Um
caso de barbárie soviética
-
Desumanidade e descivilização na Rússia dos anos
30
por Abel Morais
Na
Primavera de 1933 são desembarcadas cerca de cinco mil pessoas
numa ilha perdida do rio Ob, na Sibéria Ocidental. A ilha é
a de Nazino e destes cinco mil deportados, dois terços
acabarão por perecer de fome, frio, doença, alguns
vítimas de canibalismo.
Escassa
percentagem do total de deportados nesse ano em toda a União
Soviética, o destino trágico dos abandonados de Nazino
interessou Nicolas Werth como exemplo da lógica do regime e
dos seus objectivos de política geral. Considerado hoje um dos
principais investigadores franceses do período soviético
da história russa, o autor de L’Ile des Cannibales demonstra a fragilidade do regime, sentida a partir da liderança,
a inadequação das suas políticas, os erros
derivados dos «entusiasmos» de dirigentes locais e forças
de segurança, o irrealismo das opções feitas no
Kremlin, a obsessão com a consolidação do poder
e o controlo da realidade social.
As
páginas desta obra de Werth (um dos co-autores de Le Livre
Noir du Communisme) concentram-se num dos períodos
decisivos de confirmação do regime soviético,
que acelera nesta época – início dos anos 30 – a
erradicação dos camponeses proprietários, ao
mesmo tempo que principia a limpeza política e social dos
grandes centros urbanos destinados a transformarem-se «em
montras do socialismo», como referem os textos oficiais.
Processos que vão culminar numa repressão arbitrária
e cega, assente numa lógica de desumanização que
transformou anónimos russos em opositores políticos –
reais ou imaginados – e, de seguida, em bandos armados combatendo
para sobreviver, ainda que ingloriamente.
O
palco destes combates vai ser a Sibéria, o extremo oriental da
URSS, para onde são deportados em massa todos aqueles que o
regime define como «elementos sem classe e socialmente
indesejáveis». Forçados a organizar-se em grupos
de guerrilha, conseguem por vezes resistir anos a fio, saqueando
unidades agrícolas e enfrentando as forças da ordem
soviética na região.
Primeiro
investigador ocidental a consultar a documentação da
comissão de inquérito que investigou na época o
sucedido em Nazino, o autor refere que, em meados dos anos 30, «o
banditismo é endémico nos Urais e na Sibéria,
principais regiões de deportação e concentração
de marginais», sendo um facto que o poder soviético
quase não procede a distinções nem a tratamento
diferenciado perante criminosos de delito comum e quaisquer outros
indivíduos que entenda perseguir como «sabotadores e
divisionistas» ou «cúmplices dos serviços
secretos das potências estrangeiras».
Ironia
das ironias, entre aqueles «indesejáveis» indignos
de viverem nas «montras do socialismo» está largo
número de militantes do partido comunista que, interpelados em
rusgas por vezes à porta de casa, não tendo consigo os
documentos necessários, acabam por ser detidos e vão
partilhar a mesma sorte dos «inimigos do socialismo». É,
aliás, uma exposição a Estaline, feita por um
jornalista e membro do partido, Vassilii Arsenievitch Velitchko,
sobre inúmeros casos que detectou de militantes e
simpatizantes comunistas alvo daquele procedimento, que levará
a uma posterior rectificação do «plano grandioso»
do então responsável pela polícia política
do regime, Genrikh Iagoda.
Numa
linguagem de entusiasmo transbordante, Iagoda previa a deportação
para a Sibéria e Cazaquistão, em 1933, de dois milhões
de «elementos poluentes da sociedade socialista em construção».
Entre estes estão os deportados de Nazino – 332 mulheres e
4556 homens. A maioria sem energias para conseguir sequer pôr-se
de pé quando chega à ilha.
Provenientes
de algumas das principais cidades russas, são deixados em
Nazino praticamente sem alimentos ou utensílios, apenas
farinha, sementes e algumas pás e picaretas. Era suposto estas
pessoas – entre as quais se contam mulheres grávidas,
crianças, idosos – construírem as suas habitações
e garantirem a sua subsistência, constituírem uma força
de trabalho ao serviço do regime, povoando uma das áreas
mais remotas, mas também mais ricas em recursos naturais do
espaço soviético. Em poucas semanas, uns tentam a fuga
em jangadas improvisadas, enquanto a maioria definha inexoravelmente.
O poder soviético inventara uma nova forma de massacre.
Estas
pessoas, na grande maioria habituadas à vida nas cidades, «não
tendo o espírito nem os recursos dos camponeses», como
notava um responsável local, não tinham condições
para enfrentar a vida numa região inóspita. O resultado
será o fracasso abjecto de uma utopia de engenharia social e
da máquina policial, política e administrativa de um
regime incapaz de se perpetuar no poder excepto pela repressão.
Um
dos aspectos que Werth demonstra de forma elucidativa é como o
regime soviético procura deliberadamente destruir todas as
formas de relacionamento interpessoal e as características da
sociedade russa. O objectivo é impedir a expressão da
solidariedade inerente ao processo de relacionamento presente em
qualquer comunidade e a destruição de qualquer
referência civilizacional, reduzindo toda e qualquer pessoa a
uma entidade orientada exclusivamente para a sobrevivência e
alheia a qualquer tipo de altruísmo, ajuda ou contacto,
aspectos constituintes de uma relação social.
Um
indivíduo orientado exclusivamente para a sua preservação
desrespeita todas as regras e esquece os outros para se defender a si
próprio. Esta é uma das características de uma
situação de descivilização, como definida
por Norbert Elias, que fala de uma série de fenómenos
que incrementam a violência e propiciam a crise dos factores de
estabilidade e de consistência nas relações
sociais. Uma conjuntura marcada por estas características é
ideal para o reforço do poder de uma organização
que deixa de ter pela frente oposição organizada,
núcleos de indivíduos agrupados em torno de interesses
e capazes de contestar o monopólio de poder do regime que
procurava consolidar-se na Rússia.
Incapaz
de gerar os consensos suficientes para prosseguir a mudança
social, o partido comunista vai impor as suas regras através
de medidas repressivas e de acções punitivas,
humilhando e criminalizando, primeiro, e descivilizacionando depois,
grupos sociais inteiros. Uma situação de «fracasso
da civilização» (Norbert Elias) caracterizada por
uma profunda violência transversal a toda a sociedade, dos
centros de poder à pessoa mais anónima; com a
destruição ou subalternização das regras
de referência, a regressão de valores e comportamentos,
a negação de direitos civis e políticos
desproporcionada face às acusações dirigidas a
comportamentos e sectores sociais, que são criminalizados
O
partido comunista soviético na época de que se ocupa L’Ile des Cannibales desencadeou um processo que conduzia à
anomia política e social, espaço ideal para a aplicação
da sua utopia de «despoluição» e
«reabilitação» da sociedade. Dois conceitos
que mascararam um processo de destruição da liberdade e
dignidade humana, da autonomia social e cultural da maioria da
população russa, tornada mera refém do regime.
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