Ano I - Nº 5, Janeiro de 2007
Alameda Digital
Segurança e Defesa
As novas armas ligeiras

por José Luís Tavares de Andrade*

...Portugal nunca foi lesto em madrugar para as proveitosas invenções e descobrimentos na ciência militar....”

(História Política e Militar de Portugal, Gen. Latino Coelho)

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  1. A espingarda de assalto

De acordo com os especialistas, a moderna espingarda dita de assalto terá surgido, na Alemanha, como tentativa de resposta às dificuldades que a sua Wehrmacht estava a enfrentar nas estepes russas. Infindáveis hordas de soldados russos, mal treinados e enquadrados mas animados de um fortíssimo espírito de luta, combatiam as tropas alemãs e os seus aliados que se encontravam em situação de inferioridade numérica. Avançando protegidos pela blindagem dos seus versáteis tanques e armados com pistolas metralhadoras, robustas mas pouco sofisticadas, iam, paulatinamente, subjugando os alemães com fogo maciço de rajadas automáticas, a curtas distâncias, em vagas sucessivas de assaltos suicidas.

Embora a forma de assalto rápido e incisivo não constituísse surpresa para os alemães já que, afinal de contas, tinham sido os melhores executantes da BlitzKrieg, este tipo de ataque com contínuas ondas humanas, equipadas com fogo automático, apanhou-os desprevenidos.

Como quase todos os países com know-how tecnológico para o poderem fazer, os alemães estavam então empenhados no desenvolvimento de uma arma ligeira comparável à Garand M-1 americana ou à Tokarev soviética de 1940 para substituir a Mauser regulamentar. No entanto, face às dificuldades com que se deparavam nas planícies russas e ucranianas, decidiram desistir da ideia e concentrar todos os esforços no projecto de uma arma que reunisse as seguintes características: disparasse em modo automático ou semi-automático; utilizasse um carregador de munições destacável e de capacidade média e usasse um cartucho menor que o da Mauser mas com potência suficiente para abater um soldado soviético para além do limite de eficácia da sua PPsh-41, com que normalmente estava equipado. Estas especificações resultavam essencialmente da constatação de que o soldado médio, debaixo do stress e do fogo de combate, jamais conseguiria usar todo o potencial de longo alcance da munição regular.

Com as idiossincráticas rapidez e eficiência alemãs, a Waffenamt (organismo responsável pelo armamento) criou a Sturmgewehr ou arma de assalto. O protótipo inicial a MKb-42 disparava uma munição de calibre 7,92x33 mm - o 8 mm Kurz. Havendo necessidade de tirar partido do grande número de maquinaria existente para o calibre 7,92, a nova munição mantinha-o mas reduzia os 57 mm da Mauser para 33.

A primeira arma a registar grande produção foi a MP-44 e o 8 mm Kurz faria a sua estreia operacional no teatro de guerra da frente leste. Havia sido criada uma nova categoria de armas ligeiras - a espingarda de assalto que passaria a equipar todos os soldados de infantaria, subsituindo gradualmente a espingarda de repetição.

  1. Armamento base

Se a guerra de trincheiras favorecia a utilização de espingardas de longo alcance, sem grandes preocupações de peso, dimensão ou cadência de tiro, o maior dinamismo operacional dos conflitos subsequentes obrigou ao reequipamento das tropas com base nos requisitos anteriormente indicados.

Contudo, a eficácia real do conceito da Sturmgewehr (os russos afinal passaram mesmo!) enquanto arma de equipamento básico generalizado, foi sempre posta em causa. A impossibilidade de apontar com precisão quer pelo mínimo tempo de reacção exigido quer pelo constrangimento psicológico de tensão ou descompressão durante o combate, torna limitada, na prática, a sua eficácia.

Tem-se vindo a chegar à conclusão de que, à semelhança do que acontece com outros sistemas de armas balísticos, também as armas ligeiras que equipam as unidades tácticas básicas, deveriam tender para a especialização e diversidade de acordo com o raio de acção e poder de fogo desejados.

Nomeadamente nas unidades de elite, foram surgindo equipamentos especificamente adequados aos tipos de conflitos, missões e teatros. Foram disponibilizadas, por exemplo, novas armas de longo alcance e alta precisão, dispondo de sofisticados aparelhos de pontaria e VCB em condições diurnas e nocturnas que equipam atiradores especiais (snipers) possuidores de qualidades inatas apropriadas, consolidadas com intensivas e dispendiosas acções de treino e formação. Aqui, a tónica é a qualidade e obviamente o elevado custo da arma.

No que diz respeito à arma automática que equipa o combatente indiferenciado, seria desejável que apresentasse uma boa eficiência, pelo menos até aos 300-400 metros, e que fosse leve e ergonómica. Por algumas das razões anteriormente apontadas quanto à real eficácia da arma de assalto, seria desejável que a munição a disparar por esta arma fosse, não uma bala convencional mas sim um projéctil de elevado poder dispersante (como o de uma caçadeira). Alguns desenvolvimentos do programa ACR (Advanced Combat Rifle) americano apontaram para isso; com efeito quer a bala Duplex quer as flechettes múltiplas são uma tentativa nessa direcção. A tónica, nestas armas, é a quantidade e, logicamente, o baixo custo de produção.

