Ano I - Nº 5, Janeiro de 2007
Alameda Digital
Segurança e Defesa
Relação militar dos Portugueses com o Império do Meio

por J. Luís Andrade

Quando recrudesce o interesse do comércio português com a China, parece-me interessante conhecer os primórdios das relações entre os agentes da nossa Expansão e a China. Apesar do grande distanciamento da Corte Chinesa, foi porventura a única época em que Portugal se deu ao respeito naquelas paragens. Eis o primeiro de dois artigos sobre a relação militar dos Portugueses com o Império do Meio.

Em princípios do séc. XVI, chegou ao litoral de Cantão uma gente estranha, vinda de muito longe, a que chamaram bo-yi (estrangeiros que vivem nos navios), ao-yi (estrangeiros das enseadas) ou, pela sua identificação anatómica ocidental, Fo-lang-ji. Eram os Portugueses, vindos de Malaca pela mão dos comerciantes chineses locais que Albuquerque protegera e dos seus correspondentes em Patane, no Sião. Perante a dimensão e sofisticação da cultura chinesa, viam abrir-se à sua frente todo um mundo novo de oportunidades e de desafios. E muitos, aventureiros e homiziados, trataram logo de iniciar actividades e expedições por sua conta e risco.

Inicialmente mal diferenciados dos propósitos dos piratas japoneses, os Portugueses só foram levados mais a sério quando as autoridades de Cantão experimentaram o poder das suas “fortalezas flutuantes”.

Ainda sob o efeito dos ecos da tomada de Malaca, sultanato tributário de Pequim e portador do feng imperial, a corte Ming aceita como válidas as impressões dos dignitários de Cantão que definiram os Portugueses como ardilosos, perspicazes e imprevisíveis. O desdém com que os Ming nos trataram inicialmente advinha do facto de, na sua arrogante consideração, não admitirem como falso o juízo de que se não nos haviam conhecido até então era porque só podíamos vir de um pequeno e desprezável país. Só a ousadia e o impressionante poder de fogo dos nossos navios obrigou os Chineses a mudar de aviso.

Com efeito, os Portugueses de então dominavam como ninguém a arte da guerra no mar. Embarcações e artilharia eram servidas por excelentes e experimentados marinheiros e bombardeiros, com o tirocínio tirado nas operações militares de Marrocos e do Índico.

A abertura Ming para a intervenção dos Portugueses

Na altura dos primeiros contactos, a sociedade chinesa tinha-se gradualmente afastado do espírito das campanhas de consolidação dos Sung e o ethos militar dos imperadores Ming iniciais já não era compartilhado pela maioria dos seus súbditos. Com o serviço militar desprestigiado, totalmente sujeito a burocratas e cortesãos, a estruturação das Forças Armadas teve que ser efectuada com o recurso à criação de uma casta militar hereditária. Só que, ao contrário do que sucedia com a nobreza feudal ocidental, esse conjunto apresentava um estatuto social pouco considerado. Os generais chineses viam-se obrigados a usar os seus soldados como trabalhadores braçais afectando profundamente a moral dos Corpos militares. As guarnições longínquas e isoladas, sobretudo nas estepes do Noroeste, impossibilitadas de cultivar pelos constantes e imprevisíveis raids dos cavaleiros nómadas, morriam muitas vezes à fome, esquecidas e negligenciadas pelo Poder Central. Os índices de deserção eram elevadíssimos e os oficiais tiravam disso proveito, aldrabando os registos para continuar a receber o pré dos ausentes num esquema de desfalque bem frequente. Outra fonte de recrutamento de chefes militares eram, imagine-se, os eunucos do Palácio ou os académicos burocratas.

Com todo este triste cenário, foi Paulo Xu Guang-qi (considerado um dos três pilares do catolicismo na China), segundo consta, quem primeiro sugeriu a ideia de os Portugueses prestarem apoio militar aos Mings. Na carta ânua de 1620, o padre Kirwitzer descreve o plano e os argumentos de Xu. Segundo ele, os Portugueses poderiam enviar alguns canhões de Macau, onde existia já uma incipiente fundição de artilharia sob a direcção de alguns práticos artilheiros, acompanhados por especialistas e por Jesuítas. A associação dos sacerdotes à equipa técnica justificava-se pelo facto de conhecerem bem as noções de tiro e táctica e, por dominarem a língua do Norte, serem os únicos capazes de ministrar instrução aos soldados chineses. O partido reformador Tung-lin procurava por um lado, implementar a genuína defesa do Império e, por outro, restaurar e reafirmar o prestígio dos Portugueses e dos Jesuítas, garantido o seu apoio à mudança política e cultural que pretendiam.

