DE BUENOS AIRES
O Julgamento de Péron
por Marcos Pinho de Escobar
Com a presidência de Kirchner os argentinos
voltaram aos anos setenta – os chamados anos de chumbo. Desde a
época de Alfonsín (1983-1989) e Menem (1989-1999), as
chamadas leis de “obediência devida” e “ponto final”,
acompanhadas pela amnistia concedida por este último a ambos
os “lados” da confrontação armada – subversivos e
militares –, possibilitaram que o país real pudesse virar a
página de um período infernal de sua história
recente e começasse a olhar para o futuro.
Eleito em 2003 com 22% dos votos Néstor
Kirchner entra na Casa Rosada com o seu grupo de
ex-montoneros, todos dispostos a sair à estacada contra
os militares e o peronismo tradicional. Acto contínuo o novo
presidente “decapita” três-quartos da cúpula das
Forças Armadas e faz o possível e o impossível –
sobretudo este último – para que sejam anuladas as leis e a
amnistia que haviam conseguido pacificar o país. Mas há
um pormenor: a anulação afecta apenas os militares que
actuaram na anti-subversão. Terroristas e guerrilheiros
continuam a gozar a vida em liberdade. Porque na mente de Kirchner &
Cia., é perfeitamente aceitável que os seus camaradas
tenham assassinado a torto e a direito, mesmo durante governos saídos
de eleições livres. O que já é
intolerável – crime de lesa-humanidade... – é que
militares tenham ido ao seu encalço e os tenham tratado da
mesma forma com que eles tratavam as sua vítimas. Por conta
desta singular hemiplegia na visão do passado e no
entendimento da justiça, desde então a situação
aqui vivida é a do exercício diário do ódio
e do ressentimento, é a reabertura de processos, é a
perseguição a antigos oficiais, é a execração
pública de qualquer indivíduo que tenha tido algum
relacionamento com os governos do processo militar.
O mais recente episódio desta novela
burlesca é a ordem de captura e pedido de extradição
de María Estela Martínez de Perón, mais
conhecida como Isabelita, viúva do general Perón, sua
vice-presidenta e sucesora entre 1 de Julho de 74 e 24 de Março
de 76. A senhora de 75 anos residente em Espanha e três dos
seus ex-ministros terão de responder pelas assinaturas apostas
em um decreto de 1975, o qual atribuía às Forças
Armadas a tarefa de aniquilar a subversão terrorista e
guerrilheira, cuja campanha de violência atingia níveis
insuportáveis. Isabelita terá ainda de dar explicações
sobre a Triple A, organização clandestina e
para-estatal responsável pela quebra do monopólio da
violência terrorista até então detido pela
esquerda armada.
Mais do que um partido, o peronismo foi um
movimento. Ou melhor: o peronismo foi Perón. E essa
habilíssima raposa política, dotada de carisma
extraordiário, conseguiu reunir sob o seu comando, e para
serem utilizadas quando e como lhe conviesse, todas as posições
do arco ideológico. De base nacional-sindicalista e inspiração
mussoliniana, o peronismo foi “somando” adesões até
chegar à extrema-esquerda. Do exílio madrilenho de Puerta de Hierro o general julgou oportuno incentivar as
formações guerrilheiras de esquerda a golpear o governo
militar, forçar a sua saída e assim abrir caminho para
o regresso do gran conductor. Uma vez atingido o objetivo,
Perón ordenou a “desmobilização” da
juventude revolucionária e a sua integração
obediente no esquema tradicional do peronismo. O antagonismo entre o
peronismo tradicional e as formações guerrilheiras não
podia ser mais evidente – a tensão subia continuamente e
prenunciava uma catástrofe.
A guerra aberta entre as duas facções
tem início no dia em que Perón retornou à
Argentina (20/7/73), nas imediações do aeroporto de
Ezeiza e junto a um imenso palco, à frente do qual três
milhões de pessoas esperavam para dar as boas vindas ao leader justicialista. A disputa entre a direita peronista e os montoneros pelo protagonismo na manifestação acaba num imenso fogo
cruzado de armas automáticas que saldou-se por centenas de
vítimas, entre mortos e feridos.
A muchachada, embalada pelas cantigas da
violência absoluta de Fanons e Ches, Maos e Castros, matou,
sequestrou e assaltou à vontade, mas confundiu táctica
com estratégia, apostou no “foquismo” mas a população
“oprimida” não correu ao seu encontro. O mais grave:
julgou que Perón regressava ao país para fazer la revolución e construir a pátria socialista –
com eles, los muchachos, como vanguarda coberta de honras.
Grave engano. O homem que apeado do poder foi de abalada para o
Paraguay de Stroessner, a República Dominicana de Trujillo, a
Venezuela de Pérez Gimenéz e, finalmente, a Espanha de
Franco, onde permanece treze anos, não possuía o physique du rôle para conduzir a Argentina no rumo ao
socialismo.
A guerrilha não só não se
desmobiliza mas passa a incluir no seu rol de alvos, além de
militares, políticos e empresários, figuras
emblemáticas do peronismo de base, particularmente próximas
a Perón. Entretanto, poucos meses mais tarde quebra-se o
monopólio do terror detido pela esquerda blindada. De repente
guerrilheiros, simpatizantes, militantes de esquerda e comunistas em
geral, começam a ser abatidos. Era a Triple A, a
Aliança Anticomunista Argentina, que entrava em acção.
Produto da estruturação de diversos
sectores da direita peronista, até então sem
experiência de luta armada e de clandestinidade, a organização
parece ter sido formada por José Lopéz Rega, íntimo
do casal Perón e ministro do Bienestar Social.
Constituída no mesmo estilo do inimigo que cumpria abater –
formação clandestina fortemente armada, com estrutura
militar e importante actividade de inteligência – a Triple
A tinha como objectivo o combate ao terrorismo de esquerda em seu
próprio terreno e com as suas próprias armas.
Tendo entrado em actividade durante o governo do
general Perón, a questão é saber qual o grau de
envolvimento do velho leader com a organização.
Após a morte deste, ocorrida a 1 de Julho de 74, a violência
terrorista cresce em espiral e a Triple A chega ao seu zénite.
Que sabia ou não sabia a presidenta? A questão é
certamente espinhosa para o movimento peronista.
Mas que o ataque directo à herdeira de
Perón – e indirecto ao próprio general – parta de
quem fez carreira ao abrigo deste nome sonante é algo
inacreditável. Ou talvez não. Em quatro anos de
governo Kirchner e entourage jamais mencionaram o nome de
Perón. Nem mesmo o traslado dos restos daquele que foi três
vezes presidente da república contou com a participação
do Estado.
Os objetivos de Kirchner são múltiplos.
Fiel à táctica de buscar inimigos para desviar a
atenção do dia-a-dia, está aí um
acontecimento de grande impacto mediático. Por outro lado
reforça a campanha de perseguição aos militares,
buscando estabelecer o vínculo entre a repressão
clandestina desencadeada a partir do Estado e a repressão
militar posterior. É sobretudo um ajuste de contas com o
peronismo tradicional, velho e figadal inimigo. Ao investir contra a
herdeira do mítico estadista, Kirchner pretende sentar no
banco dos réus todos aqueles que estiveram na proximidade do
poder de então. E por último: Kirchner aposta
alto e desvencilha-se de uma vez por todas da imagem de Perón,
oficializando o seu próprio movimento, identificado com as
referências da esquerda setentista.
Já havia declarado guerra aos militares e
aos seus colaboradores civis. Agora declara guerra ao peronismo.
Entre mortos e feridos alguém há-de sobreviver.
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