Relação militar dos Portugueses
com o Império do Meio
por J. Luís
Andrade
Quando recrudesce o interesse do
comércio português com a China, parece-me interessante
conhecer os primórdios das relações entre os
agentes da nossa Expansão e a China. Apesar do grande
distanciamento da Corte Chinesa, foi porventura a única época
em que Portugal se deu ao respeito naquelas paragens. Eis o primeiro
de dois artigos sobre a relação militar dos Portugueses
com o Império do Meio.
Em princípios do séc. XVI, chegou ao litoral de Cantão
uma gente estranha, vinda de muito longe, a que chamaram bo-yi (estrangeiros que vivem nos navios), ao-yi (estrangeiros das enseadas) ou, pela sua identificação
anatómica ocidental, Fo-lang-ji .
Eram os Portugueses ,
vindos de Malaca pela mão dos comerciantes chineses locais que
Albuquerque protegera e dos seus correspondentes em Patane, no Sião.
Perante a dimensão e sofisticação da cultura
chinesa, viam abrir-se à sua frente todo um mundo novo de
oportunidades e de desafios. E muitos, aventureiros e homiziados,
trataram logo de iniciar actividades e expedições por
sua conta e risco.
Inicialmente mal diferenciados dos propósitos dos piratas
japoneses, os Portugueses só foram levados mais a sério
quando as autoridades de Cantão experimentaram o poder das
suas “fortalezas flutuantes”.
Ainda sob o efeito dos ecos da tomada de Malaca, sultanato tributário
de Pequim e portador do feng imperial, a corte Ming aceita
como válidas as impressões dos dignitários de
Cantão que definiram os Portugueses como ardilosos,
perspicazes e imprevisíveis. O desdém com que os Ming
nos trataram inicialmente advinha do facto de, na sua arrogante
consideração, não admitirem como falso o juízo
de que se não nos haviam conhecido até então era
porque só podíamos vir de um pequeno e desprezável
país .
Só a ousadia e o impressionante poder de fogo dos nossos
navios obrigou os Chineses a mudar de aviso.
Com efeito, os Portugueses de então dominavam como ninguém
a arte da guerra no mar. Embarcações e artilharia eram
servidas por excelentes e experimentados marinheiros e bombardeiros,
com o tirocínio tirado nas operações militares
de Marrocos e do Índico.
A abertura Ming para a intervenção dos Portugueses

Na altura dos primeiros contactos, a sociedade chinesa tinha-se
gradualmente afastado do espírito das campanhas de
consolidação dos Sung e o ethos militar dos
imperadores Ming iniciais já não era compartilhado pela
maioria dos seus súbditos. Com o serviço militar
desprestigiado, totalmente sujeito a burocratas e cortesãos, a
estruturação das Forças Armadas teve que ser
efectuada com o recurso à criação de uma casta
militar hereditária. Só que, ao contrário do que
sucedia com a nobreza feudal ocidental, esse conjunto apresentava um
estatuto social pouco considerado. Os generais chineses viam-se
obrigados a usar os seus soldados como trabalhadores braçais
afectando profundamente a moral dos Corpos militares. As guarnições
longínquas e isoladas, sobretudo nas estepes do Noroeste,
impossibilitadas de cultivar pelos constantes e imprevisíveis raids dos cavaleiros nómadas, morriam muitas vezes à
fome, esquecidas e negligenciadas pelo Poder Central. Os índices
de deserção eram elevadíssimos e os oficiais
tiravam disso proveito, aldrabando os registos para continuar a
receber o pré dos ausentes num esquema de desfalque bem
frequente. Outra fonte de recrutamento de chefes militares eram,
imagine-se, os eunucos do Palácio ou os académicos
burocratas.
Com todo este triste cenário, foi Paulo Xu Guang-qi
(considerado um dos três pilares do catolicismo na China),
segundo consta, quem primeiro sugeriu a ideia de os Portugueses
prestarem apoio militar aos Mings. Na carta ânua de 1620, o
padre Kirwitzer descreve o plano e os argumentos de Xu. Segundo ele,
os Portugueses poderiam enviar alguns canhões de Macau, onde
existia já uma incipiente fundição de
artilharia sob a direcção de alguns práticos artilheiros,
acompanhados por especialistas e por Jesuítas. A associação
dos sacerdotes à equipa técnica justificava-se pelo
facto de conhecerem bem as noções de tiro e táctica
e, por dominarem a língua do Norte, serem os únicos
capazes de ministrar instrução aos soldados chineses. O
partido reformador Tung-lin procurava por um lado, implementar a
genuína defesa do Império e, por outro, restaurar e
reafirmar o prestígio dos Portugueses e dos Jesuítas,
garantido o seu apoio à mudança política e
cultural que pretendiam.