É importante realçar que se vivia então em Pequim uma tremenda convulsão, com os eunucos, chefiados por Wei Chung-hsien e com a cumplicidade de outros servidores imperiais, a tentarem o controlo absoluto da vida do Palácio e, logo, do Império. A intriga e a defesa do status quo do grupo sobrepunha-se à necessidade de defesa urgente da fronteira Norte.

Aí, Nurhaci, um jovem chefe tribal dos Chien-chu, uma das três principais divisões do povo Jurchen, havia conseguido submeter e unir toda a etnia que ocupava os territórios a Norte da Coreia, a Nordeste da China, com excepção dos Yehe. Em 1609, seguro da sua força e conhecendo a debilidade do regime de Pequim, Nurhaci deixou de pagar tributo e autoproclamou-se Imperador, o primeiro da que viria ser a dinastia Qing ou Manchu.

Em 1618 decidiu invadir a China, capturando várias cidades incluindo Fu-shun. Alarmado, o imperador Wan-li enviou Yang Hao, vice-presidente do Comité da Guerra para, com quatro exércitos, enfrentar os Manchus. Três desses exércitos foram totalmente desbaratos, um por um, e o quarto teve de fugir. Xu solicitou em 1619 a Wan-li que o deixasse ir aconselhar os Coreanos na luta contra os Jurchen. Apesar do apoio do Comité da Guerra, Wan-li recusou e, em vez disso, enviou-o para Tungchow, para treinar novos recrutas. Sem meios logísticos nem financeiros, Xu experimentou mais uma profunda frustração. No ano seguinte morre o Imperador e, na subsequente luta intestina, a intriga dos eunucos acabou por triunfar. Incapaz de contrariar o poder de Wei Chung-hsien, Xu resigna mas, um ano depois, após um novo desastre militar chinês às mãos dos Manchus, é outra vez chamado a Pequim. Contudo, com a nomeação do seu adversário político Shên Ch’üeh para um alto cargo, retira-se de novo, desta vez para a sua terra natal, Xangai.

Xu estava cada vez mais convencido de que só com modernas técnicas e novos instrumentos de guerra poderiam os Manchus vir a ser detidos. A sua atenção havia recaído nas armas de fogo, sobretudo nos canhões. Repetidamente, insistira com as autoridades de Pequim para que recorressem aos Portugueses.

As 1ªs Expedições

Em 1620-21, quando se encontrava à frente do centro de treino de Tungchow, Paulo Xu enviou uma missão não oficial a Macau, dirigida por dois cristãos, Miguel Zhang Tao e Paulo Sung. Bem recebidos pelas autoridades portuguesas não obtiveram no entanto qualquer compromisso por parte destas, receosas que estavam da ameaça de um ataque holandês e incomodadas pelo carácter não oficial da missão. Mesmo assim resolveram enviar os quatro canhões pedidos por Paulo Xu e uma pequena equipa de artilheiros.

A expedição, caída na teia da intriga e do braço-de-ferro entre as duas fracções políticas, viu o seu fim em Cantão. Por não se tratar de uma embaixada formal, o pessoal foi reenviado para Macau mas os canhões ficaram retidos pelas autoridades.

Pouco antes de Xu se ter retirado para Xangai em 1621, Leão Chih-tsao que vivia afastado em Hangchow foi chamado a Pequim para assumir cumulativamente, o lugar de sub-director dos Banquetes Imperiais e director do Departamento de Canais e Diques, no Ministério das Obras Públicas. Tirando partido desse estatuto, insistiu no prosseguimento do plano de Hsü em solicitar apoio aos Portugueses quer para fundir quer para operar canhões mas desta vez de forma oficial. O Ministério da Guerra concordou e desde logo requisitou os quatro canhões retidos em Cantão para Pequim. Miguel Zhang e Paul Sung de novo foram a Macau mas desta vez com estatuto oficial.

Os Portugueses, já então habituados às chinesices dos sinais de Pequim, rejubilaram pois era a primeira vez que, de maneira indiscutível, recebiam reconhecimento oficial do Império do Meio. O facto de os embaixadores serem católicos ainda mais elevou o significado da visita.

