Clínica das Letras
por Bruno
Oliveira Santos
A arte
do manifesto Poucos dominaram como Almada o estilo próprio
do manifesto, o seu registo peculiar, desde o tom geral de polémica
e verrina aos aspectos técnicos do texto: a construção
assindética, o discurso narrativo oralizante, a personalização
do inimigo. Os seus textos de intervenção brilham na
firmeza provocatória (“Portugal é um país
de fracos”; “O Povo completo será aquele que tiver reunido
no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos.
Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades”) e
insistem no matiz politicamente incorrecto (“Os
interesses dos partidos prejudicam sempre o interesse comum da
pátria”). Os futuristas nunca passam de moda.
[José
de Almada Negreiros, Manifestos e Conferências, Assírio
& Alvim, 2006, 400 págs., €29,40]
Os
Amantes Veio a lume a 9.ª edição de “Os
Amantes e Outros Contos”, de David Mourão-Ferreira, editado
pela primeira vez em 1968. É o mais assisado título do
autor, que escreveu quase sempre sob o signo de Eros. Elejo o melhor
conto: «O Viúvo», texto marcado pelo regresso ao
passado e a nostalgia da juventude — Adriano, o falso viúvo,
regressa a um hotel à beira-mar, onde foi feliz há 20
anos. Um texto brilhante cuja trama lembra o recente “The Sea”,
do irlandês John Banville.
[David
Mourão-Ferreira, Os Amantes e Outros Contos, Presença,
2006, 144 págs., €11,90]
O
Rembrandt dos Nabasco Uma abastada família nortenha possui
uma cópia do famoso quadro «A Ronda da Noite». É
o ponto de partida para a história duma obsessão, com
Rembrandt como pano de fundo. A Agustina continua em grande forma.
[Agustina
Bessa-Luís, A Ronda da Noite, Guimarães
Editores, 2006, 364 págs., €18]
Russos É impressionante a galeria de grandes literatos russos do
século XIX. Assim a trouxe-mouxe: Gogol, Pushkin, Tourgueniev,
Dostoievski, Nekrasov, Saltykov-Chtchedrine, Tchékhov e
Tolstoi. Dos dois últimos, acaba de lançar a Relógio
d’Água duas obras fundamentais. De Tchékhov, quatro
peças de teatro. (E para quando os contos, alguns sublimes,
como “O louco” ou “O fósforo sueco”?) De Tolstoi, o
celebrado romance “Anna Karénina”, com posfácio de
Vladimir Nabokov. Uma obra do tempo em que os adultérios
terminavam em suicídio. Longe pois da actualidade, em que
terminam invariavelmente num clima de regozijo, com festa de
despedida de casada e tudo, na qual participa não raras
vezes o próprio marido.
[Anton
Tchékhov, A Gaivota e Outras Peças, Relógio
d’Água, 2007, tradução de Nina Guerra e Filipe
Guerra, 313 págs., €16; Lev Tolstoi, Anna Karénina,
Relógio d’Água, 2006, trad. de António
Pescada, 858 págs., €35]
Cotovia A literatura húngara é quase desconhecida entre nós.
Nomes grandes como Petöfi ou Sándor Márai
permanecem praticamente ignorados. Em matéria de divulgação,
ficam aquém dos romenos, como Cioran, Ionesco e Mircea Eliade,
e até mesmo dos ex-vizinhos checos, como Kafka, Kundera ou
Havel. Não espanta, por isso, a discrição com
que foi recebido o romance “Cotovia”, de Dezsö Kosztolányi.
Membro da primeira geração da revista Nyugat
(“Ocidente”), de que foi co-fundador em 1908, Kosztolányi
é poeta e sobretudo prosador de mão cheia. Os seus
textos caracterizam-se por um enredo ligeiro e grande densidade
psicológica. Mais ou menos ignorado, é um autor
importante da primeira metade do século XX.
[Dezsö
Kosztolányi, Cotovia, Dom Quixote, 2006, trad. de
Ernesto Rodrigues, 200 págs., €13,75]
Um
romance em 12 peixes Falsificador de arte, ladrão e
assassino, Billy Gould seria no Portugal
moderno um «empreendedor» de sucesso. Infelizmente para
ele, nasceu no início do século XIX e foi pelos seus
actos condenado a prisão perpétua na Tasmânia.
Redimiu-se face aos vindouros porque era pintor. E ainda hoje os seus
quadros podem ser admirados no Museu Queen Victoria, em Launceston,
na Inglaterra.
Com estes
materiais Richard Flanagan escreveu “O Livro dos Peixes de Gould”,
em que cada um dos doze capítulos leva por título e
estampa um dos peixes pintados por Gould.
A obra
dá-nos uma visão desencantada do colonialismo inglês
e está para os peixes como Moby Dick para as baleias.
Para quem domina o idioma, a leitura desta edição da
Dom Quixote não dispensa a versão original. É
que Flanagan, para lá da trama bem urdida, cunha novos termos,
alguns preciosos, como deadflog, mollynogging e odourphilic. Ao ler as desventuras desta personagem real, é impossível
não traçar o paralelo com aquele seu homónimo de
Joseph Mitchell — o boémio e excêntrico Joe Gould.
Este perdido de livre nas ruas de Nova Iorque, às voltas com a
sua “História Oral”; e aquele livre, ainda assim livre à
sua maneira, na prisão da ilha Sarah, então terra de
Van Diemen, na actual Tasmânia.
[Richard
Flanagan, O Livro dos Peixes de Gould, Dom Quixote, 2006,
trad. de José Couto Nogueira, 387 págs., €22]
Eu,
Valerie Há cinquenta anos certos, em 1957, o grandíssimo
poeta e crítico inglês T. S. Eliot casou com a jovem
Valerie Fletcher, secretária da Faber & Faber, com quem se
divertia usualmente no calor da noite londrina. Ele carregava com 68
anos; ela florescia nos 30. Não sei por que me ocorreu este
episódio das suas vidas pessoais. Talvez por motivo do embate
próximo entre o Chelsea e o F.C. Porto na mesmíssima
Londres de Eliot. O poeta, porém, nem sequer gostava de
futebol. |