A desmontagem das Forças Armadas
por Luís Atapalha
Um dos problemas essenciais inerentes a qualquer
sociedade organizada em Estado independente é o da Soberania,
ponto fulcral da sobrevivência dessa mesma sociedade. Em todas
elas existem grupos de indivíduos, hierarquicamente
organizados, cuja função social é constituírem
um garante directo e objectivo não só do factor de
preservação mais palpável, a territorialidade,
como também de qualquer eventualmente necessária
projecção externa de Poder como suporte à defesa
dos interesses fundamentais da Nação. Esses grupos
constituem aquilo que geralmente se designa por Forças
Armadas; elas são portanto formadas pelos indivíduos
sobre cujos ombros repousa uma das mais altas responsabilidades
sociais — a defesa do Permanente, ou seja da essência do
agregado humano a que pertencem. Negligenciar, corromper, abastardar
ou humilhar as Forças Armadas apenas servirá para, em
última análise, degradar e aumentar as vulnerabilidades
da Nação. Para essa mesma ordem de ideias concorre a
tendência, dita alternativa, para alienar para terceiros, a
defesa militar. Esta atitude, que surge uma vez por outra de maneira
descarada e, mais frequentemente, de forma subliminar, é a
imagem de marca de uma política demissionista e irresponsável.
Essas orientações, justificadas amiúde como
medidas de poupança e prioritização orçamental,
procuram quase sempre escamotear uma manifestação
efectiva de anti-militarismo primário e de torpe pacifismo
nefelibata. Sabe o Povo que a melhor forma de evitar uma agressão
é demonstrar que se está preparado para a enfrentar,
incutindo no adversário a convicção de que,
mesmo em situação de manifesta superioridade, lhe
poderá sair muito cara a confrontação. Confiar
apenas em terceiros, mesmo que conjunturalmente aliados, é
esquecer os ensinamentos da História e ignorar os mecanismos
que norteiam as Relações Internacionais. Poder, Força
e Interesses são argumentos que, na prática, se
sobrepõem sem rebuço a Amizade, Paz ou Cooperação.
A dinâmica da afirmação dos Estados e das Nações
é tendencialmente elitista; tal como entre os indivíduos,
também entre as Nações há umas mais
iguais que outras. O pendor aristocrático que resulta da
natural hierarquização das Nações é
uma realidade evidente embora não tenha o carácter
estático e definitivo que, na análise contextual, por
vezes se é levado a aceitar. A confirmá-lo, basta
recordar a involução da Rússia no ranking das Nações…
É por isso que as Forças Armadas devem ser
a Reserva última, o garante da soberania essencial que reside
no âmago da Nação e que, contra ventos e marés,
deve poder traduzir a vontade intrínseca do Povo. Não
é, afinal, isso o que decorre da verdadeira natureza da
Democracia? Mas para isso, é igualmente fundamental que,
sobretudo quando as orientações políticas falham
ou são incorrectas, os Militares não colaborem, mesmo
que involuntariamente, com a campanha de descrédito que mina
as Forças Armadas, dando azo a incompreensões,
suspeições e más-vontades por um excessivo
egoísmo corporativista, por uma sobrevalorização
imoral dos interesses particulares sobre os colectivos ou, no outro
extremo, por uma equívoca confusão entre subordinação
e subserviência.
No nosso País, opções como a que
demagogicamente provocou o fim do recrutamento militar obrigatório
são profundamente nefastas. Simbolicamente, o cumprimento das
obrigações militares, em condições de
normalidade, marca claramente para o indivíduo uma atitude de
pertença à qual ele não pode fugir. A sua
suspensão permitiu introduzir mais um elemento de desagregação
na coesão identitária colectiva. As demonstrações
e exercícios de solidariedade e de unidade colectivas são
ainda mais importantes numa sociedade cada vez mais urbana e
concentracionária que, dia a dia, perde as suas raízes
e as ligações com o país profundo onde a
Tradição ainda está enraizada e é
gostosamente cultivada.
Aquilo que sentimos hoje é que a afirmação
do tipo anti-herói grassa, pervertendo a ética e a
estética nacionais, fomentando a dúvida e o
desrespeito. Camuflada muitas vezes na exaltação
falaciosa do fraco e do objector sistemático, é
acintosamente apoiada, amiúde, por campanhas subsidiadas com o
dinheiro dos nossos impostos. Tudo isso concorre para provocar uma
depressão moral que facilita o desalento, a inércia e o
derrotismo.
Se, na galeria mitológica que ainda nos
condiciona mentalmente, Liberdade e Igualdade aparecem hoje
irremediavelmente desgastadas, já a Fraternidade internacional
subsiste. Reforçada pelas energias recambiadas dos outros dois
bastiões filosóficos, cada vez menos apelativos,
continua a produzir estragos nas forças centrípetas da
coesão nacional. É talvez em nome dela que em Portugal
os Poderes dominantes promovem a extinção ou pelo menos
atenuação da invocação e comemoração
pública dos aniversários das glórias pátrias.
Qualquer dia deixaremos de comemorar Aljubarrota para não
ofender os espanhóis, ou relembrar os Heróis de Mucaba
e Nambuangongo para não irritar os angolanos, ou mesmo evocar
Chaimite, Marracuene ou Coolela para não indispor os
moçambicanos. O Exército, aliás, já
retirou o seu apoio às comemorações de
Aljubarrota ajudando assim a dar um passo importante nesse sentido.
Resta-nos, obviamente, comemorar as derrotas que essas, aparentemente
não ofendem ninguém. Talvez por isso tenha surgido a
insigne ideia de transferir as comemorações do dia do
Combatente do significativo e ideologicamente neutro 10 de Junho para
9 de Abril. Como é sabido, esta data evoca apenas a
maior derrota que as Forças Armadas Portuguesas sofreram no
séc. XX - a batalha de La Lys, consequência da
irresponsável política intervencionista dos socialistas
de então. Mas o que é verdadeiramente preocupante e
lamentável é que algumas associações de
ex-combatentes se tenham deixado instrumentalizar, com a conivência
cúmplice de altas esferas militares, apoiando a iniciativa
patrocinada por altos Poderes do Estado. Enfim, haja Saúde e
Fraternidade e, é claro, subsídios… |