Ano I - Nº 5, Janeiro de 2007
Alameda Digital
Segurança e Defesa
Clínica das Letras

por Bruno Oliveira Santos

A arte do manifesto Poucos dominaram como Almada o estilo próprio do manifesto, o seu registo peculiar, desde o tom geral de polémica e verrina aos aspectos técnicos do texto: a construção assindética, o discurso narrativo oralizante, a personalização do inimigo. Os seus textos de intervenção brilham na firmeza provocatória (“Portugal é um país de fracos”; “O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades”) e insistem no matiz politicamente incorrecto (“Os interesses dos partidos prejudicam sempre o interesse comum da pátria”). Os futuristas nunca passam de moda.
[José de Almada Negreiros, Manifestos e Conferências, Assírio & Alvim, 2006, 400 págs., €29,40]

Os Amantes Veio a lume a 9.ª edição de “Os Amantes e Outros Contos”, de David Mourão-Ferreira, editado pela primeira vez em 1968. É o mais assisado título do autor, que escreveu quase sempre sob o signo de Eros. Elejo o melhor conto: «O Viúvo», texto marcado pelo regresso ao passado e a nostalgia da juventude — Adriano, o falso viúvo, regressa a um hotel à beira-mar, onde foi feliz há 20 anos. Um texto brilhante cuja trama lembra o recente “The Sea”, do irlandês John Banville.
[David Mourão-Ferreira, Os Amantes e Outros Contos, Presença, 2006, 144 págs., €11,90]

O Rembrandt dos Nabasco Uma abastada família nortenha possui uma cópia do famoso quadro «A Ronda da Noite». É o ponto de partida para a história duma obsessão, com Rembrandt como pano de fundo. A Agustina continua em grande forma.
[Agustina Bessa-Luís, A Ronda da Noite, Guimarães Editores, 2006, 364 págs., €18]

Russos É impressionante a galeria de grandes literatos russos do século XIX. Assim a trouxe-mouxe: Gogol, Pushkin, Tourgueniev, Dostoievski, Nekrasov, Saltykov-Chtchedrine, Tchékhov e Tolstoi. Dos dois últimos, acaba de lançar a Relógio d’Água duas obras fundamentais. De Tchékhov, quatro peças de teatro. (E para quando os contos, alguns sublimes, como “O louco” ou “O fósforo sueco”?) De Tolstoi, o celebrado romance “Anna Karénina”, com posfácio de Vladimir Nabokov. Uma obra do tempo em que os adultérios terminavam em suicídio. Longe pois da actualidade, em que terminam invariavelmente num clima de regozijo, com festa de despedida de casada e tudo, na qual participa não raras vezes o próprio marido.
[Anton Tchékhov, A Gaivota e Outras Peças, Relógio d’Água, 2007, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, 313 págs., €16; Lev Tolstoi, Anna Karénina, Relógio d’Água, 2006, trad. de António Pescada, 858 págs., €35]

Cotovia A literatura húngara é quase desconhecida entre nós. Nomes grandes como Petöfi ou Sándor Márai permanecem praticamente ignorados. Em matéria de divulgação, ficam aquém dos romenos, como Cioran, Ionesco e Mircea Eliade, e até mesmo dos ex-vizinhos checos, como Kafka, Kundera ou Havel. Não espanta, por isso, a discrição com que foi recebido o romance “Cotovia”, de Dezsö Kosztolányi. Membro da primeira geração da revista Nyugat (“Ocidente”), de que foi co-fundador em 1908, Kosztolányi é poeta e sobretudo prosador de mão cheia. Os seus textos caracterizam-se por um enredo ligeiro e grande densidade psicológica. Mais ou menos ignorado, é um autor importante da primeira metade do século XX.
[Dezsö Kosztolányi, Cotovia, Dom Quixote, 2006, trad. de Ernesto Rodrigues, 200 págs., €13,75]

Um romance em 12 peixes Falsificador de arte, ladrão e assassino, Billy Gould seria no Portugal moderno um «empreendedor» de sucesso. Infelizmente para ele, nasceu no início do século XIX e foi pelos seus actos condenado a prisão perpétua na Tasmânia. Redimiu-se face aos vindouros porque era pintor. E ainda hoje os seus quadros podem ser admirados no Museu Queen Victoria, em Launceston, na Inglaterra.
Com estes materiais Richard Flanagan escreveu “O Livro dos Peixes de Gould”, em que cada um dos doze capítulos leva por título e estampa um dos peixes pintados por Gould.
A obra dá-nos uma visão desencantada do colonialismo inglês e está para os peixes como Moby Dick para as baleias. Para quem domina o idioma, a leitura desta edição da Dom Quixote não dispensa a versão original. É que Flanagan, para lá da trama bem urdida, cunha novos termos, alguns preciosos, como deadflog, mollynogging e odourphilic. Ao ler as desventuras desta personagem real, é impossível não traçar o paralelo com aquele seu homónimo de Joseph Mitchell — o boémio e excêntrico Joe Gould. Este perdido de livre nas ruas de Nova Iorque, às voltas com a sua “História Oral”; e aquele livre, ainda assim livre à sua maneira, na prisão da ilha Sarah, então terra de Van Diemen, na actual Tasmânia.
[Richard Flanagan, O Livro dos Peixes de Gould, Dom Quixote, 2006, trad. de José Couto Nogueira, 387 págs., €22]

Eu, Valerie Há cinquenta anos certos, em 1957, o grandíssimo poeta e crítico inglês T. S. Eliot casou com a jovem Valerie Fletcher, secretária da Faber & Faber, com quem se divertia usualmente no calor da noite londrina. Ele carregava com 68 anos; ela florescia nos 30. Não sei por que me ocorreu este episódio das suas vidas pessoais. Talvez por motivo do embate próximo entre o Chelsea e o F.C. Porto na mesmíssima Londres de Eliot. O poeta, porém, nem sequer gostava de futebol.

   
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