É importante realçar que se vivia então em
Pequim uma tremenda convulsão, com os eunucos, chefiados por
Wei Chung-hsien e com a cumplicidade de outros servidores imperiais,
a tentarem o controlo absoluto da vida do Palácio e, logo, do
Império. A intriga e a defesa do status quo do grupo
sobrepunha-se à necessidade de defesa urgente da fronteira
Norte.
Aí, Nurhaci, um jovem chefe tribal dos Chien-chu, uma das três
principais divisões do povo Jurchen, havia conseguido submeter
e unir toda a etnia que ocupava os territórios a Norte da
Coreia, a Nordeste da China, com excepção dos Yehe. Em
1609, seguro da sua força e conhecendo a debilidade do regime
de Pequim, Nurhaci deixou de pagar tributo e autoproclamou-se
Imperador, o primeiro da que viria ser a dinastia Qing ou Manchu.
Em 1618 decidiu invadir a China, capturando várias cidades
incluindo Fu-shun. Alarmado, o imperador Wan-li enviou Yang Hao,
vice-presidente do Comité da Guerra para, com quatro
exércitos, enfrentar os Manchus. Três desses exércitos
foram totalmente desbaratos, um por um, e o quarto teve de fugir. Xu
solicitou em 1619 a Wan-li que o deixasse ir aconselhar os Coreanos
na luta contra os Jurchen. Apesar do apoio do Comité da
Guerra, Wan-li recusou e, em vez disso, enviou-o para Tungchow, para
treinar novos recrutas. Sem meios logísticos nem financeiros,
Xu experimentou mais uma profunda frustração. No ano
seguinte morre o Imperador e, na subsequente luta intestina, a
intriga dos eunucos acabou por triunfar. Incapaz de contrariar o
poder de Wei Chung-hsien, Xu resigna mas, um ano depois, após
um novo desastre militar chinês às mãos dos
Manchus, é outra vez chamado a Pequim. Contudo, com a nomeação
do seu adversário político Shên Ch’üeh
para um alto cargo, retira-se de novo, desta vez para a sua terra
natal, Xangai.
Xu estava cada vez mais convencido de que só com modernas
técnicas e novos instrumentos de guerra poderiam os Manchus
vir a ser detidos. A sua atenção havia recaído
nas armas de fogo, sobretudo nos canhões. Repetidamente,
insistira com as autoridades de Pequim para que recorressem aos
Portugueses.
As 1ªs Expedições
Em 1620-21, quando se encontrava à frente do centro de treino
de Tungchow, Paulo Xu enviou uma missão não oficial a
Macau, dirigida por dois cristãos, Miguel Zhang Tao e Paulo
Sung. Bem recebidos pelas autoridades portuguesas não
obtiveram no entanto qualquer compromisso por parte destas, receosas
que estavam da ameaça de um ataque holandês e
incomodadas pelo carácter não oficial da missão.
Mesmo assim resolveram enviar os quatro canhões pedidos por
Paulo Xu e uma pequena equipa de artilheiros .
A expedição, caída na teia da intriga e do
braço-de-ferro entre as duas fracções políticas,
viu o seu fim em Cantão. Por não se tratar de uma
embaixada formal, o pessoal foi reenviado para Macau mas os canhões
ficaram retidos pelas autoridades.
Pouco antes de Xu se ter retirado para Xangai em 1621, Leão
Chih-tsao que vivia afastado em Hangchow foi chamado a Pequim para
assumir cumulativamente, o lugar de sub-director dos Banquetes
Imperiais e director do Departamento de Canais e Diques, no
Ministério das Obras Públicas. Tirando partido desse
estatuto, insistiu no prosseguimento do plano de Hsü em
solicitar apoio aos Portugueses quer para fundir quer para operar
canhões mas desta vez de forma oficial. O Ministério da Guerra
concordou e desde logo requisitou os quatro canhões retidos em
Cantão para Pequim. Miguel Zhang e Paul Sung de novo foram a
Macau mas desta vez com estatuto oficial.
Os Portugueses, já então habituados às
chinesices dos sinais de Pequim, rejubilaram pois era a primeira vez
que, de maneira indiscutível, recebiam reconhecimento oficial
do Império do Meio. O facto de os embaixadores serem católicos
ainda mais elevou o significado da visita.
