Com
o sucedido a 11 de Janeiro, a China demonstra que se opõe à
ambição americana de definir, sem contestação,
uma política assente em preocupações de
segurança que justificariam negar a Estados terceiros o acesso
ao espaço. A China demonstra ainda estar plenamente consciente
das fragilidades do Japão e de Taiwan, e do importante
dispositivo militar que os EUA mantêm na região.
Não
sendo exequível um cenário de desmilitarização
do espaço, a China está atenta aos equilíbrios
neste campo. Como uma grande potência se deve preocupar com o
futuro.
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