Justiça do Destino
por F Santos
Por ocasião do centenário do
nascimento de Dmitri Shostakovitch, comemorado em 2006, debateu-se o
papel político que o grande compositor terá tido na
URSS. Uns acusaram-no de ter apoiado tácita ou explicitamente
Estaline nas suas obras, outros lembraram a enorme pressão que
sofriam todos os criadores naquele país, sendo forçados
num momento ou noutro a condescender e a compor obras na linha que
defendia o partido, ou seja, obras "ao serviço do povo".
A discussão tornou-se um
pouco inconsequente pois os factos acabam por dar argumentos a ambas
as opiniões.
Na URSS a criação
artística era extremamente vigiada. Os compositores que
fugissem à linha do "realismo socialista" eram
acusados publicamente de "formalismo" e, na prática,
intimados a inverter o rumo. Assim sucedeu com Prokofiev, com
Shostakovitch e muitos outros. O que nunca os impediu de reincidir, o
que só por si dá mostras do seu inconformismo e, porque
não dizê-lo, da sua coragem.
Shostakovitch, só no campo
das sinfonias, fornece-nos bastos exemplos. A Quinta e a Sétima,
compostas durante a II Guerra Mundial, são sinfonias
"heróicas", exaltando a resistência soviética
ao invasor alemão. A Quinta é uma obra soberba,
empolgante e de grande intensidade dramática. A Sétima,
chamada "Leninegrado", evoca a estóica resistência
da martirizada cidade ao invasor. É famoso o andamento que
descreve, num crescendo angustiante, o avanço das tropas
nazis. É talvez mais enfática que a Quinta.
Em contraponto a estas obras temos a
Nona e a Décima Quarta Sinfonias. A nomenclatura do regime, e
Estaline em particular, tinha grandes expectativas aquando da estreia
daquela, pois julgavam que a exaltação à grande
vitória soviética se expressaria musicalmente como
nunca. Em vez disso, em vez do triunfalismo plasmado em música,
surgiu uma obra introspectiva, nada heróica, satírica
até em alguns momentos. A acusação de
"formalismo" recaíu novamente sobre o compositor,
que declarou a propósito da obra: «Os músicos
terão enorme prazer em a tocar e os críticos em a
arrasar».
A primeira récita da Décima
Quarta Sinfonia, só para as grandes figuras do regime, acabou
por ser histórica não apenas por motivos estritamente
musicais. O grande maestro Rudolf Barshai, que dirigiu a obra nesse
dia, fez uma espantosa evocação do que ocorreu na sala
de concertos do Conservatório de Moscovo:
«No dia de estreia apenas se
podia entrar por convite. Na primeira parte executámos a
Sinfonia “A Paixão”, de Joseph Haydn, e na segunda a
Sinfonia Nº 14 de Shostakovitch. O auditório estava cheio
de notáveis do regime, ministros, membros do politburo,
todos... Durante a interpretação da obra de
Shostakovitch algo de terrível e assombroso se passou: morreu,
com um enfarte, Apostolov, o antigo chefe da Chéka, o
homem-chave do KGB e director do Departamento de Música do
Partido Comunista da URSS, o homem que mais mortificou Shostakovitch
em toda a sua vida, o homem que escreveu o texto do famoso artigo
“Caos e não música”, publicado no Pravda e
atribuído a Estaline, e o homem que preparou o famoso decreto
de Zhdanov contra o formalismo: esse era Apostolov. Durante a
interpretação ouvi ruído na sala, mas não
me voltei para trás, e só no final soube que Apostolov
tinha tido um ataque e morrera na plateia. Quando Shostakovitch veio
ter comigo ao camarim vi que estava muito impressionado: “Eu não
queria isto, não o desejava”. Retorqui: “ Dmitri, foi a
música que o matou: essas palavras, essa música eram
algo demasiado forte para Apostolov”. Na verdade, estou em crer que
quando ele escutou os terríveis versos da “Resposta dos
Cossacos ao Sultão de Constantinopla”, interpretou que lhe
eram dirigidos. E os versos de Apolinaire sobre o poeta na prisão
devem também ter sido por ele interpretados como o espelho da
sua própria conduta, daquilo que tinha feito a tantos outros,
entre os quais Shostakovitch, cujas vidas destroçou. Foi algo
tremendo, como que uma justiça do destino.»
Shostakovitch
conseguiu manter um equilíbrio instável entre a sua
pulsão criativa e as pressões externas. Não foi
um compositor de vanguarda strictu sensu, não aderiu ao
serialismo em voga no pós-guerra mas não deixou de ser
bastante original, mesmo não abandonando a grande tradição
musical ocidental. Nas suas últimas sinfonias e nos seus
últimos quartetos de cordas abeira-se da atonalidade, a
intensidade melódica chega a extremos a que já chegara
Gustav Mahler na sua inacabada Décima Sinfonia. Em última
análise Shostakovitch demonstrou, tanto aos zeladores da
estética soviética como aos críticos modernistas
ocidentais, que não é necessário fazer rupturas
na tradição musical para se ser original - e
intemporal. A popularidade de que goza a sua música acaba por
ser também uma justiça do destino.
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