Como o capitão Lopo de Sarmento, regressado de uma viagem ao
Japão, as tivesse informado de que os Holandeses dificilmente
teriam forças nos mares da China para atacar Macau, as
autoridades portuguesas, ansiosas por agradar aos Ming, resolveram
enviar um contingente suficiente para manobrar os anteriores quatro
canhões e mais trinta peças que os chineses haviam
recuperado de um navio holandês ou inglês naufragado.
Assumiu o comando da expedição Lourenço Velho
que, ao que tudo indica, chegou ao Norte em 1623, acompanhado por
alguns artilheiros. Segundo os registos do Ming Shih Lu (MSL),
foram 24 os portugueses que viajaram nesta expedição.
De acordo com essa fonte compunham-na sete chefes, um intérprete e dezasseis ajudantes.
Mas com o advento de Wei Chung-hsien ao poder, um velho inimigo dos
cristãos Shên Ch’üeh reaparecera em cena, desta
vez na qualidade de Grande Secretário. Todo o esforço
dos patriotas católicos foi por água abaixo e a
expedição entrou num compasso de espera.
Como se esta cinzenta conjuntura não fosse suficiente, um dos
canhões, operado por bombardeiros chineses inexperientes,
rebentou em Pequim, causando vários mortos entre os quais o
português João Correia. Desta vez, o bode expiatório
foi Leão Chih-tsao que teve de retirar-se novamente para
Hangchow.
Contudo, ao que tudo indica, uma das armas restantes e algum pessoal
artilheiro foi levado para o norte para a marca Manchu, onde
demonstrou o poder de fogo das peças junto da Grande Muralha,
tendo a sua intervenção sido determinante no
afastamento temporário dos nómadas.
Estes retomaram, no entanto, os seus ataques em 1629 e, para
flanquear a sólida defesa do General Yüan Ch’ung-huan,
os cavaleiros manchus deslocaram-se para levante, aparecendo nas suas
costas, próximo de Pequim. Apoiados sobretudo no seu número,
os chineses conseguiram aguentar e, depois de grande mortandade, os
tártaros recuaram.
(continua)
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(1) Um termo de divulgação islâmica, vindo do árabe Faranji ou Frangue, com que no Médio-Oriente se
designaram os súbditos do império carolíngio e
que, por antonomásia, passou a identificar todos os
ocidentais.
(2) A identificação dos Portugueses foi sempre feita
pelos Ming por aquela designação. Foram tentadas
várias formas de especificação da nossa
identidade mas sem grande sucesso, pelo menos no que diz respeito às
crónicas e registos escritos. Citando como origem das
expedições a Índia ou Malaca, diversos embaixadores portugueses procuraram insistir no nome Pu-li-du-jia mas a forma não pegou. Só mais
tarde, mercê da influência e informação
geográfica dos Jesuítas junto da Corte Manchu,
passámos a ser identificados, já no séc. XVIII,
por Xi-yang-bo-er-du-ge-er-guo, ou seja, Portugal do Oceano
Ocidental. (v. g. James Chin Kong, Portugal e a China)
(3) As várias designações dadas aos estrangeiros,
mesmo quando hierarquizados, reflectiam sempre uma visão de
superioridade rácica que teima em persistir. Embora de
difícil tradução específica, man, yi, di, mo ou fan acabavam por ter
subjacente uma condição, algo pejorativa, afirmativa
da superioridade da cultura chinesa. As considerações
de natureza ética e a moral não se lhes aplicavam como
não se aplicam aos animais.
(4) Em 1625, Manuel Tavares Bocarro chegou a Macau, vindo de Goa, onde
aprendera a arte com o pai, para reformular e dirigir a fundição.
A fábrica ficou localizada numa zona designada por
Chunambeiro, junto à Fortaleza do Bom Parto e no sopé
da colina da Penha. O encontro das técnicas metalúrgicas
ocidentais e orientais tornou famosa a oficina tendo produzido
inúmeros canhões, sinos e estátuas.
(5) De acordo com os arquivos pessoais de Paulo Xu, um dos pilares da
difusão do catolicismo na China que viveu entre 1562 e 1633,
eram seis técnicos (?), intérpretes e impedidos.
Natural de Song-jiang, perto de Xangai, foi um importante ministro
da corte Ming, tendo sido baptizado pelo Padre João da Rocha
(6) Embora Boxer afirme que os Chineses apenas queriam canhões, o Ming Shih Lu, regista que igualmente eram pretendidos
fundidores.
(7) O intérprete era o Jesuíta João Rodrigues, da
Missão do Japão, onde durante anos, havia servido de
intérprete a Hideyoshi e ao seu sucessor, Ieyasu.
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