Como o capitão Lopo de Sarmento, regressado de uma viagem ao Japão, as tivesse informado de que os Holandeses dificilmente teriam forças nos mares da China para atacar Macau, as autoridades portuguesas, ansiosas por agradar aos Ming, resolveram enviar um contingente suficiente para manobrar os anteriores quatro canhões e mais trinta peças que os chineses haviam recuperado de um navio holandês ou inglês naufragado. Assumiu o comando da expedição Lourenço Velho que, ao que tudo indica, chegou ao Norte em 1623, acompanhado por alguns artilheiros. Segundo os registos do Ming Shih Lu (MSL), foram 24 os portugueses que viajaram nesta expedição. De acordo com essa fonte compunham-na sete chefes, um intérprete e dezasseis ajudantes.

Mas com o advento de Wei Chung-hsien ao poder, um velho inimigo dos cristãos Shên Ch’üeh reaparecera em cena, desta vez na qualidade de Grande Secretário. Todo o esforço dos patriotas católicos foi por água abaixo e a expedição entrou num compasso de espera.

Como se esta cinzenta conjuntura não fosse suficiente, um dos canhões, operado por bombardeiros chineses inexperientes, rebentou em Pequim, causando vários mortos entre os quais o português João Correia. Desta vez, o bode expiatório foi Leão Chih-tsao que teve de retirar-se novamente para Hangchow.

Contudo, ao que tudo indica, uma das armas restantes e algum pessoal artilheiro foi levado para o norte para a marca Manchu, onde demonstrou o poder de fogo das peças junto da Grande Muralha, tendo a sua intervenção sido determinante no afastamento temporário dos nómadas.

Estes retomaram, no entanto, os seus ataques em 1629 e, para flanquear a sólida defesa do General Yüan Ch’ung-huan, os cavaleiros manchus deslocaram-se para levante, aparecendo nas suas costas, próximo de Pequim. Apoiados sobretudo no seu número, os chineses conseguiram aguentar e, depois de grande mortandade, os tártaros recuaram.

(continua)

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(1) Um termo de divulgação islâmica, vindo do árabe Faranji ou Frangue, com que no Médio-Oriente se designaram os súbditos do império carolíngio e que, por antonomásia, passou a identificar todos os ocidentais.

(2) A identificação dos Portugueses foi sempre feita pelos Ming por aquela designação. Foram tentadas várias formas de especificação da nossa identidade mas sem grande sucesso, pelo menos no que diz respeito às crónicas e registos escritos. Citando como origem das expedições a Índia ou Malaca, diversos embaixadores portugueses procuraram insistir no nome Pu-li-du-jia mas a forma não pegou. Só mais tarde, mercê da influência e informação geográfica dos Jesuítas junto da Corte Manchu, passámos a ser identificados, já no séc. XVIII, por Xi-yang-bo-er-du-ge-er-guo, ou seja, Portugal do Oceano Ocidental. (v. g. James Chin Kong, Portugal e a China)

(3) As várias designações dadas aos estrangeiros, mesmo quando hierarquizados, reflectiam sempre uma visão de superioridade rácica que teima em persistir. Embora de difícil tradução específica, man, yi, di, mo ou fan acabavam por ter subjacente uma condição, algo pejorativa, afirmativa da superioridade da cultura chinesa. As considerações de natureza ética e a moral não se lhes aplicavam como não se aplicam aos animais.

(4) Em 1625, Manuel Tavares Bocarro chegou a Macau, vindo de Goa, onde aprendera a arte com o pai, para reformular e dirigir a fundição. A fábrica ficou localizada numa zona designada por Chunambeiro, junto à Fortaleza do Bom Parto e no sopé da colina da Penha. O encontro das técnicas metalúrgicas ocidentais e orientais tornou famosa a oficina tendo produzido inúmeros canhões, sinos e estátuas.

(5) De acordo com os arquivos pessoais de Paulo Xu, um dos pilares da difusão do catolicismo na China que viveu entre 1562 e 1633, eram seis técnicos (?), intérpretes e impedidos. Natural de Song-jiang, perto de Xangai, foi um importante ministro da corte Ming, tendo sido baptizado pelo Padre João da Rocha

(6) Embora Boxer afirme que os Chineses apenas queriam canhões, o Ming Shih Lu, regista que igualmente eram pretendidos fundidores.

(7) O intérprete era o Jesuíta João Rodrigues, da Missão do Japão, onde durante anos, havia servido de intérprete a Hideyoshi e ao seu sucessor, Ieyasu.

 

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