As
novas armas ligeiras
por José
Luís Tavares de Andrade*
“...Portugal
nunca foi lesto em madrugar para as proveitosas invenções
e descobrimentos na ciência militar....”
(História
Política e Militar de Portugal, Gen. Latino Coelho)
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- A espingarda de
assalto
De
acordo com os especialistas, a moderna espingarda dita de assalto terá surgido, na Alemanha, como tentativa de resposta às
dificuldades que a sua Wehrmacht estava a enfrentar nas estepes
russas. Infindáveis hordas de soldados russos, mal treinados e
enquadrados mas animados de um fortíssimo espírito de
luta, combatiam as tropas alemãs e os seus aliados que se
encontravam em situação de inferioridade numérica.
Avançando protegidos pela blindagem dos seus versáteis
tanques e armados com pistolas metralhadoras, robustas mas pouco
sofisticadas, iam, paulatinamente, subjugando os alemães com
fogo maciço de rajadas automáticas, a curtas
distâncias, em vagas sucessivas de assaltos suicidas.
Embora
a forma de assalto rápido e incisivo não constituísse
surpresa para os alemães já que, afinal de contas,
tinham sido os melhores executantes da BlitzKrieg, este tipo de
ataque com contínuas ondas humanas, equipadas com fogo
automático, apanhou-os desprevenidos.
Como
quase todos os países com know-how tecnológico
para o poderem fazer, os alemães estavam então
empenhados no desenvolvimento de uma arma ligeira comparável à
Garand M-1 americana ou à Tokarev soviética de 1940
para substituir a Mauser regulamentar. No entanto, face às
dificuldades com que se deparavam nas planícies russas e
ucranianas, decidiram desistir da ideia e concentrar todos os
esforços no projecto de uma arma que reunisse as seguintes
características: disparasse em modo automático ou
semi-automático; utilizasse um carregador de munições
destacável e de capacidade média e usasse um cartucho
menor que o da Mauser mas com potência suficiente para abater
um soldado soviético para além do limite de eficácia
da sua PPsh-41, com que normalmente estava equipado. Estas
especificações resultavam essencialmente da constatação
de que o soldado médio, debaixo do stress e do fogo de
combate, jamais conseguiria usar todo o potencial de longo alcance da
munição regular.
Com
as idiossincráticas rapidez e eficiência alemãs,
a Waffenamt (organismo responsável pelo armamento)
criou a Sturmgewehr ou arma de assalto. O protótipo
inicial a MKb-42 disparava uma munição de calibre
7,92x33 mm - o 8 mm Kurz. Havendo necessidade de tirar partido do
grande número de maquinaria existente para o calibre 7,92, a
nova munição mantinha-o mas reduzia os 57 mm da Mauser
para 33.
A
primeira arma a registar grande produção foi a MP-44 e
o 8 mm Kurz faria a sua estreia operacional no teatro de guerra da
frente leste. Havia sido criada uma nova categoria de armas ligeiras
- a espingarda de assalto que passaria a equipar todos os soldados de
infantaria, subsituindo gradualmente a espingarda de repetição.
-
Armamento
base
Se
a guerra de trincheiras favorecia a utilização de
espingardas de longo alcance, sem grandes preocupações
de peso, dimensão ou cadência de tiro, o maior dinamismo
operacional dos conflitos subsequentes obrigou ao reequipamento das
tropas com base nos requisitos anteriormente indicados.
Contudo,
a eficácia real do conceito da Sturmgewehr (os russos
afinal passaram mesmo!) enquanto arma de equipamento básico
generalizado, foi sempre posta em causa. A impossibilidade de apontar
com precisão quer pelo mínimo tempo de reacção
exigido quer pelo constrangimento psicológico de tensão
ou descompressão durante o combate, torna limitada, na
prática, a sua eficácia.
Tem-se
vindo a chegar à conclusão de que, à semelhança
do que acontece com outros sistemas de armas balísticos,
também as armas ligeiras que equipam as unidades tácticas
básicas, deveriam tender para a especialização e
diversidade de acordo com o raio de acção e poder de
fogo desejados.
Nomeadamente
nas unidades de elite, foram surgindo equipamentos especificamente
adequados aos tipos de conflitos, missões e teatros. Foram
disponibilizadas, por exemplo, novas armas de longo alcance e alta
precisão, dispondo de sofisticados aparelhos de pontaria e VCB
em condições diurnas e nocturnas que equipam atiradores
especiais (snipers) possuidores de qualidades inatas
apropriadas, consolidadas com intensivas e dispendiosas acções
de treino e formação. Aqui, a tónica é a
qualidade e obviamente o elevado custo da arma.
No
que diz respeito à arma automática que equipa o
combatente indiferenciado, seria desejável que apresentasse
uma boa eficiência, pelo menos até aos 300-400 metros, e
que fosse leve e ergonómica. Por algumas das razões
anteriormente apontadas quanto à real eficácia da arma
de assalto, seria desejável que a munição a
disparar por esta arma fosse, não uma bala convencional mas
sim um projéctil de elevado poder dispersante (como o de uma
caçadeira). Alguns desenvolvimentos do programa ACR (Advanced Combat Rifle) americano apontaram para isso; com
efeito quer a bala Duplex quer as flechettes múltiplas
são uma tentativa nessa direcção. A tónica,
nestas armas, é a quantidade e, logicamente, o baixo custo de
produção.