  1. Os calibres

Também no que diz respeito aos calibres se tem evoluído de acordo com as especificações acima descritas. A diminuição da fasquia do alcance útil, conjugada com a necessidade de melhoria da portabilidade, veio permitir a adopção gradual de calibres mais baixos - primeiro o 7,62 mm e ultimamente o 5,56 mm.

Havendo várias munições deste último calibre adaptadas para diversos estriamentos e câmaras, estabeleceu-se como standard, no seio da OTAN, o projéctil belga SS109, manifestamente superior ao americano M193.

Apesar de não ter um impacto (função da energia cinética e do formato aerodinâmico) comparável ao do calibre 7,62 - o SS109 tem até aos 450 metros um comportamento ainda mais tenso e suficientemente letal (v.g. gráfico). No entanto, a arma, tal como a munição, pesa geralmente menos de metade da correspondente 7,62 mm.

Muitos estudos continuam a ser feitos no capítulo das munições, procurando conseguir armas ainda mais ligeiras e eficazes. A G-11, desenvolvida pela alemã Heckler & Koch, autora da G-3 e da HK-21, pretendia ser uma arma do futuro tendo por base uma nova tecnologia de munição em que a cápsula do explosivo propulsor não existe e a bala apresenta um peso cerca de metade da do calibre 5,56 mm. É quase um regresso ao passado quando as balas eram carregadas pela boca.. Apesar das grandes vantagens que este tipo de munição apresenta, o seu desenvolvimento tem sido muito lento devido às dificuldades em conseguir um bom isolante que proteja a pólvora propulsora da humidade sem deixar resíduos na arma bem assim como ao facto de se verificar, com demasiada frequência, a ignição não controlada da munição apresentada na câmara por efeitos das altas temperaturas aí registadas (cook-off). Contudo, os custos e de, certa forma, as inconsequências imediatas desse projecto estiveram certamente na origem da iminente falência da Heckler & Koch que culminou na sua venda à Royal Ordnance inglesa.

Importa notar que o tipo de conflitos que nos últimos anos tem caracterizado o panorama político internacional, trará certamente um abrandamento, por agora, nas despesas com armas individuais de ataque por parte dos principais países responsáveis pelo R&D neste sector; a prioridade é agora a intelligence e os equipamentos de prevenção, detecção e apreensão. O calibre 5,56 mm manter-se-á seguramente como standard por longos anos.

Também a uniformização dos calibres nas diversas famílias de armas ligeiras constitui um problema que não é dispiciendo. Com funções de cobertura e suporte, existem as metralhadoras ligeiras, de apoio de secção, caracterizadas por grande cadência e volume de tiro. No nível mais baixo do espectro do armamento ligeiro, a arma de defesa pessoal (vulgarmente uma pistola), tem registado algumas evoluções, tendo-se dado ultimamente grandes passos no sentido de se conseguir uma arma pequena, com bastantes munições e elevada cadência de tiro e à qual, atendendo à natureza da sua missão, baste ser eficaz a curtas distâncias. No entanto, a questão da munição tem sido secundarizada, pelo que, por enquanto, se continua a manter o calibre 9 mm como o mais divulgado. De qualquer forma, razões de natureza logística, tornam incontornável que, independentemente do tipo e natureza de arma, se procure usar a mesma munição. Não é, contudo, evidente que a arma de apoio (metralhadora ligeira) e a espingarda automática tenham de fazer parte da mesma família. Algumas razões de logística de produção (algumas peças seriam comuns) podem justificar essa exigência mas, na realidade, essa orientação não foi adoptada pela maioria dos países da OTAN. Po exemplo, no grande mercado que são as Forças Armadas do E.U.A. coexistem a Colt M16 e a FN-Minimi.

  1. As questões operacionais

Na escolha da arma há que ter em atenção os prementes requisitos da ergonomia e da portabilidade à medida que as forças militares se procuram ajustar cada vez mais aos modernos conceitos de intervenção rápida. O crescente uso de APC (Armored Personal Carriers) em unidades mecanizadas e o reduzido espaço interior que lhes está associado implicam que as novas armas ligeiras devam ser curtas, leves e compactas. A resposta a este requisito é dada pelo formato bullpup, geralmente aceite como a terceira geração das espingardas automáticas (v.g. ilustrações seguintes).

Talvez por não serem muito fotogénicas em paradas e desfiles, as Forças Armadas portuguesas pouca importância têm dado a esta questão. Aliás, o próprio calibre generalizado continua a ser o 7,62, tendo sempre o programa da nova arma ligeira ficado relegado para as calendas gregas. As preferências tem sido dadas a brinquedos de mais vulto como os chaços dos M-60 ou os prestigiantes submarinos (prioritários, evidentemente, para os teatros de operações em que as NF se movimentam). No meio da indecisão e da indefinição, grassam os negócios avulso quase se chegando ao ponto de cada destacamento se equipar com a arma que mais lhe agrada. Os paraquedistas deram o mote adquirindo, há já alguns anos, a Galil. E, com a crescente falta de recursos, qualquer dia recorrem ao leasing ou aos penhores para as adquirir.

Afinal, parece que a supracitada afirmação do Latino Coelho permanece válida.

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* Auditor de Defesa Nacional e antigo Adjunto para as questões tecnológicas do Secretário de Estado da Defesa (1987-1992)

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