Da necessidade e da inutilidade das Forças Armadas
por Miguel Castelo Branco
Olhando para os últimos duzentos anos da história europeia,
verificamos serem Portugal, a Espanha, a Grécia, a Polónia e a Roménia
os países onde o intervencionismo militar na vida política maior
expressão assume. Tal significa, numa análise superficial, que é na
periferia mais pobre do continente que os militares maior dose de
legitimidade conseguem reunir para quebrar as regras do jogo político
civil, impor e destruir regimes e fazer ditar constituições e novos
ordenamentos políticos. Na restante Europa, o intervencionismo dos
militares é pontual, acidental e extraordinário, ocorrendo apenas em
momentos particularmente trágicos em que a unidade do Estado surge
ameaçada por factores externos (complot contra Hitler, em Julho de
1944; tomada de poder por De Gaulle em plena crise da Argélia, em
1958) ou pelo iminente colapso da ordem pública (intentona do general
Boulanger para marchar sobre Paris, em 1889; tentativa falhada de
golpe de Vito Micelli em Itália, em Setembro de 1974).
O papel dos militares surge, na orla europeia, como algo que excede as
competências de quem, detendo as armas, se ocupa profissionalmente da
preparação técnica para a execução de tarefas dimanadas do poder
civil. Os militares, aqui, constituem-se em agentes da vida política,
intervindo sempre que invocado impasse, perigo ou possibilidade da
ordem se precipitar nas ruas por ausência de capacidade dos políticos.
É na Espanha e em Portugal que a tradição dos pronunciamentos maior
evidência revela na cisão entre um "partido armado" e os "partidos".
Em Portugal, toda a vida colectiva sofreu, desde 1820, desta invocação
intervencionista: a revolução de 1820, a Vilafrancada (1823), a
Abrilada (1824), o Setembrismo (1836), o Cabralismo (1842), a
Regeneração (1851), a República (1910), o Sidonismo (1917), o 28 de
Maio de 1926, e o 25 de Abril de 1974 foram-no por acção dos
militares. O percurso acidentado da nossa vizinha é ainda mais
vincado, dado aí os militares se apossarem do poder e não o entregarem
a civis da sua estima e confiança. Miguel Primo de Rivera e Francisco
Franco nunca confiaram nos políticos civis, mantendo-os sempre perto
num hábil jogo de acenos e promessas, sem jamais abdicarem do poder de
facto que a solidariedade dos seus pares militares garantia.
Assim, em Portugal e Espanha, os militares, mais que profissionais,
constituíram-se em organização com capacidade de governar,
identificando-se, mesmo, com o fundamento da unidade nacional, pelo
que, intérpretes da vontade geral, se arvoraram em garantes da
sobrevivência do Estado e do interesse colectivo. Nos séculos XIX e
XX, a oficialagem portuguesa e espanhola era um escol: os melhores
arquitectos, engenheiros, matemáticos, médicos, químicos, cartógrafos
- e até um excelente naipe de literatos - era oriundo das fileiras
castrenses. Acresce que a esta competência, os militares
constituíam-se em grupo social, muitas vezes hereditário, que
acompanhava a história castrense e política marcado pela inculcação de
deveres, por uma sólida formação ética e por um reconhecimento público
de qualidades: probidade, patriotismo, justiça. Os oficiais eram
cavalheiros, detinham as espadas, mas, sobretudo, um status a que os
civis não conseguiam aspirar. Este sistema de coisas perdurou em
Portugal até às Guerras do Ultramar, e em Espanha até finais da década
de 60, quando uma nova geração de oficiais saída da classe média
emergente, tecnocrática e apolítica (i.e., que não vivera o 18 de
Julho) se desinteressou dos fundamentos da ordem franquista.
Se em Espanha, os militares se fizeram obedientes servidores do
Estado, mantendo e até aprofundando o seu múnus de competências (que
os civis não podem nem sabem executar), em Portugal a instituição
militar passou a ser escoadouro de filhos de famílias remediadas, uma
âncora para a promoção social da pequena burguesia e, logo, o espelho
da mentalidade do homem comum. Tal foi duplamente trágico, porquanto
as Forças Armadas, ao invés de se manterem distantes, se viram feridas
pela conflitualidade social e política e pelo ethos do uomo qualunque.
O tragicómico PREC foi o reflexo dessa impreparação, dessa falta de
exigência, desorganização, amadorismo, aventureirismo e falta de
autoridade de homens que não se queriam diferentes da população. A
longa galeria de mentecaptos, desclassificados e analfabetos que
dourou durante anos no firmamento político nacional mostrava a que
ponto as Forças Armadas haviam soçobrado.
Para escândalo dos civilistas, costumo defender o princípio de que as
coisas da defesa aos militares dizem respeito. Para reerguer as FA's
importaria confiar e investir nos quadros aptos para uma profunda
reforma ética, social e técnica. Olhando para os ministros civis que
têm passado pelo Ministério da Defesa, apercebemo-nos do imenso
desastre e insulto que tais figuras constituem para os militares
profissionais. Para recuperar o espírito castrense, importaria
restituir as funções ministeriais da defesa a militares profissionais
e não a amadores saídos dos cursilhos de defesa nacional. Vivendo numa
era perigosa - tamanhos são os indícios que se acastelam - não cumpre
às FA's imitar ou fingir que compreende as preocupações dos senhores
políticos. Infelizmente, todas as mudanças operadas ao longo dos
últimos anos - fim do SMO, crescente peso do elemento feminino, que é
um visível elemento de perturbação na vida das casernas - parecem mais
ditadas pela agenda do politicamente correcto que por uma profunda
reflexão. As FA's portuguesas não têm sido postas à prova em teatros
de operações realmente perigosos, dado exercerem apenas funções pouco
mais que simbólicas no quadro das alianças e organizações em que
Portugal detém lugar. Estou certo, infelizmente, que se tal situação
se propiciar, teremos um novo desastre militar. |