Os
calibres
Também
no que diz respeito aos calibres se tem evoluído de acordo com
as especificações acima descritas. A diminuição
da fasquia do alcance útil, conjugada com a necessidade de
melhoria da portabilidade, veio permitir a adopção
gradual de calibres mais baixos - primeiro o 7,62 mm e ultimamente o
5,56 mm.
Havendo
várias munições deste último calibre
adaptadas para diversos estriamentos e câmaras, estabeleceu-se
como standard, no seio da OTAN, o projéctil belga
SS109, manifestamente superior ao americano M193.
Apesar
de não ter um impacto (função da energia
cinética e do formato aerodinâmico) comparável ao
do calibre 7,62 - o SS109 tem até aos 450 metros um
comportamento ainda mais tenso e suficientemente letal (v.g. gráfico). No entanto, a arma, tal como a munição,
pesa geralmente menos de metade da correspondente 7,62 mm.
Muitos estudos continuam a ser feitos no capítulo das
munições, procurando conseguir armas ainda mais
ligeiras e eficazes. A G-11, desenvolvida pela alemã Heckler
& Koch, autora da G-3 e da HK-21, pretendia ser uma arma do
futuro tendo por base uma nova tecnologia de munição em
que a cápsula do explosivo propulsor não existe e a
bala apresenta um peso cerca de metade da do calibre 5,56 mm. É
quase um regresso ao passado quando as balas eram carregadas pela
boca.. Apesar das grandes vantagens que este tipo de munição
apresenta, o seu desenvolvimento tem sido muito lento devido às
dificuldades em conseguir um bom isolante que proteja a pólvora
propulsora da humidade sem deixar resíduos na arma bem assim
como ao facto de se verificar, com demasiada frequência, a
ignição não controlada da munição
apresentada na câmara por efeitos das altas temperaturas aí
registadas (cook-off). Contudo, os custos e de, certa forma,
as inconsequências imediatas desse projecto estiveram
certamente na origem da iminente falência da Heckler &
Koch que culminou na sua venda à Royal Ordnance inglesa.
Importa notar que o tipo de conflitos que nos
últimos anos tem caracterizado o panorama político
internacional, trará certamente um abrandamento, por agora,
nas despesas com armas individuais de ataque por parte dos principais
países responsáveis pelo R&D neste sector; a
prioridade é agora a intelligence e os equipamentos de
prevenção, detecção e apreensão. O
calibre 5,56 mm manter-se-á seguramente como standard por longos anos.
Também a uniformização dos
calibres nas diversas famílias de armas ligeiras constitui um
problema que não é dispiciendo. Com funções
de cobertura e suporte, existem as metralhadoras ligeiras, de apoio
de secção, caracterizadas por grande cadência e
volume de tiro. No nível mais baixo do espectro do armamento
ligeiro, a arma de defesa pessoal (vulgarmente uma pistola), tem
registado algumas evoluções, tendo-se dado ultimamente
grandes passos no sentido de se conseguir uma arma pequena, com
bastantes munições e elevada cadência de tiro e à
qual, atendendo à natureza da sua missão, baste ser
eficaz a curtas distâncias. No entanto, a questão da
munição tem sido secundarizada, pelo que, por enquanto,
se continua a manter o calibre 9 mm como o mais divulgado. De
qualquer forma, razões de natureza logística, tornam
incontornável que, independentemente do tipo e natureza de
arma, se procure usar a mesma munição. Não é,
contudo, evidente que a arma de apoio (metralhadora ligeira) e a
espingarda automática tenham de fazer parte da mesma família.
Algumas razões de logística de produção
(algumas peças seriam comuns) podem justificar essa exigência
mas, na realidade, essa orientação não foi
adoptada pela maioria dos países da OTAN. Po exemplo, no
grande mercado que são as Forças Armadas do E.U.A.
coexistem a Colt M16 e a FN-Minimi.
-
As
questões operacionais
Na
escolha da arma há que ter em atenção os
prementes requisitos da ergonomia e da portabilidade à medida
que as forças militares se procuram ajustar cada vez mais aos
modernos conceitos de intervenção rápida. O
crescente uso de APC (Armored Personal Carriers) em unidades
mecanizadas e o reduzido espaço interior que lhes está
associado implicam que as novas armas ligeiras devam ser curtas,
leves e compactas. A resposta a este requisito é dada pelo
formato bullpup, geralmente aceite como a terceira geração
das espingardas automáticas (v.g. ilustrações
seguintes).
Talvez
por não serem muito fotogénicas em paradas e desfiles,
as Forças Armadas portuguesas pouca importância têm
dado a esta questão. Aliás, o próprio calibre
generalizado continua a ser o 7,62, tendo sempre o programa da nova
arma ligeira ficado relegado para as calendas gregas. As preferências
tem sido dadas a brinquedos de mais vulto como os chaços
dos M-60 ou os prestigiantes submarinos (prioritários,
evidentemente, para os teatros de operações em que as
NF se movimentam). No meio da indecisão e da indefinição,
grassam os negócios avulso quase se chegando ao ponto de cada
destacamento se equipar com a arma que mais lhe agrada. Os
paraquedistas deram o mote adquirindo, há já alguns
anos, a Galil. E, com a crescente falta de recursos, qualquer dia
recorrem ao leasing ou aos penhores para as adquirir.
Afinal,
parece que a supracitada afirmação do Latino Coelho
permanece válida.
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* Auditor
de Defesa Nacional e antigo Adjunto para as questões
tecnológicas do Secretário de Estado da Defesa
(1987-1992) |