Ano I - Nº 5, Janeiro de 2007
Alameda Digital
Segurança e Defesa
CRÓNICAS DE UM LUSITANO INTERIOR NA ÁLBION
Rendição ou estupidez?

por Rafael Castela Santos

Uma das características mais interessantes da Grã-Bretanha é o seu apreço pelo militarismo no sentido mais genérico da palavra. Uma explicação plausível para esta atitude pode assentar no valor de cada vitória nas recentes Guerras Mundiais, na ligação a um passado imperial, num passado já de si recheado de vitórias e na sua complexa história. As prateleiras estão cheias de livros de história militar, as exposições e os desfiles militares têm um público numeroso e atento, e esses temas surgem repetidamente quer nas conversas quer nos media.

A política militar da Grã-Bretanha só não tem competido em pé de igualdade com a dos Estados Unidos devido a situações obscuras. Recordemos, por exemplo, o escândalo do TR2, um avião de grande superioridade tecnológica nos anos sessenta e que foi travado por estranhos interesses político-económicos. A excelente capacidade de investigação e de desenvolvimento da Grã-Bretanha no campo do armamento está acima de qualquer dúvida. Prova disso é a sua elevada tecnologia aeroespacial e naval.

E no entanto, algo vai mal em todo este processo. As Forças Armadas britânicas enfrentam sérios problemas de recrutamento, o que não deixa de ter alguma lógica dado que a grande número dos cidadãos das terras de "Sua Majestade" falta vocação para bombardear sérvios, matar afegãos, liquidar iraquianos ou servir de marionetas às companhias petrolíferas.

Além disso, não existe vontade de defesa. Poder-se acreditar que um exército profissional de pouco mais de 100 000 homens (e mulheres) possa defender um país como a Grã-Bretanha, mesmo considerando forças reservistas tais como a Territorial Army, não augura nada de bom. E no entanto, a população britânica acredita piamente que os seus soldados não só cumprirão a sua missão como também que o farão de forma competente. E por isso o britânico poderá seguir tranquilamente qualquer contratempo através da televisão.

Não é apenas entre a sociedade civil que se encontra esta tendência. A Royal Navy ainda não recuperou completamente das perdas sofridas durante a Guerra das Malvinas, em boa parte porque não tem existido um verdadeiro desejo de que ela recupere a posição que detinha até 1982. Este facto, que é grave sobretudo num país obrigado pela sua extensão geográfica a ser uma potência naval, leva-nos a perguntar qual será ao preço a pagar por esta vitória de Pirro.

Torna-se patético observar que, enquanto o governo inglês considera seus inimigos países como o Irão, lá longe destas latitudes, já o não faz em relação a outros países como a Rússia, que se está a armar até aos dentes e cuja ameaça terrível se abate sobre a Europa. A rede de radares existente na Escócia desde os tempos da guerra fria e que servia de alerta a uma possível ameaça soviética, está de momento semi-desactivada, se é que não foi mesmo deixada deteriorar por falta de modernização. Já a Rússia tem mantido ao longo dos tempos certos "interesses" nestas ilhas, o que não só se explica através de uma forte rede de espionagem existente ao longo de anos e que em muitos casos é procedente das Universidades de Cambridge e de Oxford o que historicamente se pode demonstrar, como também se verifica que essa espionagem se mantém activa, facto para o qual a imprensa frequentemente tem alertado.

Perante semelhante panorama é altura de nos perguntarmos se a sociedade britânica, gravemente atingida por um hedonismo e um consumismo que ultrapassam a imaginação mais delirante, tem realmente vontade de se defender. A diferença entre gerações é grave dado que aqueles que protagonizaram os grandes feitos da Segunda Guerra Mundial, fora e dentro de casa, estão a morrer por ter chegado a sua hora. E os que se lhes seguiram não têm, nem se vislumbra que possam vir a ter, a integridade e a capacidade de sofrimento que foram ao longo dos tempos uma das maiores virtudes dos britânicos. Confiar apenas na tecnologia e nuns poucos homens (para mais, dispersos por todo o mundo) suficientes apenas para formar uma força de autodefesa, pode criar uma situação de grande vulnerabilidade, sobretudo se não for tomada em devida consideração a ameaça que vem do Leste e que tem minado o Reino Unido no que toca à inteligência; assim, só se levanta uma dúvida em relação à defesa do Reino Unido: tratar-se-á de uma rendição a priori ou muito simplesmente de mera estupidez?

Lamentavelmente, há séculos que a Grã-Bretanha se não defende a si própria mas apenas a inúmeros interesses espúrios. Os ricos e os poderosos deste mundo são os mesmos que catapultaram este belíssimo país para a hegemonia e os mesmos que depois se desembaraçaram dele. Olhar para si própria, defender-se para ser (ou ser para se defender), identificar claramente o potencial inimigo e regenerar os recursos humanos devem ser as estratégias mais adequadas. Mas nenhuma destas parece ser a linha de força da segurança e defesa britânicas.

Hoje em dia, sob o verniz superficial duma aparente prosperidade e com algum poder (para mais utilizados iniquamente) a Grã-Bretanha caminha a passos largos para a insegurança e para uma falta de defesa. Deverá ser motivo de debate saber se esta queda é provocada pela rendição ou pela estupidez (ou por outra qualquer razão distinta e ainda pior do que as anteriores). Temo que mais cedo do que acreditamos esta linda terra britânica, outrora conhecida como Mary's Dowry, em honra de Nossa Senhora, esteja a ser pisada por botas russas. Esta mesma terra a quem o protestantismo arrancou iniquamente a veneração que era devida à Mãe de Deus.

Ou talvez até por isso mesmo: para que a Inglaterra volte a ser a Mary's Dowry.

A segurança deve assentar em Alfredo, o Grande, em Santo Eduardo, em Santo Aelred, em São Tomás Morus. A segurança da Grã-Bretanha e a sua defesa sempre estarão no espírito que lhe deu vida e que a viu nascer. Não nas máquinas; não num punhado de soldados profissionais; não na co-habitação com alguma Lógia nem numa união perversa entre Londres e Nova Iorque. A segurança estará, certamente que estará, na vontade de se defender lutando por princípios. Os princípios da Cristandade dos quais a Inglaterra está há tanto tempo arredada. Sem o verdadeiro espírito não poderá haver segurança porque nada haverá para defender.

A segurança, numa palavra, está em ser. E "ser é defender-se", como insistia o anglo-hispânico Ramiro de Maeztu Whitney.

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