Ano I - Nº 5, Janeiro de 2007
Alameda Digital
Segurança e Defesa
DE BUENOS AIRES
O Julgamento de Péron

por Marcos Pinho de Escobar

Com a presidência de Kirchner os argentinos voltaram aos anos setenta – os chamados anos de chumbo. Desde a época de Alfonsín (1983-1989) e Menem (1989-1999), as chamadas leis de “obediência devida” e “ponto final”, acompanhadas pela amnistia concedida por este último a ambos os “lados” da confrontação armada – subversivos e militares –, possibilitaram que o país real pudesse virar a página de um período infernal de sua história recente e começasse a olhar para o futuro.

Eleito em 2003 com 22% dos votos Néstor Kirchner entra na Casa Rosada com o seu grupo de ex-montoneros, todos dispostos a sair à estacada contra os militares e o peronismo tradicional. Acto contínuo o novo presidente “decapita” três-quartos da cúpula das Forças Armadas e faz o possível e o impossível – sobretudo este último – para que sejam anuladas as leis e a amnistia que haviam conseguido pacificar o país. Mas há um pormenor: a anulação afecta apenas os militares que actuaram na anti-subversão. Terroristas e guerrilheiros continuam a gozar a vida em liberdade. Porque na mente de Kirchner & Cia., é perfeitamente aceitável que os seus camaradas tenham assassinado a torto e a direito, mesmo durante governos saídos de eleições livres. O que já é intolerável – crime de lesa-humanidade... – é que militares tenham ido ao seu encalço e os tenham tratado da mesma forma com que eles tratavam as sua vítimas. Por conta desta singular hemiplegia na visão do passado e no entendimento da justiça, desde então a situação aqui vivida é a do exercício diário do ódio e do ressentimento, é a reabertura de processos, é a perseguição a antigos oficiais, é a execração pública de qualquer indivíduo que tenha tido algum relacionamento com os governos do processo militar.

O mais recente episódio desta novela burlesca é a ordem de captura e pedido de extradição de María Estela Martínez de Perón, mais conhecida como Isabelita, viúva do general Perón, sua vice-presidenta e sucesora entre 1 de Julho de 74 e 24 de Março de 76. A senhora de 75 anos residente em Espanha e três dos seus ex-ministros terão de responder pelas assinaturas apostas em um decreto de 1975, o qual atribuía às Forças Armadas a tarefa de aniquilar a subversão terrorista e guerrilheira, cuja campanha de violência atingia níveis insuportáveis. Isabelita terá ainda de dar explicações sobre a Triple A, organização clandestina e para-estatal responsável pela quebra do monopólio da violência terrorista até então detido pela esquerda armada.

Mais do que um partido, o peronismo foi um movimento. Ou melhor: o peronismo foi Perón. E essa habilíssima raposa política, dotada de carisma extraordiário, conseguiu reunir sob o seu comando, e para serem utilizadas quando e como lhe conviesse, todas as posições do arco ideológico. De base nacional-sindicalista e inspiração mussoliniana, o peronismo foi “somando” adesões até chegar à extrema-esquerda. Do exílio madrilenho de Puerta de Hierro o general julgou oportuno incentivar as formações guerrilheiras de esquerda a golpear o governo militar, forçar a sua saída e assim abrir caminho para o regresso do gran conductor. Uma vez atingido o objetivo, Perón ordenou a “desmobilização” da juventude revolucionária e a sua integração obediente no esquema tradicional do peronismo. O antagonismo entre o peronismo tradicional e as formações guerrilheiras não podia ser mais evidente – a tensão subia continuamente e prenunciava uma catástrofe.

A guerra aberta entre as duas facções tem início no dia em que Perón retornou à Argentina (20/7/73), nas imediações do aeroporto de Ezeiza e junto a um imenso palco, à frente do qual três milhões de pessoas esperavam para dar as boas vindas ao leader justicialista. A disputa entre a direita peronista e os montoneros pelo protagonismo na manifestação acaba num imenso fogo cruzado de armas automáticas que saldou-se por centenas de vítimas, entre mortos e feridos.

A muchachada, embalada pelas cantigas da violência absoluta de Fanons e Ches, Maos e Castros, matou, sequestrou e assaltou à vontade, mas confundiu táctica com estratégia, apostou no “foquismo” mas a população “oprimida” não correu ao seu encontro. O mais grave: julgou que Perón regressava ao país para fazer la revolución e construir a pátria socialista – com eles, los muchachos, como vanguarda coberta de honras. Grave engano. O homem que apeado do poder foi de abalada para o Paraguay de Stroessner, a República Dominicana de Trujillo, a Venezuela de Pérez Gimenéz e, finalmente, a Espanha de Franco, onde permanece treze anos, não possuía o physique du rôle para conduzir a Argentina no rumo ao socialismo.

A guerrilha não só não se desmobiliza mas passa a incluir no seu rol de alvos, além de militares, políticos e empresários, figuras emblemáticas do peronismo de base, particularmente próximas a Perón. Entretanto, poucos meses mais tarde quebra-se o monopólio do terror detido pela esquerda blindada. De repente guerrilheiros, simpatizantes, militantes de esquerda e comunistas em geral, começam a ser abatidos. Era a Triple A, a Aliança Anticomunista Argentina, que entrava em acção.

Produto da estruturação de diversos sectores da direita peronista, até então sem experiência de luta armada e de clandestinidade, a organização parece ter sido formada por José Lopéz Rega, íntimo do casal Perón e ministro do Bienestar Social. Constituída no mesmo estilo do inimigo que cumpria abater – formação clandestina fortemente armada, com estrutura militar e importante actividade de inteligência – a Triple A tinha como objectivo o combate ao terrorismo de esquerda em seu próprio terreno e com as suas próprias armas.

Tendo entrado em actividade durante o governo do general Perón, a questão é saber qual o grau de envolvimento do velho leader com a organização. Após a morte deste, ocorrida a 1 de Julho de 74, a violência terrorista cresce em espiral e a Triple A chega ao seu zénite. Que sabia ou não sabia a presidenta? A questão é certamente espinhosa para o movimento peronista.

Mas que o ataque directo à herdeira de Perón – e indirecto ao próprio general – parta de quem fez carreira ao abrigo deste nome sonante é algo inacreditável. Ou talvez não. Em quatro anos de governo Kirchner e entourage jamais mencionaram o nome de Perón. Nem mesmo o traslado dos restos daquele que foi três vezes presidente da república contou com a participação do Estado.

Os objetivos de Kirchner são múltiplos. Fiel à táctica de buscar inimigos para desviar a atenção do dia-a-dia, está aí um acontecimento de grande impacto mediático. Por outro lado reforça a campanha de perseguição aos militares, buscando estabelecer o vínculo entre a repressão clandestina desencadeada a partir do Estado e a repressão militar posterior. É sobretudo um ajuste de contas com o peronismo tradicional, velho e figadal inimigo. Ao investir contra a herdeira do mítico estadista, Kirchner pretende sentar no banco dos réus todos aqueles que estiveram na proximidade do poder de então. E por último: Kirchner aposta alto e desvencilha-se de uma vez por todas da imagem de Perón, oficializando o seu próprio movimento, identificado com as referências da esquerda setentista.

Já havia declarado guerra aos militares e aos seus colaboradores civis. Agora declara guerra ao peronismo. Entre mortos e feridos alguém há-de sobreviver.

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