A Necessidade de
Outra Liberdade
por Jorge Azevedo Correia
Numa iniciativa de
apoio ao Sim no referendo próximo o dirigente do Bloco de
Esquerda João Teixeira Lopes afirmou que só a Mulher
(presumo que o Homem também) pode julgar as suas próprias
acções, “porque só ela sabe o que vive, o que
sofre, ela é que sabe o que é o seu quotidiano. Mais
ninguém pode decidir por ela”.
A “lei não
determina a nossa consciência”, clamou.
Sobre a possibilidade
da existência de uma ordem legislativa que não viole
qualquer tipo de consciência, infelizmente, nada se ouviu.
A liberdade a que o
ex-deputado alude é a de um homem no deserto. O homem que é
incapaz de se dizer livre a não ser isolado numa ilha ou num
qualquer eremitério, onde apenas as suas vontades determinam
os horizontes da sua acção. Esta situação
corresponde, por definição, ao paraíso
esquerdista. Uma sociedade onde não haveria necessidade de
repressão é uma ideia bastante sedutora, mas que tem
pouca correlação com qualquer governo humano. As razões
para isto são evidentes. O mundo tem recursos limitados e os
homens têm percepções diferentes da realidade, o
que significa que o Homem se move num mundo contingente. Marx como
brilhante filósofo do erro sabia que o seu engodo teria de ter
estas duas vertentes, a promessa do fim da escassez e o horizonte da
necessidade, que se tornariam na sua doutrina os elementos da “gestão
das coisas pelas coisas” e no “princípio da necessidade”,
que correspondem à estatização da ilha deserta,
afirmando que no futuro todos terão o que necessitam, mas que
o que necessitam será determinado pela necessidade da
colectividade.
Reside aí o
diagnóstico principal do problema. Ou o Estado coloca todos os
governados a pensar da mesma maneira (no caso de Marx numa posição
de impotência perante a sua Ditadura), ou essa concepção
de liberdade como irrestrição da Vontade é uma
impossibilidade. Ou encontramos um Estado que é todo-poderoso,
capaz de ditar as consciências e não apenas de punir o
crime (o pecado que se torna politicamente relevante), ou a
disparidade entre os desejos individuais e a realidade irá
emergir. O velho Marx sabia isto melhor que os seus sucedâneos
actuais.
A ideia de que a
liberdade reside nessa inatacabilidade do desejo individual é
bastante sedutora, mas absolutamente desligada da natureza do nosso
Mundo ou de qualquer admirável mundo novo. Como pode uma
sociedade evitar a frustração dos desejos do assassino,
do ladrão patológico ou do anarquista, do que se
aproveita dos filhos para satisfação de seus desejos
sexuais? Este caminho apresenta apenas duas opções: a
aceitação da não existência do justo e
injusto e a aceitação de que tudo o que é
decidido pela comunidade é lei sumária e inquestionável
(a solução de Rousseau e de Marx), concepção
que impede a própria liberdade como esfera de liberdade do
Estado. A outra opção é a que toda a esquerda
dos “direitos humanos” tem utilizado e que consiste num fechar de
olhos, fazendo fé que no dia em que os abrir todos se tenham
convertido, por auto-recreação, às suas
concepções “humanitárias”. Quem é
inconsequente pode dar-se a estes luxos...
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